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Nº.61 UNIVERSO Dez.2016 | Jan.2017

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Por Carolina Medeiros
15/6/16

A história da Grécia Antiga pode ser contada a partir das inúmeras guerras travadas por aqueles povos. A origem dos Jogos Olímpicos também está ligada à essas guerras. Quando mencionamos a Grécia Antiga estamos nos referindo a um conjunto de cidades-estado (poleis, em grego) que se formaram em torno do Mar Egeu, na Península Balcânica e na Anatólia por volta do século VI a.C. Esse conjunto de cidades-estado era chamado de Hélade. Independentes, essas cidades entravam em guerras frequentes para estabelecer a supremacia na Hélade. Em 776 a.C., o rei Ifitos, da cidade-estado de Ilis, dirigiu-se ao Oráculo de Delfus procurando uma resposta para colocar um fim as disputas. De acordo com a mitologia, Apollo, deus do Sol e da luz, aconselhou Ifitos a organizar jogos atléticos na cidade de Olímpia para comemorar a paz. Nasciam assim, os Jogos Olímpicos, organizados por Ilis e pelos reis Licurgo, de Esparta e Cleostenes, de Pissa.

Juntamento com os Jogos foi firmado o primeiro e mais longo tratado de paz de que se tinha registro até então. Esse tratado, que recebeu o nome de Ekecheiria e que segundo a mitologia grega, é a personificação da trégua sagrada, previa que sete dias antes e sete dias depois dos jogos olímpicos, qualquer guerra ou disputa estavam proibidas. Assim atletas, artistas e espectadores podiam viajar para Olímpia para participar das festividades e voltar para casa em segurança.

Nesse período os jogos tinham um forte caráter religioso, ou seja, eram feitos não apenas para estabelecer uma trégua entre as constantes guerras, mas em homenagem aos deuses, como afirma Lindener Pareto Junior, professor de história da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas). Este modelo de competição teve seu ápice entre os séculos VI a. C. e V a. C.; período de apogeu da Grécia Antiga. Porém com a morte de Alexandre, o Grande (323 a.C.) e a anexação da península grega e por Roma (146 a.C.) começa um declínio do espírito olímpico na Grécia. 

Lutadores gregos. Crédito: Reprodução | Enciclopédia de História Antiga.

Não há consenso entre os especialistas sobre quando os Jogos Olímpicos da Antiguidade terminaram. Para alguns, os Jogos pararam de ser realizados por volta de 393 d.C., quando o imperador romano Teodósio I (347-395 d.C.) declarou que todas as práticas e cultos pagãos seriam eliminados. Há que defenda isso aconteceu somente em 426 d.C., quando seu sucessor, Teodósio II, ordenou a destruição de todos os templos gregos. Os Jogos Olímpicos não voltaram a ser realizados até o final do século XIX.

O renascimento dos Jogos Olímpicos

Assim como em sua origem, a busca da paz também motivou o ressurgimento dos Jogos Olímpicos. Em 1821, começou a guerra de independência da Grécia, até então dominada pelo Império Otomano. Evangelis Zappas, um rico filantropo grego, escreveu ao Rei Oto, da Grécia, em 1856, oferecendo recursos para financiar o renascimento dos Jogos. Zappas patrocinou os primeiros Jogos Olímpicos da Modernidade, em 1859, que aconteceram em Atenas e dos quais participaram atletas da Grécia e do Império Otomano. Em seguida, Zappas financiou a restauração do antigo Estádio Panatenaico, local para competições de atletismo em Atenas, para acolher edições futuras da competição.

O Estádio Panatenaico nos dias de hoje. Destinado a competições de atletismo. Suas escadas foram construídas originalmente em mármore branco. Reprodução Wikipedia.

