Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

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Fernanda Trevisan
20/3/15

O Planeta Terra é marcado pelo dinamismo. É fácil perceber isso se pensamos nos eventos meteorológicos ou nos movimentos de rotação e translação terrestres, pois são eventos cuja duração é compatível com o tempo do ser humano, isto é, são perceptíveis ao longo de nossos dias e nossas vidas. Entretanto, a história geológica da Terra também nos revela que, por mais estáticos que uma montanha e mesmo a disposição dos continentes possam nos parecer, eles sofreram mudanças ao longo das eras geológicas.

A teoria da tectônica de placas

Há aproximadamente 50 anos os cientistas elaboraram a teoria da tectônica de placas. Esta teoria descreve a litosfera fragmentada em 12 grandes placas tectônicas (Figura I) em colisão em alguns pontos e se afastando em outros. Por isso, a movimentação das placas tectônicas provoca a criação contínua de novos trechos de litosfera ou então sua destruição, nas chamadas zonas de subducção.

Figura I: placas tectônicas

 

Apesar de comporem a camada rígida e mais resistente da Terra, as placas tectônicas estão em constante movimentação: estão sobre e em contato com a astenosfera e, quando esta se movimenta, acaba por movimentar também as placas tectônicas.

A astenosfera está localizada no limite inferior da litosfera e apresenta temperaturas altas o suficiente para que as rochas alcancem o estado de fusão. Esse formato menos resistente e dúctil permite que as placas tectônicas deslizem sobre ela. Em média, a velocidade de movimentação das placas tectônicas é de dois a três centímetros por ano, com variações devido ao tipo de limite entre as placas e as forças que atuam na região. Existem três tipos de limites: os convergentes (em que a placas colidem e uma delas é reciclada de volta no manto, provocando terremotos de grande magnitude), os limites divergentes (em que as placas se afastam e novos materiais se acumulam entre elas) e os limites transformantes (em que a placas deslizam lateralmente, raspando uma na outra).

É na zona de contato entre as placas tectônicas que há a maior incidência de vulcões, cordilheiras montanhosas, terremotos e tsunamis. Na verdade, o mapeamento e a investigação da localização desses fenômenos trouxeram evidências para a existência de limites entre as placas tectônicas. Todavia, atividades geológicas semelhantes também podem ocorrer no interior das placas, com menor intensidade.

Evidências

Duas importantes descobertas foram fundamentais para consolidar a teoria da tectônica de placas: a evidência da deriva continental e as evidências da expansão do assoalho oceânico.

Em 1915, Alfred Wegener publicou em seu livro “A Origem dos continentes e dos oceanos” algumas evidências de que há 230 milhões de anos os continentes foram parte de uma massa contínua de terras emersas, um megacontinente chamado por ele de Pangea (Figura II), circundado por um único oceano, o Pantalssa. Além do formato atual dos continentes que se encaixam como peças de um quebra cabeças, Wegener apontou também a continuidade de rochas e estruturas geológicas em continentes hoje distantes. Outra evidência foram vestígios fósseis de plantas e animais em continentes diferentes, o que não seria possível se eles estivessem separados por grandes oceanos como hoje. Dados climatológicos do passado indicando que as regiões passaram por períodos glaciais semelhantes também foram usados como prova.

Apesar das evidências reunidas, Wegener não conseguiu explicar de forma satisfatória os movimentos da deriva continental que conduziram os continentes à posição atual. Atualmente acredita-se que, ao longo da história terrestre, as massas continentais se aglutinaram e se fragmentaram diversas vezes, sendo a formação da Pangea a última junção importante de massas. 

Figura II: a deriva continental

Terremotos

Uma das maiores consequências da movimentação da litosfera no dia a dia dos seres humanos são os terremotos. A movimentação das placas provoca tensões capazes de causar rupturas nas rochas gerando vibrações que se propagam em todas as direções, como ondas. As ondas sísmicas são os terremotos, também chamados de abalos ou tremores de terra quando menos intensos. São mais comuns nos limites entres placas, mas também ocorrem em menor intensidade no interior das placas tectônicas, seja por transmitirem-se para o interior da placa, seja por causa de zonas de falhas geológicas, isto é, de uma zona de fraqueza na rocha, onde sua ruptura é mais frequente.

A magnitude do terremoto está relacionada com a energia liberada. Ela é mensurada através da escala Richter, segundo a qual um tremor de terras com magnitude 4 é 10 vezes maior que um de magnitude 3 e 100 vezes maior do que um tremor de magnitude 2. Outra escala de medição é o momento sísmico, que relaciona o tamanho do terremoto com as propriedades físicas do local em que ocorreu. Há ainda a escala de intensidade de Mercalli, que classifica em níveis de intensidade de I a XII os efeitos dos terremotos nas pessoas, nas construções e na natureza. Por exemplo, um terremoto nível III é descrito como: “Percebido notavelmente por pessoas dentro de casa, sobretudo em andares superiores de prédios. Muitos não o reconhecem como um terremoto. Veículos parados podem oscilar levemente. Vibração similar à passagem de um caminhão”.

E no Brasil?

Pelo fato do território brasileiro encontrar-se no centro da Placa Sul Americana, estamos menos suscetíveis a terremotos com alta magnitude. O país possui atividade sísmica sim, que, aliás, não deve ser negligenciada, pois, segundo cientistas, a cada ano cerca de 20 sismos com magnitude acima de três e dois com magnitude maior que quatro, em média, acontecem no Brasil.

Em 2014, segundo os dados do Observatório Sismológico, foram registrados 62 sismos no país, sendo o de maior magnitude em Atalaia do Norte, no Amazonas, com magnitude cinco. Montes Claros, em Minas Gerais, é a cidade com tremores mais frequentes, tendo passado por oito deles no ano passado.

Outro fator desencadeante de sismos é a ação humana, que causa os chamados os sismos induzidos. Explosões nucleares, extração de petróleo do subsolo, mineração em grandes proporções e a construção de reservatórios de usinas hidrelétricas são atividades que podem desencadear tremores de terra. Neste último caso, os sismos são causados pelo excesso de peso da massa de água que gera um estresse sobre a rocha que o sustenta. Sismos induzidos por reservatórios são raros: no mundo todo ocorreram dez sismos com magnitude superior a cinco.  

Todas as imagens são reproduções do site: http://pubs.usgs.gov/gip/dynamic

Você pode consultar

Observatório Sismológico UnB

U.S. Geological Survey

CRPM – Serviço Geológico do Brasil

Centro de Sismologia – USP

Incorporated Research Instituitions for Seismology

Livros:

PRESS, F, SIEVER R.,GROTZINGER, J. & JORDAN, T. H., 2006. Para Entender a Terra. Tradução Rualdo Menegat, 4 ed. – Porto Alegre: bookman, 656 p.: il.

TEIXEIRA, W.; TOLEDO, M. C. M. de; FAIRCHILD, T. R.; TAIOLI, F. (Orgs.) Decifrando a Terra. São Paulo: Oficina de Textos, 2000. 568 p.