Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

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Por Patrícia Piacentini
2/12/15

“A Floresta Amazônica ou Amazônia abriga cerca de 20% da biodiversidade global e estima-se que armazene um quinto da água potável do mundo. É o maior bioma do Brasil: abriga 2.500 espécies de árvores (ou um terço de toda a madeira tropical do mundo) e 30 mil espécies de plantas (das 100 mil da América do Sul)”.  A afirmação é de Claudia Azevedo Ramos, bióloga e pesquisadora do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, da Universidade Federal do Pará (UFPA). Em uma área de 5.500.000 km², a Amazônia está presente no Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa.

O Brasil concentra 60% de toda essa área, região que recebe o nome de Amazônia Legal e se distribui nos estados de Amazonas, Pará, Acre, Rondônia, Roraima, Tocantins, Mato Grosso e parte do Maranhão. Segundo o Censo de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população da Amazônia Legal soma mais de 25 milhões habitantes. Na região, encontra-se ainda a maior parte das etnias indígenas do país. “No Brasil, existem 225 etnias indígenas, que falam 180 línguas e a maioria encontra-se na Amazônia: são 305.873 indígenas, segundo o IBGE. Somado aos povos indígenas há, ainda, inúmeras populações tradicionais e quilombolas, com suas riquezas históricas e culturais”, ratifica Ramos. São características que tornam a Amazônia uma região ímpar sob o aspecto da sociobiodiversidade. “É preciso ter clareza que a floresta não está vazia. Além de suas riquezas naturais, muitas populações vivem na ou da floresta”, completa.

A Amazônia é a maior floresta equatorial do planeta, caracterizada por temperaturas elevadas, umidade atmosférica alta e grande quantidade de rios, dentre eles o Rio Amazonas, o segundo maior do mundo. “A bacia amazônica é a maior bacia hidrográfica do mundo: cobre cerca de seis milhões de km² e tem 1.100 afluentes. O rio Amazonas corta a região para desaguar no Oceano Atlântico, lançando ao mar cerca de 175 milhões de litros d’água a cada segundo”, comenta Ramos.

Estimativas situam ainda a Amazônia como a maior reserva de madeira tropical do mundo. “Seus recursos naturais – que, além da madeira, incluem enormes estoques de borracha, castanha, peixe e minérios, por exemplo – representam uma abundante fonte de riqueza natural”, diz a bióloga.

Uma controvérsia frente toda essa maravilha natural é em relação aos seus solos, alguns considerados pobres em nutrientes, como o solo de terra firme, que apresenta uma fina camada fértil somente em sua superfície. Isso acontece porque chove muito na região e os nutrientes são absorvidos para as camadas mais baixas de terra, longe das raízes das plantas. Porém, apesar do solo pobre, a floresta se mantém sempre viva com a própria matéria orgânica, como folhas, frutos e galhos, que caem das árvores, somada às altas temperatura e umidade constante. Os solos mais férteis da região encontram-se próximos aos rios.

Clima e chuvas

A Amazônia possui influência também no regime de chuvas não só da região Norte, mas também no Centro-Oeste e no Sudeste e outras regiões da América do Sul. O estudo “O Futuro Climático da Amazônia”, realizado por Antonio Donato Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e encomendado pela Articulação Regional Amazônica (ARA), apontou os fatores pelos quais a Floresta Amazônia tem influência na regulação do clima e das chuvas em todo o Brasil e o perigo dos altos índices de desmatamento para todo esse processo. O documento mostra que as árvores são como gêiseres, ou seja, captam a água pelas raízes, conduzem do tronco para as folhas e jogam essa água evaporada na atmosfera. Cada árvore de grande porte pode evaporar mais de mil litros de água por dia. Esse ar úmido é conduzido para outras regiões do país e da América do Sul. A Amazônia consegue também “puxar” a umidade do oceano para o continente, visto que evapora mais água do que o oceano (uma combinação de seu ar puro e limpo com a alta umidade), trazendo mais chuva para as regiões.

O desmatamento pode reduzir toda essa dinâmica, chamada de bomba biótica, levando a seca para muitas regiões, mesmo a que estão a milhares de quilômetros da floresta. Segundo o estudo, em quatro décadas, a floresta perdeu 42 bilhões de árvores, o equivalente a uma área de 2.062.914 km².

