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Nº.61 UNIVERSO Dez.2016 | Jan.2017

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Por Adriana Menezes
30/11/16

O problema: a escassez de água para o consumo humano para as famílias de agricultores da região semiárida de Campina Grande, na Paraíba. A solução encontrada: construir cisternas próximas as casas dos agricultores para armazenar água da chuva captada por uma estrutura com calhas de zinco e canos de PVC. Esse é um dos exemplos de tecnologia social que, segundo o conceito adotado pela Fundação Banco do Brasil, "compreende produtos, técnicas ou metodologias reaplicáveis, desenvolvidas na interação com a comunidade e que represente soluções efetivas de transformação social". No caso dessa tecnologia, as cisternas são construídas com placas de concreto, pré-moldadas no próprio lugar de sua instalação. Seu método construtivo prevê que a cisterna seja construída por pedreiros das próprias localidades e que as famílias beneficiadas executem os serviços de escavação, aquisição e fornecimento da areia e da água. Os pedreiros são remunerados e a contribuição das famílias nos trabalhos de construção caracteriza-se como a contrapartida no processo. Simples, de baixo custo e adaptável a qualquer região, o reservatório fica semienterrado e tem capacidade para armazenar até 16 mil litros de água, quantidade suficiente para uma família de cinco pessoas beber e cozinhar por seis a oito meses, período médio da estiagem na região.

O sistema capitalista tradicional depende da introdução de inovações tecnológicas constantemente. Tecnologias que alimentem o mercado de novos produtos e serviços que possam gerar lucro. No entanto, o conhecimento e os insumos de onde nascem essas inovações está concentrado nas mãos de poucas pessoas ou grupos, o que, consequentemente, impede que os benefícios gerados sejam repartidos. A tecnologia social, ao contrário, é um conceito que considera a participação coletiva no processo de organização, desenvolvimento e implementação. Em geral ela busca combinar conhecimento popular e científico e está baseada na disseminação de soluções para problemas voltados a demandas de alimentação, educação, energia, habitação, renda, saúde, meio ambiente ou recursos hídricos, como foi o caso das cisternas em Campina Grande. A Fundação Banco do Brasil mantém um banco de projetos desenvolvidos por tecnologia social em diversas áreas.

O projeto Biotupé, criado há 15 anos na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Tupé, em Manaus (AM), é outro exemplo.  A RDS do TUPÉ foi criada com a finalidade de compatibilizar seu uso com a manutenção das características naturais existentes na região, permitindo a sua conservação para as presentes e futuras gerações e a sobrevivência em condições adequadas das populações locais. A RDS tem cerca de 12 mil hectares e localiza-se a oeste de Manaus, na margem esquerda do rio Negro, distante aproximadamente 25 km em linha reta do centro da cidade. Uma das tecnologias sociais desenvolvidas foi o beneficiamento local cooperativo da polpa de cupuaçu que resultou em aumento significativo da renda por parte da comunidade.

Segundo o professor de sociologia Duarcides Mariosa, do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa), responsável pelo desenvolvimento de pesquisas na área de sustentabilidade socioambiental do Biotupé, a tecnologia social é um trabalho multidisciplinar, onde primeiro é preciso entender a mecânica da coesão social e como as pessoas se organizam, para depois saber a problemática. “As ferramentas não são aleatórias”, diz. No caso de Tupé ele lembra que, quando deram início aos trabalhos na comunidade, os pesquisadores acreditavam que a maior preocupação da comunidade era a saúde. Mas, para os ribeirinhos e indígenas da reserva, a ausência de eletricidade era um problema muito maior. “Nós não podemos, com nosso olhar de fora, levar soluções. Não posso desenvolver as ações de acordo com o que acho melhor”.  A tecnologia social envolve pesquisas nas mais diversas áreas disciplinares, mas ela é, de fato, imaterial. “Desenvolvemos articulações conjuntas com a comunidade, a fim de potencializar ou corrigir alguma coisa, mas sempre com respeito à forma como o grupo funciona”, explica Mariosa.

Tecnologia social e crise do neoliberalismo

Para o professor Renato Dagnino, professor titular do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a cada dia fica mais evidente que o atual modelo de desenvolvimento que seguimos é insustentável nos aspectos ambiental, econômico e social. “Este é o paradigma do neoliberalismo. As três esferas estão em crise, o que nos obriga a pensar em alternativas de desenvolvimento”, diz. “Pode ser a velha utopia por um mundo mais justo, mais igualitário e equilibrado social e ambientalmente, mas a verdade é que precisamos hoje de uma nova plataforma cognitiva, outro conhecimento que viabilize as formas de sociedade. A forma de organização da sociedade a partir de uma economia solidária é a contraposição à sociedade capitalista vigente. É isso que denominamos tecnologia social”, explica o professor.

Para Dagnino, o conceito é ainda mais amplo do que o que norteia ações como as da Fundação Banco do Brasil, citada acima. “A tecnologia social não é só um conjunto de artefatos tecnológicos para atender às necessidades básicas da população pobre. Esta visão caso a caso nos afasta daquilo que deve ser nosso trabalho. Não é um conceito que deriva de pensamento indutivo, mas dedutivo. Se nos mantivermos nesta lógica, não vamos muito longe, porque a realidade não é feita de cases”, critica. Para ele a tecnologia social é produzida desde o início por quem vai utilizá-la. “Quando ela é trazida ou implementada por outro ator social, isso perpetua uma situação de dependência que não queremos na sociedade que desejamos. Nós queremos construir uma sociedade onde o conhecimento seja de todos, que ele não seja privado. É a propriedade coletiva dos meios de produção e a auto-gestão”, afirma.

Portanto, nesse conceito mais amplo, a tecnologia social emerge de situações onde exista propriedade coletiva dos meios de produção, solidariedade, onde o objetivo seja a auto-gestão. “Sem desprezar essas experiências, eu saliento que estas soluções pontuais não são suficientes para encaminhar uma saída para a crise civilizatória que enfrentamos hoje”, acredita Dagnino.

Um dos dados que sustenta essa afirmação informa que 70% dos gastos em pesquisas no mundo são feitos por empresas multinacionais. Além disso, os 30% das pesquisas realizadas em institutos ou universidades também estão voltados para empresas. “Este conhecimento produzido é criado para gerar lucro para empresas”, aponta o pesquisador. Segundo ele, o mantra da inovação e do empreendedorismo tem que ser revisto. “É fundamental que nas universidades nós dediquemos nossos esforços não aos interesses das empresas. Este é o nosso grande desafio de hoje”, pontua. Para ele, é preciso formar um profissional aberto a respeitar o conhecimento popular. “Sem isso esse tipo de conhecimento tende a desaparecer no Brasil, diferentemente de países como Peru, Bolívia, Índia, onde o conhecimento ancestral não foi destruído”, finaliza.

Fontes:

Projeto Biotupé

Fundação Banco do Brasil