Os jogos de 1959 estimularam o cirurgião francês, William Penny Brookes, a organizar, em 1866, uma olimpíada nacional na Grã-Bretanha, os Jogos Anuais da Sociedade Olímpica. Em 1890, após assistir a essa competição, o Barão Pierre de Coubertin criou o Comitê Olímpico Internacional (COI). Os primeiros Jogos Olímpicos organizados integralmente pelo COI aconteceram em 1896 novamente em Atenas e são considerados um marco no ressurgimento das Olimpíadas Modernas. 

Trégua moderna

A despeito de ser uma tradição dos Jogos Olímpicos da Antiguidade, somente depois de quase 100 anos após a criação do COI que a trégua olímpica foi novamente integrada aos Jogos. Uma parceria da Organização das Nações Unidas (ONU) com o Comitê negociou uma trégua Olímpica, permitindo assim os atletas da extinta Iugoslávia que, então, enfrentava uma guerra civil, participassem dos Jogos de Barcelona, em 1992

Porém, ao longo de sua história, nem sempre os Jogos Olímpicos Modernos conseguiram estabelecer um clima de paz no mundo. Um exemplo disso foi o cancelamento dos Jogos durante as duas Grandes Guerras Mundiais (em 1916, 1940 e 1944). No quadro abaixo estão exemplos de conflitos que afetaram os Jogos.

Os principais conflitos

1936 - O Conselho Olímpico da Irlanda boicotou os Jogos de Berlim, sob a alegação de o COI ter insistido que sua equipe representava o Estado Livre Irlandês e não a Ilha da Irlanda; como defendia o governo irlandês.

1956 - Houve três boicotes nos Jogos Olímpicos de Melbourne. Os Países Baixos, Espanha e Suíça se recusaram a comparecer em apoio à Revolta Húngara, que lutava conta a União Soviética. Esta, em parceria com o partido comunista húngaro, controlava o país de maneira autoritária.

1976 – 20 países africanos não compareceram aos Jogos de Montreal em protesto pelo COI ter barrado a participação da África do Sul. A proibição deveu-se ao regime segregacionista sul-africano. Taiwan, também decidiu boicotar estes jogos para protestar contra a permanência da delegação da República Popular da China (RPC).

1980 – No auge da Guerra Fria, 67 nações, entre elas Estados Unidos, Alemanha, Canadá, Japão, França, Portugal e Reino Unido, boicotaram os Jogos Olímpicos em protesto pela sede ser Moscou, capital da então União Soviética.

1984 - A União Soviética e catorze dos seus parceiros do Bloco do Leste (com exceção da Romênia) revidou ao boicote de Moscou e não comparecer aos Jogos de Los Angeles, alegando falta de segurança para os seus atletas em terras americanas. 

Um dos fatos mais tristes na história do Jogos que contraria a trégua olímpica aconteceu em 1972, durante os Jogos Olímpicos de Munique, na Alemanha, quando onze atletas de Israel foram mortos pelo grupo terrorista palestino Setembro Negro. Um policial alemão e cinco terroristas também morreram na tentativa de libertar os reféns.

Esporte e paz

Em outubro de 2015, a Assembleia Geral da ONU aprovou a observação da trégua olímpica durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016, juntamente com a resolução “Esporte para o desenvolvimento e a paz: construindo um mundo mais pacífico e melhor por meio do esporte e do ideal olímpico”. Assinada por 180 dos 193 países da ONU, a resolução pede a paralisação dos conflitos no período de sete dias antes da cerimônia de abertura dos Jogos (marcada para 5 de agosto de 2016) até sete dias depois da cerimônia de encerramento dos Jogos Paralímpicos (agendada para 18 de setembro de 2016). A Ucrânia se absteve de assinar o documento, explicando que se sentiu forçada pela agressão da Rússia, que desrespeitou a trégua durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, em 2014.

Como contribuição à trégua Olímpica, a proposta do Comitê Organizador Rio 2016 é defender os direitos das crianças, com ações que foquem na proteção e na educação de meninos e meninas em todo o mundo.

Fontes consultadas:

Comitê Rio2016

Site Oficial dos Jogos Olímpicos

Site Nacional dos Jogos Olímpicos

Portal EBC- Agência Brasil