Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Joziana Muniz de Paiva Barçante
19/11/15

As leishmanioses são doenças causadas por mais de 20 espécies de protozoários do gênero Leishmania, transmitidos pela picada de fêmeas infectadas de insetos conhecidos com flebotomíneos. As leishmanioses estão no “hall” das doenças classificadas como negligenciadas, embora sejam consideradas como graves problemas de saúde pública no Brasil e nos outros 90 países onde ocorrem. A doença pode apresentar diferentes formas clínicas: tegumentar, visceral e mucocutânea dependendo da espécie de Leishmania envolvida e da resposta imune do hospedeiro.

A forma visceral, conhecida como Leishmaniose Visceral (LV) ou Calazar é causada pela espécie Leishmania infantum (=Leishmania chagasi) e é considerada uma doença potencialmente fatal, se não tratada precocemente e de forma adequada. Cerca de 90% dos casos de LV ocorrem em cinco países: India, Bangladesh, Nepal, Sudão e Brasil. Anualmente, estimam-se 600 mil novos casos clínicos e 75 mil óbitos por LV em todo o mundo.

Epidemiologia da leishmaniose visceral

Situação da leishmnaiose visceral no mundo. Fonte: OMS, 2014.

Dentre as doenças parasitárias, o número de óbitos anuais por LV só é superado por aqueles causados pela malária. Além disso, o número de óbitos anual devido à LV provavelmente seja subestimado por ausência de diagnóstico e por ausência de notificação aos órgãos competentes, uma vez que a notificação é obrigatória somente em 32 países.  Incluída entre as doenças negligenciadas, destaca-se a correlação entre a condição socioeconômica da população e a elevada incidência da doença. A doença está distribuída nas diferentes faixas etárias, porém ocorre com maior frequência em crianças com idade até 10 anos (59%), sendo que destes, 46% correspondem a crianças menores de cinco anos de idade.

Aproximadamente 90% dos casos registrados nas Américas ocorrem no Brasil. Desde a década de 1990, tem se verificado uma expansão da doença. Em 1990, mais de 90% dos casos de LV eram registrados na região Nordeste. Hoje, a doença atinge as cinco regiões brasileiras e 21 de seus estados. Apesar do aumento da distribuição da doença em diferentes partes do Brasil, a região Nordeste ainda permanece como responsável por quase 50% dos casos do país.

Uma característica importante a ser ressaltada é o processo de urbanização da LV, que deixou de se apresentar como uma endemia tipicamente rural e adquiriu características epidemiológicas compatíveis com o aumento da distribuição em grandes centros urbanos. Esse processo de urbanização parece ser resultado da ação antrópica, caracterizada por alterações ambientais, êxodo rural, aumento da interação animais silvestres e domésticos decorrente dos processos de desmatamento, adaptação do inseto vetor.

O cão doméstico é o principal reservatório urbano de Leishmania infantum. Apesar disto, outras espécies de canídeos parecem participar do ciclo de transmissão do parasito, atuando como reservatórios no ambiente silvestre.

O inseto vetor

Lutzomyia longipalpis, também conhecido como mosquito-palha, asa dura, cangalhinha, birigui dentre outros é o principal transmissor do protozoário causador da LV no Brasil. Sabe-se hoje, que ele está bem adaptado às periferias de grandes centros e aos ambientes urbanos. Também, tem sido encontrado no intradomicílio e, no peridomicílio, em galinheiros, chiqueiros e canis, entre outros ambientes. Este inseto possui cerca de 2-3 milímetros e possui um hábito crepuscular noturno, ou seja, a fêmea suga sangue, preferencialmente de 18h às 06 da manhã. A reprodução ocorre na matéria orgânica: restos de fezes de animais, folhas e frutos em decomposição, troncos podres etc. 

O mosquito palha (crédito: Public Health Library).

A doença no humano

A LV é uma enfermidade infecciosa generalizada, crônica, classicamente caracterizada por febre irregular e de longa duração, aumento do tamanho do fígado e do baço, alterações nos gânglios linfáticos (geralmente inchaço), anemia, emagrecimento, edema e estado de debilidade progressivo levando à caquexia, e finalmente, ao óbito se o paciente não for submetido ao tratamento específico. Atualmente se considera a LV uma doença com formas clínicas diversas, podendo ocorrer desde casos de cura espontânea até manifestações clínicas severas. O diagnóstico precoce é fundamental para instituição da terapêutica adequada e redução da letalidade. Deve-se ressaltar que, nos últimos anos, a LV matou mais do que dengue, em nove estados brasileiros.

A doença no cão

O calazar canino apresenta um amplo espectro de características clínicas que variam de aparente estado sadio, a um estado severo podendo evoluir para a morte. De um modo geral o quadro clínico canino assemelha-se muito ao do humano, o período de incubação é bastante variável, mas credita-se como de três a oito meses o período mais frequente.

Inicialmente, os parasitos estão presentes no local da picada infectiva. Posteriormente, ocorre a infecção de vísceras e eventualmente tornam-se distribuídos através da derme. A perda de pelos (alopecia) causada pela infecção expõe grandes áreas da pele extensamente parasitada. Classicamente a leishmaniose visceral canina (LVC) apresenta lesões cutâneas, principalmente descamação e eczema, em particular no espelho nasal e orelha, pequenas úlceras rasas, localizadas mais frequentemente ao nível das orelhas, focinho, cauda e articulações e pelo opaco.

Animal errante positivo para leishmaniose visceral canina.

Nas fases mais adiantadas da doença, observa-se, com grande frequência alopecia, dermatites, úlceras de pele, ceratoconjuntivite (mais conhecida como olho seco), coriza, apatia, diarreia, hemorragia intestinal, edema de patas e vômito, além da hiperqueratose (produção excessiva de queratina). Na fase final da infecção, ocorre em geral a paresia das patas posteriores, caquexia, inanição e morte. Entretanto, cães infectados podem permanecer sem sinais clínicos por um longo período de tempo.

Ainda que vários sinais clínicos da leishmaniose visceral canina se manifestem na pele não se deve confundi-la com a leishmaniose tegumentar que se apresenta como ulceras com bordas elevadas, em moldura, fundo granuloso com ou sem exsudação.

Controle e prevenção

Um grande desafio para a ciência é o controle das doenças vetoriais, dentre elas às leishmanioses, particularmente, à LV. De acordo com o preconizado pelo Manual de Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral, do Ministério da Saúde, o controle da doença no Brasil baseia-se: no diagnóstico e tratamento precoce dos casos humanos, controle químico do vetor, eutanásia dos cães soropositivos e realização de atividades de educação em saúde.

É fundamental o conhecimento sobre a epidemiologia da doença para que seu controle seja realizado de maneira mais eficaz. Com ações de educação em saúde é possível orientar a população sobre a limpeza de quintais e terrenos baldios; para evitar o acúmulo de lixo e sobre o recolhimento diário das fezes dos animais a fim de evitar criadouros artificiais para o vetor. Com relação ao cão, deve-se orientar sobre a necessidade de visitas regulares ao veterinário; uso de coleiras impregnadas com repelentes; vacinação; não realizar caminhadas no período de maior atividade do inseto vetor; atenção aos principais sinais clínicos da doença. A prevenção deve ser uma ação coletiva uma vez que é a melhor forma de evitar a leishmaniose.

Ação de Educação em Saúde liderada pela professora Joziana, na Praça Augusto Silva, em Lavras-MG.

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