Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Bruna Garabito
Por Mariana Castro Alves
15/4/15

Definir o que é romance não é tarefa fácil. É preciso percorrer séculos e imaginar quais condições históricas permitiram sua constituição.  Apesar de o trajeto demandar certo esforço, vale a pena. Isso porque, ao entender o que é esse gênero, é possível compreender melhor como pensamos e sentimos o mundo na atualidade. O romance desafia qualquer categorização estanque, segundo o professor de literatura brasileira, da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Unesp, campus de Assis, Fabiano Rodrigo da Silva Santos. Sua forma nasce de uma combinação de estilos, como o romance medieval, narrativas orais, epístolas e textos de retórica. Tal hibridismo teria permitido uma estrutura aberta, “daí o romance ter se perpetuado ao longo do tempo, incorporando à sua identidade todas as formas de ruptura com seu modelo”, diz.

Tamanho e estrutura flexíveis

Basicamente, o romance é uma narrativa ficcional em prosa, mais longa que o conto ou a novela, atesta Mário Luiz Frungillo, professor do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp. “A estrutura de um romance pode variar muito de um para outro, pois é provavelmente o mais flexível dos gêneros literários”, afirma. “Um romance pode tanto ter mais de mil páginas, como, por exemplo, Guerra e Paz (1865), de Liév Tolstói, ou um décimo disso, como A paixão segundo G. H. (1964), de Clarice Lispector”, explica Frungillo. “E sua ação pode tanto se estender ao longo de anos e abranger a vida de dezenas de personagens, como no romance russo, ou se limitar a algumas horas de um dia e girar em torno de um único personagem, a protagonista-narradora G. H”, ilustra o professor, usando os mesmos exemplos.

As possibilidades são quase infinitas. A história pode ser linear, cronológica, ou ir e voltar no tempo. Também pode tratar de uma época passada ou ser uma narrativa sobre nossos dias. “Essas escolhas estão também ligadas ao tipo de narrador. Ele tanto pode ser um narrador que não participa da história, mas sabe tudo sobre ela, como ser a personagem principal, ou uma secundária da história, que só sabe aquilo que viu. Pode também ter vários narradores – a Crônica da casa assassinada (1959), de Lúcio Cardoso, por exemplo, tem cerca de dez narradores”, lembra o professor da Unicamp. Narrativa contínua ou colcha de retalhos, o romance pode combinar cartas, diários, depoimentos, notícias de jornal, confissões, o monólogo interior de uma personagem etc.

As pessoas muitas vezes falam que quem vive um amor, vive um romance. Mas, o romance não é uma forma somente do Romantismo. O professor Frungillo explica que há o romance barroco, o romance do Iluminismo, o romance realista, naturalista, simbolista etc. “E também, claro, a história contada não precisa ser de amor, pode ser uma história sobre qualquer assunto, amor, aventura, guerra, crime, fatos históricos contados à maneira de ficção, episódios colados à realidade ou inventados, de caráter realista ou fantástico, com qualquer tipo de personagem, de qualquer classe social – o que não acontecia na epopeia e na tragédia clássica, que só admitiam como protagonistas pessoas nobres”, observa.

Herói comum

O romance, tal como o conhecemos hoje, veio substituir as narrativas medievais, feitas em versos, que também eram chamadas de novelas, de romances ou de canções, como a Canção de Rolando, um poema épico composto no século XI em francês antigo, por exemplo. Com o tempo, essas produções passaram a ser redigidas em prosa. Dom Quixote (1615), de Miguel de Cervantes, ao fazer uma crítica às novelas de cavalaria, foi considerado o primeiro romance moderno. “Será a primeira obra afinada, não apenas em relação à forma, mas tematicamente, ao espírito do romance moderno”, afirma Fabiano Santos.

