Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Matheus Vigliar
Alberto Rojo
2/4/14

Em meados dos anos 1990, o cosmonauta russo Sergei Avdeyev bateu um recorde inusitado. Viajou 748 dias na estação espacial Mir, a 27 mil quilômetros por hora, e retornou 0,02 segundos mais jovem. Ele tinha viajado para o futuro. E antes de Avdeyev, em 1971, foi possível medir a mudança do tempo com relógios atômicos em voos comerciais: relógios atrasavam ou adiantavam (por nanossegundos, é claro) se o voo estivesse indo para o Leste ou o Oeste, respectivamente.

A chave para a viagem no tempo é que, de acordo com a Teoria da Relatividade de Albert Einstein (1879-1955), o próprio tempo é flexível. Mas, para que o efeito seja perceptível à escala humana, a velocidade da nave teria que ser próxima à da luz. Mas a possibilidade existe.

A ideia de que o tempo transcorre em medida diferente para indivíduos distintos tem uma longa trajetória na literatura e no folclore universal. Jorge Luis Borges1, o meu escritor favorito, a comentou em várias passagens. Na epígrafe do conto O Milagre Secreto, citou o Alcorão (II , 261):

E Deus o fez morrer durante cem anos e, em seguida, reanimou-o e disse:

- Por quanto tempo você esteve aqui?

- Um dia ou parte de um dia – respondeu.

Em A Procura de Averróis, contou a história dos sete cristãos em Éfeso:

Vemo-los retirarem-se para a caverna, vemo-los orar e dormir, [ …] vemo-los acordar depois de 309 anos.

A ideia de alguém entrando em uma caverna e voltando em um tempo diferente daquele também aparece em Cervantes2 (acho que Borges não citou esse episódio), quando Quixote entrou na cova de Montesinos, conta três dias lá dentro e, ao sair, no exterior havia passado somente uma hora.

Enquanto a teoria da relatividade admite tempos variáveis de acordo com o estado de movimento relativo, abre a porta para paradoxos: suponhamos que um homem viaje de volta no tempo e mate seu pai, antes que ele conheça a sua mãe. Nesse caso, o homem não poderia ter nascido e, obviamente, não poderia ter viajado de volta no tempo. Se o homem em questão não viajar no tempo, significa que o seu pai “está” vivo no passado e que ele poderia nascer, viajar no tempo e matar seu pai. O paradoxo lógico reside precisamente em que cada possibilidade carrega sua própria negação. Viajar ao passado e modificá-lo significa alterar a rede de causas e efeitos. Sobre essa contradição, disse Borges em A Outra Morte:

Na Suma Teológica3, nega-se que Deus possa fazer com que o passado não tenha existido, mas nada é dito sobre a complexa concatenação de causas e efeitos, que é tão vasta e tão íntima, que não caberia anular um único fato remoto, ainda que insignificante, sem invalidar o presente. Modificar o passado não é mudar um único feito; é anular as suas consequências, que tendem a ser infinitas. Em outras palavras: é criar duas histórias universais. (tradução nossa)

Então, é completamente impossível viajar no tempo? A coisa não é tão clara. Essa pergunta sempre inquietou Einstein, já que a Teoria da Relatividade admite certas soluções onde a distinção entre o “antes” e o “depois” se desvanece em pontos muito distantes no espaço e no tempo. O primeiro a demonstrá-lo matematicamente foi o lógico austríaco Kurt Gödel (1906-1978), em 1949, embora a sua solução corresponda a um universo de rotação que não é o que habitamos.

Em 1986, Carl Sagan4 publicou Contact, um romance de ficção científica no qual descreve um “buraco de minhoca” (em inglês, wormhole; uma das soluções das equações de Einstein que ligam partes distantes do mesmo universo) construído por uma civilização antiga para realizar viagens super-rápidas. Um ano antes, Sagan, que queria manter a física do assunto o mais rigorosa possível, enviou um esboço do romance para os cosmólogos Michael Morris e Kip Thorne, para pedir supervisão técnica. Encorajados pela obra, Morris e Thorne encontraram os buracos de minhoca, soluções para as equações da relatividade que, em suas próprias palavras, “são tão simples que não acreditamos que não tenham sido encontradas antes; no entanto, não temos conhecimento de estudos prévios”.

Em resposta a essas conclusões, Sagan incorporou os buracos de minhoca nas provas finais do romance. Alguns anos mais tarde, Michael Morris, Kip Thorne e Ulvi Yurtsever publicaram um artigo no qual especulavam que, levando em conta os princípios da física quântica, a viagem no tempo através de buracos de minhoca seria possível, mesmo que suas implicações – o autoinfanticídio, por exemplo – fossem absurdas.

Em um trabalho de 1991, Stephen Hawking5 supôs o contrário, propondo um mecanismo que ele chamou de “proteção cronológica”, cuja função seria impedir a viagem no tempo. No último parágrafo, afirmou: “Há evidência experimental a favor desta hipótese pelo fato de que hoje não estejamos invadidos por hordas de turistas vindos do futuro.”

Outra obra, também de 1991, desta vez do físico britânico David Deutsch, sugeriu que é possível viajar no tempo e, sem dizê-lo, o propõe dentro da teoria da física quântica de muitos mundos: em cada decisão o mundo se ramifica e, em cada ramificação, existimos com uma história pessoal diferente. Então, de acordo com Deutsch, o viajante poderia ir para trás no tempo e chegar a um ramo da história diferente daquele em que ele começou sua jornada. Carl Sagan é mais ousado ainda e argumenta que talvez os turistas do futuro de Hawking existam: que eles já estejam entre nós, mas não os reconhecemos. Talvez seja você, caro leitor, talvez seja eu. 




1 Jorge Luis Borges (1889-1986) foi um escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino.
2 Miguel de Cervantes (1547 — 1616) foi um romancista, dramaturgo e poeta espanhol, autor da obra Dom Quixote de La Mancha (1605).
3 Título da obra de São Tomás de Aquino (1225-1274) – frade, teólogo e santo da Igreja Católica –, escrita entre os anos de 1265 e 1273.
4 Carl Sagan (1934 — 1996) foi um cientista, astrobiólogo, astrônomo, astrofísico, cosmólogo, escritor e divulgador científico norte-americano.
5 Stephen Hawking é um físico teórico e cosmólgo britânico. Entre suas principais obras de divulgação científica estão Uma Breve História do Tempo: do Big Bang aos Buracos Negros (1988) e O Universo numa Casca de Noz (2002).