Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Matheus Vigliar
Por Patrícia Piacentini
6/8/14

Imagine um robô que consegue conversar, é capaz de analisar a reação de quem interage com ele e tem até senso de humor. Pois essa máquina já existe: é o Emiew (sigla para excellent mobility and interactive existence as workmate ou excelente mobilidade e existência interativa como colega de trabalho), da empresa japonesa Hitachi, que fez uma demonstração do robô em maio deste ano. Ele tem 80 centímetros, rodas nos pés e, segundo a fabricante, pode ser usado como um animal de estimação ou desempenhar algumas tarefas de um recepcionista. Já o Asimo, da Honda, pode correr a nove quilômetros por hora e prever os movimentos das pessoas.

Outra criação japonesa é um robô cuidador, capaz de levantar pacientes de até 80 quilos. São vários os indicativos de que essas máquinas farão cada vez mais parte do nosso dia a dia, mas fica a dúvida: seremos capazes de interagir em harmonia com essas máquinas projetadas para tomar o lugar de animais de estimação ou até mesmo de alguns profissionais, como babás e cuidadores?

Apesar do avanço dessas tecnologias, Eduardo Oliveira Freire, professor da Universidade Federal do Sergipe (UFS) e coordenador do Grupo de Pesquisa em Robótica nessa universidade, aponta que esses robôs ainda apresentam vários problemas para serem 100% operacionais em quaisquer ambientes e capazes de lidar com a infinidade de situações com as quais os humanos lidam todos os dias. “Ainda que um robô possa ajudar a levantar um paciente idoso, ele certamente não pode fazer todas as outras tantas funções de um enfermeiro. Existem robôs que fazem companhia para crianças, mas muito mais no papel de um brinquedo interativo do que como uma babá robótica”, menciona.

Ele acrescenta que essas máquinas têm poucas habilidades para tomar decisões: “Há robôs que são usados para ajudar crianças autistas a desenvolver suas habilidades de sociabilidade. Executam basicamente o que foram programados para fazer. Todas as respostas são pré-programadas, do tipo ‘se isso acontecer, faça tal coisa; se não acontecer, faça aquela outra coisa’”. Alguns robôs, no entanto, estão sendo programados para possuírem a capacidade de aprender. “As pesquisas nesse sentido estão crescendo muito, mas não conheço nenhum grupo que tenha provado a capacidade de aprendizado efetivo, no sentido que nós humanos aprendemos”, diz Freire.

Inteligência artificial

De acordo com Marco Henrique Terra, professor da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Centro de Robótica de São Carlos (Crob), esses robôs podem servir como ferramenta de apoio para enfermeiros, babás e cuidadores, mas ainda precisam da supervisão de um humano. “Apesar do aperfeiçoamento em toda parte sensorial que temos tido nessa categoria de robôs, é fundamental que tenhamos ainda supervisão humana para essas máquinas. É importante enfatizar que obviamente são equipamentos mecatrônicos, muito longe de terem a sensibilidade de um ser humano”, ressalta.

Apesar de as pesquisas em robótica no Japão estarem mais avançadas, nenhuma máquina desenvolvida pode ainda ser considerada inteligente. “É o conceito de Inteligência Artificial Forte, a qual permite que o ‘ente’ artificial ou robótico possa ser realmente considerado inteligente. Os robôs têm ideia de sua própria existência? O que eles farão caso seus criadores ou donos os jogarem em um canto ou no lixo? A ideia da existência de uma Inteligência Artificial Forte está muito ligada à criação de uma consciência nesses seres”, explica Dante Augusto Couto Barone, doutor em Informática e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ele destaca que, mesmo no Japão, a penetração real de robôs em lares ainda é muito reduzida. “Essa introdução pode até ocorrer, mas em paralelo os robôs têm que ficar mais inteligentes”, reforça.

O que é um robô?

De acordo com Terra, há anos a Robótica já faz parte da vida das pessoas, como na área de manufatura, principalmente na indústria automobilística. “Os carros já utilizam fortemente a Robótica no processo de fabricação. Mais do que isto, a quantidade de sensores instalados em carros tem sido cada vez maior. Isso permitirá, em um futuro não muito distante, que eles se desloquem de maneira praticamente autônoma, sem a necessidade de um motorista. Na Medicina, a Robótica tem sido utilizada cada vez mais como instrumento de apoio para os especialistas. Na indústria de entretenimento, essa tecnologia tem avançado a passos largos. Certamente a Robótica já faz parte das nossas vidas”, conclui.

