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Nº.61 UNIVERSO Dez.2016 | Jan.2017

Detalhe da obra "Elohim criando Adão", de William Blake, 1794. Crédito: Wikipedia.
Por Chris Bueno
26/12/16

Uma grande explosão cósmica, entre 10 e 20 bilhões de anos atrás, teria dado origem a todo o universo. A teoria do Big Bang é a explicação mais aceita sobre a criação do universo, mas está bem longe de ser a única. Há milhões de anos muitas culturas vem criando suas próprias narrativas para explicar a criação do mundo e da vida.

Apesar de se originarem em locais diversos e em épocas bem distintas, essas narrativas têm muitos elementos em comum. Para muitos povos – como os judeus, os astecas e os hindus - no início tudo o que existia era o nada. Para outros – como os gregos, japoneses e egípcios – o começo do universo era marcado pelo caos. E, na maioria das historias sobre a origem do mundo, foi necessária a intercessão divina para que o universo surgisse.

Uma das narrativas mais conhecidas é a judaico-cristã. De acordo com ela, tudo que conhecemos foi criado pela vontade de Deus, também chamado de Javé. A criação demorou seis dias e Deus descansou no sétimo. A narrativa persa é bem parecida: nela, o mundo foi criado por Ormuz, deus da ordem e ser supremo. Já para os incas, o deus criador é o Viracocha, qualificado como “velho homem dos céus” e “mestre do mundo”. No Brasil, os índios tupi-guaranis acreditavam que o deus Tupã, com a ajuda da deusa Araci, teria descido à terra em um monte da região do Aregúa (Paraguai) e dali criado tudo que existe.

O ovo

Mas algumas histórias são mais peculiares. Para os chineses, o primeiro ser vivo foi Pan-Ku, que cresceu durante 18 mil anos dentro de um ovo cósmico. Com seu crescimento, a casca do ovo se rompeu e quebrou, distanciando o céu da terra e levando Pan-Ku à morte. A casca acima se tornou o céu e a abaixo tornou-se a terra e assim os opostos da natureza se separaram, como masculino e feminino, luz e escuridão, yin e yang. A cabeça de Pan-Ku se transformou em uma grande montanha sagrada, um de seus olhos deu origem ao sol e o outro à lua, e seus cabelos se tornaram as árvores.

Essa não é a única narrativa em que a imagem do ovo é usada para explicar a origem do universo: ela é recorrente na mitologia japonesa, hindu e egípcia. Para os japoneses, no início o mundo era um ovo. Aos poucos, o conteúdo se separou entre o que era claro e puro – que subiu e se tornou o céu – e o que era escuro e pesado – que afundou e se tornou a terra. Então surgiu o deus mestre do centro celestial e depois os deuses da geração de vida (dois deuses com qualidade yin e yang), seguidos por outros deuses. Dois deles – Izanagi e Izanami - o primeiro homem e a primeira mulher – recebem a ordem de criar o Japão. Mergulhando sua lança sagrada na massa disforme que então era a terra, com um respingo, Izanagi criou uma ilha na qual o casal passa a habitar. Seus filhos são os deuses da montanha, do rio, do mar, da árvore, da grama, do vento, do grão etc., que criam, assim, um mundo rico e fértil.

Para os hindus, apenas com seu pensamento o deus Brahma fez surgir as águas cósmicas, nas quais depositou uma semente que, com o passar do tempo, se transformou em um ovo de ouro. Brahma, que não tinha forma, passou um ano dentro desse ovo e então emergiu na forma de uma divindade. Com a casca superior do ovo, o deus criou a esfera celeste, e com a inferior, a terrestre. Depois, criou os seres humanos, os animais, as plantas e tudo mais que existe no Universo. 

Ilustração de Brahma, deus criador do universo para os hindus.

Já em uma das versões da narrativa egípcia, foi de um ovo na superfície do oceano primordial do caos, chamado Nu, que Amon-Rá, o deus sol, nasceu. De sua vontade, Amon-Rá originou quatro seres divinos: Tefnut, a deusa da água, Shu, o deus do ar, Geb, o deus da terra, e Nut, a deusa do céu. E assim o mundo foi criado.