O2 x CO2

Ainda hoje encontramos a expressão “pulmão do mundo” para se referir à Floresta Amazônica. A ideia baseia-se no processo de fotossíntese, onde a floresta absorve dióxido de carbono (CO2) e libera o oxigênio (O2). Assim, ela seria uma grande fábrica de oxigênio para o planeta. No entanto, isso não é verdade.  O oxigênio liberado é consumido pela própria floresta e todos os seres vivos que vivem lá. É o que os pesquisadores chamam de clímax ecológico, quando um sistema está em equilíbrio. Um exemplo de sistema onde a liberação de oxigênio é maior do que o consumo são as algas marinhas. Assim, em termos de liberação de oxigênio para o meio ambiente, os oceanos são uma fonte mais importante do que a Floresta Amazônica. É correto afirmar, entretanto, a que floresta funciona como uma esponja que absorve substâncias trazidas da África e do Atlântico pelos ventos e pelas chuvas, sob a forma de poeira e partículas. Fonte: Ambiente Brasil

 Ocupação

 “A Amazônia era ocupada havia muito tempo por diversas nações de índios de diferentes línguas e culturas e há registros de que o primeiro europeu a chegar à região foi Vicente Yanez Pinzón, em finais do século XV”, afirma Rafael Ivan Chambouleyron, historiador e professor da Universidade Federal do Pará (UFPA).

Em meados do século XVI, duas expedições organizadas pelos espanhóis chegaram à região, vindas dos Andes e descendo o Rio Amazonas. “Ao longo das primeiras décadas do século XVII, diversos europeus foram se instalando de maneira mais sistemática na região, encontrando diversos grupos indígenas e estabelecendo relações com eles. Há um histórico de intercâmbios e também de violência contra os índios, por parte de portugueses, castelhanos, holandeses, ingleses, irlandeses e franceses”, completa Franciane Gama Lacerda, também historiadora e professora da Universidade Federal do Pará (UFPA).

Na Amazônia se organizou um tipo de economia em que se complementavam a ocupação agrícola e a exploração de produtos da floresta, chamados de drogas do sertão, como o cravo de casca, a copaíba, a salsa, a salsaparrilha e o cacau. “O cacau e o café eram também plantados já no século XVIII. O principal produto da Amazônia colonial foi sem dúvida o cacau, exportado em considerável escala para a Europa”, acrescenta Chambouleyron.

A agricultura e pecuária passam a ter papel importante na Amazônia a partir do século XVIII com a utilização de mão-de-obra indígena e escrava. A exploração da borracha ganha força com a Revolução Industrial no final do século XIX, levando a migração de nordestinos para a região. Em 1900, o interesse pela borracha diminui drasticamente por conta de sua exploração no continente asiático, mas o produto volta a ser importante na Segunda Guerra Mundial. “A região recebeu grandes contingentes de nordestinos, os chamados soldados da borracha, que ainda que viessem com certa assistência do governo, vivenciaram um trabalho de extrema exploração como seringueiros”, diz Lacerda.

Com o projeto de unificar o país, tendo como lema “Integrar para não entregar”, os militares passam a explorar a região nos anos 1960. Nesse período são construídas as rodovias Transamazônica (1972) e Belém-Brasília (1974).

Perigo

O desmatamento começa a preocupar nos anos 1970, depois de décadas de exploração de matéria-prima e uso irregular de terras. Segundo o boletim do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), em setembro de 2015, foram detectados 229 km² de desmatamento na Amazônia Legal, o que representa uma redução de 43% comparada ao mesmo período do ano passado.  O desmatamento foi reduzido em 70% na última década e, para Ramos, isso pode ser atribuído a diversos fatores como aumento do reforço às leis, ações de comando e controle, flutuação no preço de commodities (soja e carne) no mercado nacional e internacional, dentre outros.

