Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

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Por Marta Avancini
25/11/15

De janeiro a outubro de 2015, o Ministério da Saúde registrou 1,48 milhão de casos prováveis de dengue em todo o país, a maior parte deles nas regiões Centro-Oeste e Sudeste. O número é 2,5 vezes maior do total computado em 2014 (589,1 mil). Essas dimensões ilustram porque a propagação da dengue ganha contornos de uma epidemia – quando uma doença infecciosa ataca rapidamente um grande número de pessoas que vivem numa determinada região.

O risco de epidemia de dengue, contudo, não existe apenas no Brasil. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a dengue ameaça 2,5 milhões de pessoas em mais de cem países. De acordo com a organização, a dengue é a doença transmitida por vetores que mais se espalha no mundo.

A dengue é causada por quatro tipos de vírus transmitidos pelo mosquito Aedes aegypti, que também transporta o vírus da febre amarela e da chikungunya, uma doença com sintomas semelhantes aos da dengue. São eles febre, fortes dores de cabeça, dores nas juntas e nos músculos, dor intensa atrás dos olhos, náusea e vômito, manchas vermelhas na pele. Em alguns casos a doença evoluir para uma hemorragia interna e levar à morte. Em 2013, 235 pessoas morreram em decorrência de complicações causadas pela dengue, segundo o Ministério da Saúde.

Além dos prejuízos à saúde das pessoas, a dengue causa uma série de ônus aos sistemas de saúde e à sociedade como um todo, por conta dos cursos do tratamento e da perda de produtividade dos doentes, pois é comum que as pessoas infectadas tenham de se afastar de trabalho até se recuperarem.

Segundo a OMS, nas Américas, o custo atribuível à dengue supera a marca dos US$ 2 bilhões, afetando principalmente os países de baixa e média renda, onde os surtos da doença tendem a ser mais frequentes e o acesso e à assistência em saúde costumam ser deficientes. Por isso, na avaliação da Organização, apesar das tentativas e dos esforços dos governos para controlar e prevenir a dengue, a doença continua sendo uma ameaça, o que leva à necessidade de se buscar alternativas para combatê-la.

Avanços à vista

Um caminho que tem se mostrado promissor no enfrentamento da dengue é o desenvolvimento de uma vacina para prevenir os surtos e as epidemias, o que tem mobilizado pesquisadores em várias partes do mundo, inclusive no Brasil. 

Para que serve uma vacina? - A função de uma vacina é estimular o sistema imunológico do indivíduo a reconhecer um agente agressor, fazendo com que esse sistema passe a produzir anticorpos específicos para combater esse agente, sem permitir que a doença se desenvolva. Para isso as vacinas são preparadas a partir de componentes do próprio agente agressor ou de um agente que se assemelhe ao causador da doença. Porém, os microorganismos são utilizados em sua forma atenuada (enfraquecida) ou inativada (morta). (Fonte: Casa das vacinas)

O desenvolvimento de uma vacina envolve inúmeros desafios. Primeiro, porque existem quatro tipos de vírus diferentes envolvidos com o surgimento da dengue, de modo que a vacina, para ser eficaz, precisar proteger as pessoas contra os quatro tipos da doença. Além disso, ainda não existe um entendimento completo de como o vírus causador da dengue atua sobre o organismo humano, o único a desenvolver as complicações típicas da doença. Existem, no entanto, grandes chances de os desafios serem superados num futuro próximo: atualmente, existem pelo menos cinco vacinas em desenvolvimento, de acordo com a OMS.

Dois dos projetos envolvem pesquisadores brasileiros. Um deles está sendo desenvolvido pelo Instituto Butantan, de São Paulo, em parceria com o Instituto Nacional de Saúde (NHI), dos Estados Unidos. O segundo é conduzido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a empresa GlaxoSmithKline (GSK), desde 2009.

Os projetos estão em fases diferentes do desenvolvimento. A vacina da Fiocruz encontra-se na fase pré-clínica (estudos com primatas não humanos) e deverá entrar na fase clínica (testes em seres humanos) em 2016. O projeto do Butantan está mais avançado, já na fase clínica. “Todos os voluntários participantes já foram vacinados e encontram-se no período de seguimento”, relata Alexander Precioso, diretor da Divisão de Ensaios Clínicos e Farmacovigilância do Instituto Butantan. “Em paralelo, já iniciamos o processo de solicitação de autorização para iniciar a fase III de estudo, que fornecerá os dados necessários para solicitar o registro da vacina perante a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)”, complementa. A expectativa é que a vacina do Butantan esteja disponível para uso entre o final de 2017 e início de 2018.

