Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Matheus Vigliar
Por Mariana Castro Alves
16/9/15

Em grego, “xénos” significa estrangeiro. “phobos”, “fobia”, ou seja, medo. É da junção dessas duas palavras que surgiu o termo xenofobia: medo ou aversão a tudo o que é estrangeiro – não apenas ao indivíduo, mas também a objetos, costumes, cultura, comida etc. O sentimento, tratado até pela psiquiatria, sempre existiu, mas hoje está na pauta do dia por conta da crise migratória na Europa, onde alguns países fecharam suas fronteiras para barrar a entrada de refugiados vindos do Oriente Médio e da África. A guerra civil na Síria e em países africanos, como o Paquistão e a Nigéria, mais a ação do Estado Islâmico no Iraque expulsam milhares de pessoas de seus países. Para sobreviver elas colocam a vida em risco para chegar ao continente europeu. E a xenofobia se mostra.

O primeiro-ministro húngaro Viktor Orban declarou que os refugiados, sobretudo muçulmanos – obrigados a passar pela Hungria para fugir da guerra e dos ataques do Estado Islâmico na Síria e chegar à Alemanha – são uma ameaça às raízes cristãs da Europa. Uma cinegrafista húngara, que teria ligações com a extrema direita, chegou a ser filmada agredindo refugiados. De acordo com Adriana Capuano de Oliveira, professora da Universidade Federal do ABC (UFABC), diversas manifestações e pesquisas têm apontado um crescimento da xenofobia na Europa. E esses dados têm uma relação direta com a crise migratória. “Quanto maior o número de estrangeiros residindo naquele território, maior a possibilidade de crescimento da xenofobia por grupos que tendem a manifestar tal ódio. Mas é preciso salientar, contudo, que ela (a xenofobia) sempre existiu”, diz a pesquisadora ao lembrar o terror nazista nos anos 1930 e 1940.

Desigualdade e xenofobia

Para Flávio de Leão Bastos Pereira, professor da Universidade Mackenzie, problemas relacionados aos imigrantes e refugiados têm se agravado. Ele cita como exemplo a França onde, desde 2014, o maior partido político é a Frente Nacional, de extrema-direita, comandado, até 2011, por Jean Marie Le Pen e, atualmente, por sua filha Marine Le Pen. “Um dos pilares do programa desse partido é a contenção da imigração para a Europa”, diz. De acordo com ele, a islamofobia é crescente e o antissemitismo já tem levado parte da comunidade judaica na França a trocar o país por Israel. Com a atual crise dos refugiados, o sentimento de xenofobia deve se agravar, segundo o pesquisador. “Os governos e partidos de extrema direita exploram o medo das populações e, com isso, inflamam e reforçam os sentimentos xenofóbicos”, afirma Pereira. “Há muita propaganda contra estrangeiros na Europa, difundida e endossada por grupos de ultradireita”, complementa a pesquisadora da UFABC.

Exemplos não faltam. A Hungria, que tem o partido político de extrema-direita Jobbik, levantou um muro na fronteira com a Sérvia. Na Grécia, simpatizantes do partido neonazista Aurora Dourada entram em confronto com refugiados que chegam às ilhas gregas pelo mar. No leste da Alemanha, refugiados foram atacados com violência na cidade de Dresden, cidade onde foi criado o movimento ultraconservador Pegida (Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente) que, em janeiro deste ano, reuniu 18 mil pessoas. “Nos países europeus do leste, saídos do regime comunista e mais pobres que os países do Ocidente, a xenofobia é ainda mais forte”, indica Pereira.

A xenofobia não é apenas um choque cultural que passa com o tempo. De acordo com Sylvia Duarte Dantas, coordenadora do Grupo de Pesquisa Diálogos Interculturais (IEA), da Universidade de São Paulo (USP): “na xenofobia, o outro é visto como uma ameaça. Seu exacerbamento é sintoma de um mundo muito desigual”. “O sentimento de impotência diante a complexidade do mundo atual faz com que as pessoas busquem um bode-expiatório”, analisa. Dantas, que também é professora da área de psicologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Os refugiados são originários do Oriente Médio, por conta da guerra na Síria e dos conflitos no Iraque, ambos agravados pelo avanço do Estado Islâmico. Chegam também de regiões da África dominadas por guerras civis onde o grupo terrorista islâmico Boko Haran espalha o terror e o medo. “Os que fogem da África entram pela Itália e Grécia; os que fogem do Oriente Médio seguem a rota da Turquia”, explica Pereira.

Uma questão complexa

É importante mencionar que refugiados e imigrantes são categorias diferentes de estrangeiros. O refugiado vai para outro país por uma questão de sobrevivência, em razão de perseguição política, guerras, genocídios etc. Já o imigrante busca emprego, estudo e melhores condições de vida. Como qualquer cidadão, eles pagam impostos, ou seja, também geram riqueza para o país receptor.

Nesse sentido, um dos argumentos para a recusa de estrangeiros é o que eles passam a competir no mercado de trabalho com o cidadão europeu. Na opinião de Pereira, no entanto, esse argumento não é válido porque a Europa é um continente de idosos e, portanto, precisa de mão de obra jovem para manter o sistema previdenciário. “Geralmente os postos de trabalho ocupados pelos imigrantes e refugiados são os braçais, subalternos, além do comércio. Não me parece que a causa da falta de empregos na Europa – que é uma realidade hoje – tenha nos imigrantes e refugiados sua principal causa”, complementa.

Para esse pesquisador, somente a estabilização econômica e política, aliada ao fim de grupos radicais, como o Estado Islâmico, podem manter as populações da África e do Oriente Médio em seus países, fazendo que esses conflitos acabem. Já Sylvia Dantas aposta em uma solução política: “com a globalização, é necessário que as instituições estejam preparadas para lidar com a vinda de pessoas de outra nacionalidade e cultura”, afirma. Já para a pesquisadora da UFABC, o melhor caminho para a solução da xenofobia, uma questão tão complexa que atravessa a história humana, é a educação e a difusão do conhecimento porque “no fundo, todos nós somos uma coisa só”, finaliza.

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