Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Por Matheus Vigliar
Por Mariana Castro Alves
12/11/14

Dois personagens sem história – um menino que não se lembra de seu passado e seu protetor, que somente em brincadeira aceita ser chamado de pai – vagam em território africano em busca de um lugar escondido, para não se tornarem alvo de bandos em guerra. Em uma estrada erma e poeirenta, encontram um machimbombo, que no linguajar local quer dizer autocarro ou ônibus. O veículo, que está incendiado, vai lhes servir de abrigo. Entre os corpos carbonizados, o menino acha uma mala com cadernos manuscritos pelo garoto Kindzu, vítima das guerrilhas que assolam o país. A partir daí, tem inícioTerra Sonâmbula, do escritor moçambicano Mia Couto, que mescla histórias recheadas de motivos da cultura oral africana à guerra que apaga as identidades de cada um.

O livro traz como pano de fundo a devastação de Moçambique por sucessivos confrontos. De 1965 a 1975, a batalha é contra o domínio português. Após a independência, em 1975, outro conflito se sucede. Disputas internas entre os partidos Renamo e Frelimo ocorrem de 1976 a 1992 e fazem vítimas indiscriminadamente. O romance, que retrata o último período dessa guerra civil, foi publicado pela primeira vez em 1992, quando foi assinado o Acordo Geral de Paz entre os dois grupos, que hoje disputam pacificamente as eleições.

O menino Muidinga e o velho Tuahir encantam-se com a narrativa descrita pelos diários de Kindzu. Os cadernos ajudam a recuperar a humanidade que eles perderam. O “escritor” é o único a contar sua história familiar. Com uma mãe que leva diariamente comida para o fantasma do pai morto, Kindzu sai de casa para tentar se tornar um guerreiro local naparama. Suas aventuras, seus amores e dilemas pessoais somam-se aos de personagens igualmente complexas, que aparecem e desaparecem, ora se apoiando em crenças, muitas vezes fantasiosas, ora se desprendendo da tradição para garantir a sobrevivência. Enquanto isso, Muidinga e Tuahir permanecem no machimbombo, observando a alternância da paisagem minimalista e inóspita em que apenas as hienas, comedoras de mortos putrefatos, se contentam, debochando da morte espalhada por toda a parte.

Em seus cadernos, Kindzu tenta entender o conflito, porém não há indicação de solução: “tinha que haver guerra, tinha que haver guerra, tinha que haver morte.  E tudo era para quê? Para autorizar o roubo. Porque hoje nenhuma riqueza podia nascer do trabalho. Só o saque dava acesso às propriedades. Era preciso haver morte para que as leis fossem esquecidas. Agora que a desordem era total, tudo estava autorizado. Os culpados seriam sempre os outros.

- Pode acabar o país, Kindzu. Mas, para nós, dentro de nós essa guerra nunca mais vai terminar”, diz a amada do escritor dos cadernos, a talvez prostituta Farida, que para a população devia morrer por infringir as normas de comportamento locais.

Em seu absurdo, a guerrilha se torna inexplicável: “nem isto guerra nenhuma não é. Isto é alguma coisa que ainda não tem nome”, diz um amigo de Kindzu, que vê os confrontos como resultado de uma guerra-fantasma, com um exército-fantasma, “temido por todos e mandado por ninguém”. “E nós próprios, indiscriminadas vítimas, nos íamos convertendo em fantasmas”, sentencia a personagem que antecipa o sonambulismo do país.

O espectro do pai louco ronda toda a narrativa de Kindzu, em uma metáfora da desumanização promovida pela guerra, que transforma os vivos em vivos-mortos e os mortos, insepultos, em assombrações ou xipocos, que é como se chamam os fantasmas em Moçambique.

Em uma aparição, o alucinado pai de Kindzu é quem, com lucidez, aborda uma sugestão central da trama: em terreno de guerra, onde o conflito se perpetua na supressão da humanidade do homem, talvez somente a literatura e os sonhos possam realizar o propósito de nos “despirmos deste tempo que nos fez animais”:

“- Mas pai, o que passa com esta nossa terra?

- Você não sabe, filho. Mas, enquanto os homens dormem, a terra anda a procurar.

- A procurar o quê, pai?

- É que a vida não gosta de sofrer. A terra anda a procurar dentro de cada pessoa, anda a juntar os sonhos. Sim, faz de conta ela é uma costureira dos sonhos”.

Ao final, a imagem das folhas do diário que se espalham pela estrada, ao vento, e a conversão das letras em grãos de areia apontam, quem sabe, através de uma literatura que fale sobre e se torne terra, para a possibilidade de retorno a uma lembrança do que foi ser gente.

COUTO, Mia. Terra Sonâmbula. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.