Além dos dois projetos de institutos de pesquisa brasileiros, um terceiro pode resultar numa vacina contra a dengue a ser disponibilizada no país. De origem francesa, envolve a empresa Sanofi e o Instituto Pasteur, de Paris. Esta vacina está em fase mais adiantada de desenvolvimento do que as similares em desenvolvimento no Brasil. Em agosto deste ano recebeu aprovação da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) para ser comercializada. Agora, para que a vacina chegue ao mercado, falta a liberação do registro pela Anvisa. Além do Brasil, a Sanofi espera que a vacina seja liberada em outros 19 países ainda em 2015.

Dos testes à liberação

No Brasil, para que uma vacina chegue à população, é preciso cumprir um trâmite de testes e avaliações conforme o protocolo da Anvisa. Uma das etapas de testes é denominada pesquisa clínica, ou seja, os testes são feitos em seres humanos, e é obrigatória para a liberação de medicamentos inovadores – aqueles que não possuem equivalentes no mercado e, por isso, não dispõem de dados sobre sua segurança e eficácia, categoria que inclui vacinas.

A pesquisa clínica envolve três fases de testes. A terceira etapa é a que reúne o maior número de voluntários. Se o produto for aprovado nesta fase, ele está liberado para solicitação de registro na Anvisa. Se o registro for concedido, o medicamento pode ser disponibilizado no mercado para uso da população. O registro vale por cinco anos e precisa ser renovado.

Uma vez no mercado, é realizada uma quarta fase de testes, já com o produto em fase de comercialização, chamada farmacovigilância. Seu objetivo é identificar dados que não tenham sido detectados nas fases anteriores.

Técnicas distintas

Embora todas as vacinas tenham o mesmo objetivo – imunizar as pessoas contra a dengue – as técnicas usadas pelos pesquisadores variam. A da Sanofi foi desenvolvida a partir de uma vacina contra a febre amarela, que recebe um envoltório de proteínas que desencadeiam no organismo humano uma resposta imunológica contra cada um dos vírus. A Fiocruz está desenvolvendo uma vacina inativada purificada, isto é, composta por vírus ou bactérias que foram mortos por processos químicos ou físicos. A vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan é composta dos quatro vírus modificados (atenuados) da dengue. O desafio comum a elas, como já apontado, é assegurar que as pessoas sejam capazes de proteger as pessoas contra os quatro vírus causadores da dengue. 

Engenharia genética - Boa parte das pesquisas para o desenvolvimento de vacinas atualmente lançam mão de técnicas de engenharia genética. O objetivo é modificar o gene do vírus, para torná-lo mais vulnerável. Com isso, ao entrar em contato com o organismo humana, ele desencadeia uma reação imunológica e não a doença. 

Os pesquisadores do Butantan acreditam, com base nos estudos e testes realizados, que a vacina desenvolvida por eles será capaz de produzir uma resposta imunológica e balanceada contra os quatro vírus. “Como é uma vacina composta dos quatro vírus da dengue, estamos demonstrando que, além da produção de anticorpos contra esses vírus, a vacina também estimula outras células imunológicas de memória”, explica Alexander Precioso. De acordo com ele, os testes têm demonstrado que a vacina tem um padrão de resposta imunológica muito semelhante ao observado após a infecção pelos vírus selvagens da dengue. “Em outras palavras é um a vacina para proteger contra qualquer forma de dengue”, sintetiza.

Os testes da vacina da Sanofi demonstraram uma eficácia de 60,8% contra os quatro sorotipos da doença, porque o grau de efetividade da vacina varia de um tipo de vírus para outro. No caso da vacina francesa, como o grau de eficácia contra o vírus tipo 3 foi menor, a eficácia geral mais foi classificada como mais baixa em comparação com outras vacinas que estão sendo desenvolvidas. No entanto, a vacina obteve uma taxa de redução de hospitalização de 80,3% e uma diminuição de 95,5% dos casos graves – o que é importante em termos dos ônus para o sistema de saúde e a sociedade em geral. Para ser eficaz, a vacina tem que ser aplicada três vezes, num intervalo de seis meses.