Simbologia

A despeito de suas coincidências, essas histórias impressionam por sua riqueza simbólica. Uma diferença marcante, por exemplo, é em relação ao tempo. “Enquanto nas narrativas europeias e na judaico-cristã o mundo é criado em um período de tempo relativamente breve, nas narrativas da mesoamericano, esse tempo muitas vezes envolve várias etapas de desenvolvimento, com uma construção temporal muito mais ampla – algo muito mais parecido com o pensamento científico”, explica o historiador Eduardo Natalino dos Santos, professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP).

Para os astecas, o mundo em que vivemos é, na verdade, a quinta era de um ciclo de criação e destruição. De acordo com essa narrativa, o criador do mundo é o deus Ometeotl, que é, ao mesmo tempo, macho e fêmea e gerou quatro deuses do Norte, Sul, Leste e Oeste. Esses deuses, por sua vez, criaram o mundo e todas as outras divindades. Porém, quando tiveram que criar os seres humanos, um dos deuses deveria se sacrificar para o fogo. O primeiro deus a se sacrificar foi Tezcatlipoca, o que deu origem aos cinco mundos. O primeiro mundo chegou ao fim devorado por onças, o segundo através de furacões e enchentes, o terceiro chegou ao fim com uma chuva de fogo e cinzas e o quarto por um grande dilúvio. Por fim, os deuses se reuniram para decidir quem deveria de sacrificar para que o quinto mundo começasse. No momento crucial, o deus escolhido retrocede perante a fogueira sacrificial, sendo substituído pelo humilde deus Nanahuatzin, que tem a coragem de se sacrificar e se torna assim o novo sol. Ao ver isso, o primeiro deus também se encoraja e se lança na fogueira, transformando-se na lua. No entanto, como os dois astros continuam inertes, é preciso alimentá-los para que se movam – por isso os astecas são obrigados a recriar eternamente o sacrifício divino original.

Mas não é só isso. Outra diferença é a presença de divindades. Entre os ameríndios, assim como entre os gregos e os egípcios, por exemplo, não existem deuses onipresentes, oniscientes e onipotentes, mas sim diversas entidades com características variadas. “São deuses que brigam entre si, amam, disputam, se vingam, enganam, numa narrativa muito mais rica e divertida”, diz Santos.

Aprendendo como os deuses e as deusas vieram a existir e adquiriram seus papéis, os seres humanos podem compreender suas relações tanto com as deidades como com seus governantes, com os animais e com o restante do mundo natural e sobrenatural”, diz a mitóloga Verônica Ions, em seu livro “História ilustrada da mitologia” (Manole, 1999).

Caos

Detalhe da obra "Saturno", de Rubens, 1636. Crédito: Wikipedia.

O caos também tem um papel importante nessas narrativas. Enquanto em algumas no início era o nada, em outras esse início era marcado por uma confusão ou uma massa disforme, simbolizando o desconhecido. Para os gregos, no início todas as coisas estavam misturadas num enorme caos. Desse caos se originaram os deuses primordiais – dentre eles Gaia, a Terra. Sem intermédio masculino, Gaia gerou Urano, o céu, e da união entre os dois nasceram os titãs, os ancestrais dos deuses olímpicos e dos seres mortais. Urano, temendo o poder dos filhos, condenou-os a ficar presos no interior de Gaia, mas com a ajuda da própria mãe, o titã Cronos cortou as genitais do pai e libertou os irmãos. Então, Cronos se torna o rei dos titãs, mas tão perverso como seu pai, passa a devorar seus filhos com medo que algum deles o destronasse. Porém Zeus, o filho mais novo, escapa do destino trágico com a ajuda da mãe e trava uma guerra contra seu pai. Com sua vitória, Zeus salva seus irmãos e permite o surgimento de vários outros seres e deuses.