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Nº.61 UNIVERSO Dez.2016 | Jan.2017

Por Patricia Piacentini
26/1/17

Quem está acostumado com os livros do renomado físico Marcelo Gleiser talvez estranhe “A simples beleza do inesperado” (Editora Record, 2016), livro no qual ele vai além da Física. Tendo a pescaria como pano de fundo, Gleiser discute fé, autoconhecimento e espiritualidade, com um estilo intimista e autobiográfico. Aliás, o livro torna-se ‘inesperado’ por conta dessa proposta.

Gleiser revela sua paixão pela pesca – que começou na infância, no Rio de Janeiro –, relata também sua experiência na juventude como jogador de vôlei, fala sobre seu casamento, filhos, os caminhos que o levaram para a Física e sua trajetória em outros países.

O tema da pescaria percorre todo o livro, mas de uma forma metafórica que induz o leitor a reflexões. Gleiser compara, por exemplo, o elemento surpresa, constante na rotina do pescador e também na pesquisa científica. “As leis naturais descrevem o comportamento dos fenômenos que somos capazes de observar. Porém, sabemos que nossas leis têm limites e que o que observamos da natureza tem limites. A emoção da pesquisa científica está justamente em ultrapassar esses limites, descobrindo o inesperado que se oculta sob o manto do conhecido. Que novas estruturas materiais podem existir no Universo?”, questiona.

Um pescador

O menino de Copacabana, que gostava de ver o mar e levar peixes para a casa, carregou essa lembrança da infância para a vida adulta até que, depois de uma aula sobre a chamada “pesca fly” na Dartmouth College, nos Estados Unidos (onde Gleiser é professor), ele pode pôr em prática essa paixão. A modalidade de pesca fly não é comum no Brasil: o pescador entra no rio, tenta entender o comportamento dos peixes e utiliza iscas artificias para atrair trutas e salmão.

O físico conta com entusiasmo e em detalhes todas as expedições que fez para aprimorar suas técnicas de pesca, sempre com um tutor acompanhando. Ele vai à Inglaterra, Brasil (Rio Grande do Sul) e até à Islândia, onde procura se colocar no papel de aprendiz e apreciador da natureza. Postura que o faz se redescobrir como pessoa e habitante do Universo. Ele aproveita as viagens para conferências e palestras para a prática da pesca. A cada aventura, um novo desafio, assim como acontece em sua vida de pesquisador. A pesca se transforma em uma metáfora do conhecimento.

Ao descrever suas expedições, discute temas como a relação da ciência e da fé, o nascimento da teoria quântica, a teoria do multiverso e origem do universo. Nesses recortes encontramos o pesquisador entusiasta da divulgação cientifica, empenhado em aproximar o leitor comum da ciência física, mesmo de seus temas mais controversos, como a ideia de que o universo em que vivemos não é único.

Multiverso

Gleiser discute a hipótese de que nosso universo não é tudo o que existe, mas parte de algo maior, o multiverso: um aglomerado de universos, cada um com suas próprias leis. “O nosso é aquele cujas leis permitem que estrelas nasçam e vivam por um longo tempo, suficiente para a formação de planetas e, em ao menos um deles, o surgimento de criaturas vivas”, explica.

Uma das teorias que tentam embasar essa hipótese é a Teoria das Cordas, segundo a qual a matéria não seria composta de partículas elementares que vão se encaixando para formar átomos e moléculas, mas formada por pequenos tubos de energia, as cordas, que vibram em frequências diversas, uma proposição que ainda não teve comprovação.

A Teoria das Cordas prevê um número absurdo de possibilidades de universos. “Tudo o que podemos medir sobre o universo está dentro de uma bolha de informação (...) Caso existam, os outros universos, eles estão fora dela”, diz o autor. Ele faz uma analogia com a visão que temos de uma praia: sabemos que o mar continua além do horizonte, mas não podemos vê-lo.

Segundo o físico, a bolha de informação que nos restringe é decorrência de o universo ter uma data de nascimento, já que sabemos que o tempo tal como o conhecemos começou há aproximadamente 13,8 bilhões de anos. Por isso, ele questiona: “Como interpretar o que ocorre quando a fé numa visão de mundo não observável é o guia principal para a criatividade científica numa determinada área?”.  

A pesca ilustra a relação do homem com a natureza, sua origem, além da finitude dos recursos naturais explorados de forma desmedida pela humanidade. Para Gleiser, esse contato com a natureza traz uma “paz profunda, como se (ele) tivesse entrado em um quadro, onde o tempo não existe”.  A simples beleza do inesperado é, portanto, contemplar a natureza sem estar condicionado a uma visão religiosa ou como algo sobrenatural, mas como um modesto espectador que faz parte desse universo e está sempre se surpreendendo com ele, assim como ocorre com o conhecimento.