Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

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Por Chris Bueno
17/6/15

O mundo está envelhecendo. Já são mais de 800 milhões de pessoas acima de 60 anos em todo o planeta, de acordo com estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS). Em 10 anos, serão mais de um bilhão, correspondendo a 16% da população mundial. Isso não significa, no entanto, que todo o mundo está envelhecendo da mesma forma. As etapas da vida – infância, adolescência, vida adulta e terceira idade – são uma construção social. Isso significa que elas se formaram ao longo do tempo e foram mudando ao longo dos anos. Também significa que diferentes sociedades dividem as etapas da vida de formas distintas e constroem visões próprias sobre cada fase. Assim, a experiência da velhice não é a mesma em todos os grupos sociais.

Em algumas civilizações mais antigas, a vitalidade e a força física eram extremamente valorizadas porque eram essenciais para a sobrevivência dos indivíduos. Também é preciso ter em conta que a expectativa de vida era muito curta: no Império Romano, por exemplo, era de apenas 35 anos. Desta forma, algumas dessas sociedades associavam a velhice a um fardo, à inatividade ou mesmo à decrepitude. Mas, grande parte delas também valorizava seus anciãos, devido à experiência de vida e sabedoria acumulada por eles ao longo dos anos. “No Egito, provavelmente por volta de 3000 a. C., há registros da obrigação dos filhos de cuidar de seus idosos. Em Israel, o respeito dos judeus aos anciãos fica evidenciado tanto na Bíblia quanto do ponto de vista legal: maltratar os pais era considerado crime que poderia ser punido com a morte. O órgão máximo do povo hebreu – o Sinédrio – era composto por 70 anciãos do povo”, exemplificam em artigo os psicólogos Ludgleydson Fernandes de Araújo e Virgínia Ângela de Lucena e Carvalho, da Base de Investigação Multidisciplinar em Desenvolvimento Humano e Envelhecimento da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

A velhice ao longo do tempo

As ideias associadas à velhice foram se transformando ao longo do tempo. Nos dois últimos séculos da Idade Média, período marcado por muitas guerras e por intensa militarização da sociedade, não havia espaço para a valorização dos mais velhos. Este cenário começa a mudar com o Iluminismo (século XVI), que trouxe avanços científicos e novas formas de pensar a velhice. No entanto, o Iluminismo também cultuava a beleza e a juventude. Assim, havia uma ambivalência em relação a esse período da vida nas construções sociais da Idade Moderna no Ocidente.

Os séculos seguintes foram marcados pelo avanço científico e tecnológico e pelo aumento da longevidade, o que permitiu descartar alguns mitos acerca da velhice. Mas, ainda assim, a situação dos idosos não melhorou. A Revolução Industrial (séculos XVIII e XIX) deixava de fora toda a camada de idosos que não podia trabalhar. Por isso, boa parte desse segmento da população ficou sujeita à miséria e ao abandono.

O avanço da medicina colaborou bastante, não apenas para o aumento da longevidade, mas também por uma melhor compreensão do envelhecimento. O surgimento da gerontologia e da geriatria como disciplinas formais no século XX contribuem para transformar a visão sobre o idoso, mostrando que se pode envelhecer com saúde e se mantendo ativo.

Além disso, também começou uma luta pelos direitos dos idosos. No final do século XIX, o chanceler alemão Otto Von Bismarck estabeleceu um sistema nacional assegurando o pagamento de uma pensão aos trabalhadores com mais de 70 anos, dando os primeiros passos para a instituição da aposentadoria. A ideia foi se espalhando pelo mundo e chegou ao Brasil em 1923. De lá pra cá, a aposentadoria se tornou um direito em vários países, assim como outros direitos da terceira idade.

Mesmo a expressão terceira idade é uma criação muito recente. A expressão originou-se na França nos anos 1970, com a implantação das Universidades da Terceira Idade (Universités du T’roisième Âge). Tanto a expressão como o modelo de universidade foi incorporado pelo Reino Unido e acabou se espalhando pelo Ocidente. “A terceira idade propriamente dita é uma inovação na própria reflexão a respeito da velhice. Os primeiros estudos sobre o envelhecimento, quando a gerontologia se forma, pensam a velhice como basicamente um momento de perdas físicas e sociais. A partir dos anos 1970, há uma mudança radical nos estudos de gerontologia, em que se passou a ser mais importante enfatizar os ganhos que a velhice traz”, aponta em palestra a cientista Guita Grin Debert, professora do Departamento de Antropologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

E através do mundo

Países orientais possuem a fama de tratar bem seus idosos. E eles realmente valorizam seus anciãos. No Japão e na China, a velhice é sinônimo de sabedoria e respeito. Na sociedade chinesa é comum encontrar anciãos de cerca de 100 anos fazendo atividade física nos parques municipais. Na tradição japonesa, o homem conquista o direito de usar blazer vermelho (considerada uma cor dos deuses) apenas ao completar 60 anos. Além disso, existe um feriado dedicado aos idosos, o Dia do Respeito ao Idoso (Keiro no hi), quando as famílias rezam pelos mais velhos e agradecem pelas suas contribuições à sociedade.

