Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Matheus Vigliar
Victória Flório
16/4/14

O tempo não para. Percebemos que ele passa porque os eventos parecem não acontecer de uma só vez. Armazenamos os acontecimentos em nossa memória e atribuímos uma distância temporal entre eles. Tudo depende, então, dos meios através dos quais captamos e armazenamos nossa experiência do tempo, de como acontece esse processo em nossos cérebros e em nossas mentes. Para Claudia Hammond, professora de Psicologia da Universidade de Boston em Londres, Inglaterra, apresentadora da BBC e autora do livro Time Warped (Tempo Distorcido, em tradução livre), “a percepção do tempo é importante porque é a experiência do tempo que nos conecta a nossa realidade mental”.

Diversos fatores psicológicos influenciam nossas experiências temporais, de forma que a passagem do tempo seja algo subjetivo, que varia de indivíduo para indivíduo. A percepção do tempo parece variar também de animal para animal, devido a um conjunto de fatores biológicos. Nesse sentido, há alguma maneira de comparar como é a percepção do tempo entre as espécies?  

Um grupo de pesquisadores do Trinity College Dublin, Universidade de Edimburgo, Reino Unido, e Universidade de St. Andrews, Escócia, dedica-se a entender como o tempo passa para alguns animais. Segundo eles, cada espécie percebe o tempo de maneira distinta e desenvolve habilidades diferentes para perceber mudanças no meio ambiente. A principal conclusão do seu trabalho foi relacionar a percepção do tempo nas diferentes espécies com a evolução.

Vida de mosca

O sistema visual dos animais é a porta de entrada para grande parte do que os cerca. A resolução com que os organismos apreendem e processam a informação visual restringe sua habilidade de interagir com os eventos a sua volta. Segundo artigo publicado na revista Animal Behaviour, o tamanho do corpo e a taxa metabólica do animal alteram as respostas comportamentais, afetando a maneira como ele percebe a passagem do tempo e definindo o nicho a que pertence.

Para entender como os animais percebem a passagem de tempo, a equipe de pesquisadores liderada pelo professor Kevin Healy, do Trinity College Dublin, comparou o CFF (critical flicker- fusion frequency), a frequência em que uma fonte de luz oscilante é percebida por eles como constante. O CFF é uma medida, em unidade de frequência Hertz, para o máximo de processamento de informação no sistema visual – grosso modo, é o quão rápido os olhos podem dar um refresh na imagem e processar sua informação. Animais com alto valor de CFF percebem mais informação por unidade de tempo, têm mais habilidade para perceber mudanças rápidas no campo de visão e experimentam o tempo de maneira mais lenta.

Isso acontece com as moscas, por exemplo. Com um CFF de 250 Hz, elas veem mais quadros por segundo do que os seres humanos, que tem um CFF de 60 Hz. Por isso é tão difícil acertar uma mosca com um pedaço de jornal enrolado. Em comparação a nós, elas percebem o tempo em câmera lenta e conseguem agir mais rápido. Isso também explica porque os cachorros, que têm CFF 80 Hz, não entendem muito do que se passa na televisão, que tem uma taxa de refresh de imagem de 60 Hz.

 

Um corte da maneira como uma mosca provavelmente enxerga um cachorro balançando a cabeça depois de ter se molhado todo com água. As moscas veem o mundo com muito mais detalhes do que nós, humanos, porque elas recebem mais informação por unidade de tempo. Créditos: Carli Davidson | www.carlidavidson.com | Facebook | Twitter

 

A equipe de pesquisadores europeus também correlacionou dados de CFF com a massa e a taxa de metabolismo para 34 espécies de vertebrados. A conclusão foi que o CFF aumenta com a taxa de metabolismo e diminui com a massa corpórea. Ou seja, quando um animal é pequeno, o sinal captado no meio ambiente tem uma distância menor para percorrer dentro do seu organismo. Ao mesmo tempo, se o metabolismo é alto, ele tem mais energia disponível para processar esse sinal.

Implicações evolutivas e ecológicas

Estes resultados lançam alguma luz sobre o processo de comunicação entre alguns animais e também para interações entre presa e predador. Luke McNally, da Universidade de Edimburgo, acredita que os animais devem usar a variação na percepção do tempo para enviar sinais, como por exemplo os vagalumes e animais que vivem em águas profundas, que usam a luz como forma de comunicação. Predadores com percepção temporal mais rápida ou mais lenta não são capazes de entender esses sinais, que ficam restritos àquela espécie, como um canal secreto de comunicação.

A percepção de tempo dos animais oferece uma dimensão importante para a diferenciação do seu nicho ecológico. Andrew Jackson, do Trinity College, acredita que “para um organismo isso significa encontrar um nicho que nenhum outro pode ocupar”. As tartarugas de couro, por exemplo, que têm um CFF de 15 Hz, não conseguem caçar animais com CFF muito maior que isso. Mesmo se houvesse uma espécie de mosca de água salgada, seria impossível para as tartarugas se alimentarem desses animais. Por isso, as medusas, que tem CFF baixo, estão entre as suas presas preferidas.

 

 

Fontes:

Time is in the eye of the beholder. Trinity College Dublin, Sep 16, 2013.

Healy, Kevin; Luke McNally;Graeme D. Ruxton, Natalie Cooper, Andrew L. Jackson. Metabolic rate and body size are linked with perception of temporal informationAnimal Behaviour, Volume 86, Issue 4, October 2013, Pages 685–696.

Hammond, Claudia. Time Warped: Unlocking the Mysteries of Time Perception, Canongate Books, 2012.