De acordo com a bióloga da UFPA, Claudia Ramos, alguns estudos demonstram que o tamanho das áreas desmatadas diminuiu, mas que, ao mesmo tempo, o número de áreas que perde a cobertura vegetal aumentou. “Vários deles foram localizados em áreas de assentamentos, o que revela uma nova dinâmica de desmatamento. Para zerá-lo, incentivos econômicos e fomento voltados para alternativas sustentáveis de produção por pequenos produtores deveriam ser implantados o mais urgente possível”, opina.

O desmatamento contribui para o aquecimento do planeta. “Mas também o próprio clima amazônico é afetado pela destruição da floresta. Sem florestas, muitas localidades na Amazônia poderão sofrer com a redução de chuvas”, explica a bióloga. Este fenômeno de redução local de chuva já está sendo registrado na região do Xingu. “Sem chuva, os rios reduzem os seus volumes e não há água para tocar turbinas de hidrelétricas. O fogo torna-se mais frequente e intenso, mesmo em áreas de floresta fechada. Pode-se dizer que o desmatamento afeta também a produção de energia e agrícola na região”, alerta.

A Floresta Amazônica sofre outras ameaças, como grandes obras de infraestrutura (hidrelétricas, estradas, mineração) construídas sem as devidas medidas mitigatórias e de inclusão social, o que tem resultado em ocupação desordenada, empobrecimento socioambiental e baixo desenvolvimento local. “Os modelos tradicionais de desenvolvimento aplicados desde a época militar são predatórios e não resultaram em aumento do IDH [Índice de Desenvolvimento Humano] regional”, afirma Ramos. São necessárias mudanças para garantir o desenvolvimento aproveitando os recursos da floresta, mas respeitando e preservando suas riquezas socioambientais. “Várias alternativas econômicas mais sustentáveis têm sido propostas como intensificação da produção, manejo florestal, fortalecimento da governança local e incentivos econômicos para produtores e municípios que se adequem a critérios sustentáveis. Ainda estamos longe do ideal, mas progressos têm sido alcançados”, diz Ramos.

Redução dos impactos

A madeira (veja dica de leitura abaixo)continua sendo o carro-chefe quando se fala na exploração da floresta por conta do seu maior retorno. O desmatamento também é reflexo da pecuária e plantações de soja. Porém, a bióloga acredita que há espaço para aperfeiçoamento e incentivo de adoção de técnicas de impacto reduzido que permitem o manejo florestal com mínimos danos à saúde da floresta. Ela lista outros produtos não madeireiros explorados na floresta como açaí, castanha, borracha e óleos, direcionados ao mercado doméstico e também internacional. “O desafio é evitar que uma produção antes eminentemente extrativista torne-se insustentável, com prejuízos à economia local. O poder público deve incentivar a produção sustentável e coibir aquela à custa de grilagem, desmatamento, exploração de trabalhadores. Tradicionalmente, as políticas têm focado mais no controle do que no incentivo. É hora de inverter essa equação”, aponta Ramos. A riqueza natural da Amazônia se contrapõe dramaticamente aos baixos índices socioeconômicos da região, de baixa densidade demográfica e crescente urbanização. “Desta forma, o uso dos recursos florestais é estratégico para o desenvolvimento da região”, finaliza a professora.

Riqueza cultural

A Floresta Amazônica é cercada de lendas e mitos que acabaram incorporados ao folclore brasileiro. A começar pela origem do nome, que surgiu em 1541, quando o espanhol Francisco de Orellana percorreu o Rio Amazonas e relatou histórias sobre uma tribo de índias da floresta, a quem ele chamou de amazonas, em referência às guerreiras mitológicas. Do grego a (negação) e mazos (seios), essas índias não tinham seios porque se mutilavam para conseguir utilizar melhor suas armas. Estudos da Fundação Joaquim Nabuco com dados da Fundação Nacional do Índio (Funai), descrevem outras lendas como da Uiara (Iara), a rainha das águas, uma mulher bela e doce, amada por todos da tribo, que um dia foi atacada por vários homens e jogada ao rio. Assim, ela se transformou em metade humana e metade peixe, ou seja, uma sereia, atraindo os homens para as profundezas das águas com seu canto. Há ainda a lenda do Saci – Pererê, Vitória-régia (Mumuru), Curupira, Caipora, Boto, que formam a riqueza cultural da Amazônia.

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