Os Bambara, povo que vive no oeste da África, consideram a velhice uma conquista. A vida social deste grupo é organizada segundo o princípio de senioridade, ou seja, a idade é um elemento determinante da posição de cada indivíduo na sociedade. Para eles, o envelhecimento é concebido como um processo de crescimento que ensina, enriquece e enobrece o ser humano. “Ser velho significa ter vivido, criado os filhos e netos, acumulado conhecimento e conquistado, através destas experiências, um lugar socialmente valorizado. Considera-se que os mais velhos estão mais próximos dos ancestrais e, por esta razão, detêm a autoridade”, explica em artigo a psiquiatra Elizabeth Uchôa, professora do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Já os Cuiva, uma comunidade indígena da Colômbia, estruturam sua sociedade baseados em ideais de igualdade e homogeneidade. E, se todos são iguais, não pode haver diferenciação entre jovens, adultos e idosos. Entre os Cuiva, o indivíduo integra o grupo de adultos logo após sair da infância e continua neste grupo até sua morte. Desta forma, essa sociedade trata os velhos como se a velhice não existisse: não há um espaço social específico para os idosos, nem atividades das quais são excluídos. Ninguém é considerado velho demais para produzir, tomar decisões ou realizar qualquer atividade.

As sociedades indígenas brasileiras também apresentam diferentes modos de ver e tratar seus idosos. No entanto, a maioria vê os mais velhos como depositários da memória cultural da comunidade. Com isso, é função dos mais velhos a transmissão de elementos culturais como a mitologia, rituais e costumes. Além disso, os xamãs e pajés só atingem os altos níveis de poderes sobrenaturais, como o dom da cura, da clarividência e das profecias, depois de uma longa vida.

Construindo novos modos de envelhecer

A maioria das culturas ocidentais possui sociedades centradas na produção, no rendimento, na juventude e no dinamismo. Neste cenário, os idosos encontram mais dificuldades para serem valorizados – e até mesmo respeitados. A velhice é, geralmente, descrita em termos negativos, estando muito ligada à ideia de perda: perda da juventude, do trabalho, e até mesmo da capacidade intelectual.  “A velhice ainda está associada ao risco de dependência e à morte e é marcada pelo medo do isolamento social e da solidão emocional. Os idosos ainda são socialmente discriminados”, afirma a psicóloga Anita Neri, professora do Departamento de Psicologia Educacional, da Faculdade de Educação da Unicamp. O envelhecimento da população está mudando este cenário, mas ainda há muito a ser feito.

No Brasil, existem hoje mais de 26 milhões de pessoas acima de 60 anos, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Porém, o país ocupa a 58a posição no ranking de qualidade de vida para os integrantes da terceira idade, posição abaixo da média global, de acordo com o relatório Global Age Watch, de 2014. A classificação, elaborada anualmente pela organização britânica de ajuda à velhice HelpAge International, é o resultado da combinação de vários documentos de instituições internacionais e de fatores como renda, saúde (expectativa de vida e bem-estar psicológico), transportes (possibilidade de trabalho ou educação) e segurança. A última edição do ranking é encabeçada pela Noruega, seguida da Suécia, Suíça, Canadá e Alemanha.

“A qualidade de vida do idoso no Brasil é ótima para uma parcela extremamente pequena da população, com acesso a recursos educacionais, de saúde, habitacionais, de segurança e de seguridade social de boa a moderada qualidade. Mas é péssima para a grande maioria que não tem de acesso a esses recursos e não tem esperança”, aponta Neri. Ainda há muito a se evoluir no cuidado e respeito ao idoso. A tarefa não é simples, mas os primeiros passos já foram dados. “É preciso mobilizar a sociedade para combater os estigmas da velhice. Nós já temos uma legislação, com um Estatuto do Idoso que é de fazer inveja. Mas ainda temos dificuldade de colocá-lo em prática”, finaliza Guita Debert.