Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Imagem: Reprodução
José Lino Oliveira Bueno
10/4/14

Não há quem já não tenha experimentado situações durante as quais nem percebeu o tempo passar. Outras, ao contrário, parecem demorar demais. Há músicas que nos parecem intermináveis e outras que parecem acabar rapidamente. Da mesma forma, temos a impressão de levar mais tempo olhando algumas pinturas ou esculturas, mesmo que o tempo de observação seja objetivamente o mesmo. Mas o tempo marcado pelo relógio não se alterou nestas situações. As pessoas é que o perceberam distorcido em relação à duração medida mecanicamente.

Experiências como essas, que fazem parte do nosso cotidiano, chamaram a atenção do laboratório do Centro de Estética Experimental*, que coordeno na Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto (SP). Buscamos entender como a apreciação artística de uma peça musical, de uma pintura ou escultura está ligada a estas experiências de distorção subjetiva do tempo.

A pergunta principal que tentamos responder é: que processos psicológicos estão envolvidos nestas alterações do tempo subjetivo quando apreciamos uma obra de arte? Que estudos e experimentos podem ser feitos para explicar nossa experiência do tempo subjetivo?

Medindo a experiência do tempo

A experiência de passagem do tempo é subjetiva. Para ter dados sobre isso, apresentamos trechos musicais, reproduções de pinturas ou esculturas (que chamamos de estímulos) aos participantes do estudo, e depois perguntamos quanto tempo durou o estímulo, ou qual estímulo durou mais que o outro. Pelas respostas, ficamos sabendo se o participante do estudo percebeu o tempo como igual, mais longo ou mais curto do que a duração real do estímulo apresentado a ele.

Fizemos um estudo, por exemplo, em que jovens estudantes ouviam duas peças de melodias semelhantes, mas com diferenças específicas de composição: um trecho romântico, originalmente composto pelo austríaco Gustav Mahler (1860-1911), e o mesmo trecho reescrito numa linguagem musical contemporânea pelo compositor italiano Luciano Berio (1925-2003). O trecho de Berio foi percebido como mais longo do que o de Mahler, embora ambos tenham sido executados com a mesma duração.

Complexo e demorado

Temos encontrado com grande regularidade, nos nossos estudos, estas distorções de tempo. Resta, então, a questão principal: o que levou os participantes a alterarem subjetivamente a duração do estímulo, subestimando ou superestimando-o? No estudo com as peças de Mahler e Berio, verificamos que a complexidade dos estímulos musicais é um dos elementos de composição musical que podem alongar o tempo subjetivo. Estímulos mais complexos envolvem maior armazenamento de informação na memória, e eles serão relembrados como mais longos do que aqueles que envolveram quantidade menor de informação. Então, modulações subjetivas de tempo podem ser explicadas por processos psicológicos, tais como memória, atenção, aprendizagem, expectativas e percepção.

Música, emoção e tempo

Mas as escalas musicais contêm outros elementos importantes, tais como andamento e a propriedade de gerar emoções. Melodias compostas em tonalidade maior, e classificadas pelas pessoas que participam do estudo como mais alegres, passam a ser consideradas mais tristes quando o andamento da música torna-se mais lento.  O inverso ocorre para as melodias em tonalidade menor.

As emoções provocadas pelas músicas, entretanto, modificam o efeito do andamento sobre a percepção de tempo. As músicas classificadas como mais agradáveis eram julgadas como mais curtas que as músicas desagradáveis. Então, o tempo subjetivo não está ligado apenas à tonalidade, mas à combinação com outros elementos musicais, tais como andamento e emoção.

Movimento e percepção do tempo

O que acontece quando estamos apreciando visualmente uma obra de arte pictórica?  Da mesma forma que acontece com estímulos musicais, há distorções temporais em função dos diversos elementos da imagem. Um deles é o movimento. Objetos em movimento são percebidos como tendo duração mais longa do que aqueles estáticos ou com menor movimento. Nossas pesquisas identificaram que este efeito do movimento ocorre mesmo quando a imagem é estática, mas seus elementos de composição induzem a experiência subjetiva de movimento.

Edgar Degas (1834-1917) foi um artista que se preocupou bastante com o emprego de movimento nas suas pinturas e esculturas.  É bastante conhecida a série de esculturas de bailarinas, representando diferentes passos de balé1. Em um estudo pioneiro, expusemos reproduções de esculturas com diferentes passos de bailarinas para induzir percepções de maior ou menor movimento nos estudantes participantes da pesquisa.

Embora as imagens apresentadas fossem cópias fotográficas estáticas das bailarinas e fossem expostas por uma mesma duração de tempo, as imagens que induziam maior percepção de movimento produziram nos estudantes uma percepção de tempo subjetivo mais longo de observação. Do ponto de vista biológico, diversos outros estudos vêm comprovando nosso modelo teórico de que a ativação de neurônios especializados (chamados de neurônios-espelho) pode ser um dos componentes explicativos das distorções de tempo subjetivo produzidas na apreciação de uma obra, pintura ou escultura.

 

* Colaboraram nestas pesquisas: Érico Artioli, Danilo Ramos, Francisco Nather, Sylvie Droit-Volet e Emmanuel Bigand.



1 Algumas dessas bailarinas (esculturas e pinturas) podem ser vistas no Masp (Museu de Arte de São Paulo “Assis Chateaubriand”), em São Paulo.