Quando se afirma que muitos robôs já fazem parte do cotidiano das pessoas, é necessário pensar sobre as características que definem um robô. “Na verdade, não existe uma definição universalmente aceita do que seria um robô. O Asimo é obviamente um robô. Mas, e um carro absolutamente autônomo? E a nossa máquina de lavar de última geração? Para mim, qualquer dispositivo capaz de obter informações de seu ambiente externo através de sensores, processar essas informações, e com base nelas agir, produzindo algum efeito no seu ambiente externo, é um robô”, explica Freire.

Barone acrescenta que uma aplicação fundamental para a Robótica é substituir o homem em ambientes hostis ou insalubres, como na área próxima ao acidente nuclear em Fukushima (Japão) e no desarmamento de bombas pela polícia, o que já é feito em várias cidades do Brasil.

Para Freire, toda a evolução tecnológica atual, em que as pessoas passam o dia inteiro convivendo de perto com seus smartphones, está preparando a sociedade para isso. “Inicialmente, a receptividade aos robôs será mais fácil em tarefas mais simples e mais chatas, como ocorre hoje nas linhas de produção da indústria automobilística. A confiança a ponto de deixar um bebê aos cuidados de uma babá robótica, sem qualquer tipo de supervisão humana, é algo que vai demorar e dependerá das experiências acumuladas pelas pessoas no processo”, prevê.

Desafios e Limites

Os desafios na área da Robótica são vários, desde o uso de materiais mais apropriados, compactos e leves, para robôs voltados à reabilitação de pessoas com deficiências motoras, até a parte matemática desse tipo de tecnologia. “Como calcular e programar o próximo passo, a próxima atividade de um robô? Nessa linha, uma compreensão maior do funcionamento do cérebro humano terá um forte impacto também na evolução da Robótica”, esclarece Terra.

A Robótica, explica Freire, é uma ciência multidisciplinar e um dos grandes desafios é o aperfeiçoamento da interface homem-robô, que estuda métodos para que as pessoas possam informar aos robôs o que querem que eles façam e possam receber deles uma resposta compreensível.

Mas até onde pode ir o desenvolvimento tecnológico dos robôs? “O futuro dessas tecnologias está relacionado a uma série de fatores, entre eles os culturais. No Japão, por exemplo, esta tecnologia trilha um caminho diferente dos desenvolvimentos feitos na Europa e na América. A sociedade japonesa trata seus idosos de maneira diferente, por isso a Robótica, para cuidar de pessoas, tem avançado mais naquele país”, exemplifica Terra. Ele acredita que cada vez mais essa área deva ser desvinculada da ficção científica e se aproximar mais do cotidiano das pessoas. “De forma bem objetiva, é mais uma tecnologia para diminuir as nossas tarefas repetitivas e nos liberar para termos mais lazer e prazer nas atividades que executamos”, resume.

De acordo com Barone, o ponto para a evolução cientifica será constituído da chamada “Singularidade”, como foi definida pelo cientista americano Ray Kurzweil, que “nada mais é do que o aparecimento da genuína Inteligência Artificial Forte, com todas as implicações técnicas, sociais e éticas associadas. Para Kurzweil, isto deve ocorrer em 2045”, afirma o pesquisador da UFRGS.

Para Freire, os robôs nunca poderão substituir completamente o homem, mas podem trazer grandes avanços ao desenvolvimento científico. “Assim como os computadores nos ajudam a evoluir cada vez mais rápido na ciência, a Robótica deverá prestar esse mesmo serviço à humanidade, desde que tenhamos ética e consciência à medida que projetamos novos robôs”, diz o professor, referindo-se principalmente ao uso militar. “Não tenho interesse em nenhum tipo de projeto que envolva qualquer fim bélico ou militar, mas sei que em muitos países se pensa de forma diferente. Nesse sentido, assim como existem tratados para definir o que é eticamente aceito em situações de conflito, é necessário que a comunidade que trabalha com Robótica e a sociedade discutam e definam os limites da ética nessa área da ciência”, encerra.