O pesquisador explica que, ao contrário da epopeia clássica que trazia heróis míticos como na Ilíada e na Odisseia, de Homero, os heróis dos romances são pessoas comuns, cujos conflitos trazem as contradições históricas da época moderna, por exemplo, inadequação aos valores da sociedade. “O romance desce à esfera da vida comum. Deuses e heróis não estão presentes em textos modelares ao gênero como Dom Quixote, de Cervantes, que apresenta uma caricatura anacrônica do tipo cavalheiresco, Robinson Crusoé (1719), de Daniel Defoe, que narra a história de um náufrago, Tom Jones (1749), de Henry Fielding, onde o herói é um órfão”, exemplifica.

Para Santos, o romance corresponde a uma obra de ficção, portanto distinta do relato e da biografia, “mas com grande inclinação ao real, que se observa em sua coerência interna, na busca da verossimilhança, na atenção ao pormenor da vida cotidiana e em sua permeabilidade à realidade sócio histórica”, afirma. Ao retratar o modo de pensar do nascimento da era moderna, Dom Quixote e Sancho Pança se tornam, assim, os primeiros representantes do individualismo.

Condições históricas

Os fatores que permitiram a ascensão do romance foram variados. Na Europa do século XVIII, o acesso à alfabetização de pessoas não pertencentes às classes mais abastadas criou uma demanda por narrativas “mais fáceis” que a epopéia e a tragédia, muito ligadas a uma formação clássica – algo que relegou o gênero a preconceitos. “Outro fator importante foi a profissionalização dos escritores, que não mais podiam depender de um mecenas, mas viviam do que produziam, o que os levou a buscar um público mais numeroso”, conta Frungillo.

Até fatores aparentemente irrelevantes como a redução do preço das velas, que passaram a ser feitas de material mais barato, teria, segundo o crítico inglês, Ian Watt, dado condições para a disseminação dos romances. “Uma pessoa alfabetizada que trabalhasse durante o dia como criado em uma casa abastada, por exemplo, podia se dar ao luxo de queimar uma vela inteira lendo romances entre o fim de seu horário de trabalho e a hora de ir dormir”, detalha o pesquisador da Unicamp, que também lembra o papel da imprensa.

Difusão

O folhetim foi um dos grandes responsáveis da difusão do romance, “sobretudo em sociedades como a brasileira, que não tinha um mercado editorial consolidado”, diz Fabiano Santos. “No século XIX, havia no Brasil poucas casas de imprensa, o que dificultava a publicação de romances (por isso, muitos eram publicados na Europa), tornando os livros objetos caros e elitizados. O folhetim permitiu o acesso de um maior número de leitores e escritores à vida literária, dada a própria natureza popular do romance”, conta o professor da Unesp.  Clássicos do período – como O guarani, de José de Alencar (o folhetim data de 1857) chegaram ao público inicialmente em rodapés de jornais, o espaço reservado aos folhetins.

Para Mário Frungillo, a publicação em folhetins tinha menos a intenção de popularizar o romance que de criar um público cativo para os jornais, que assim podiam garantir as vendas mesmo que não trouxessem notícias interessantes. “José de Alencar, em Como e por que sou romancista, conta como era esperar ansiosamente a chegada do jornal para ler o próximo capítulo. Isso criou uma forma de contar história que sobrevive ainda hoje nas séries e novelas de televisão”, aponta o pesquisador. “É verdade que grande parte do público leitor era formado por senhoras que dispunham do tempo livre necessário para se ocupar com sua leitura, mas a grande seriedade dos temas abordados por romancistas como Balzac, Charles Dickens, José de Alencar mostra que, ao lado de autores que forneciam principalmente entretenimento, sempre houve aqueles que se utilizaram dessa forma de escrita para discutir o mundo em que viviam”, afirma.

Firme e forte

O romance continua vivo em formas de entretenimento populares como o cinema e a telenovela. “Além disso, os grandes best-sellers de nossa época são romances escritos nos moldes da ficção popular entre os séculos XVIII e XIX”, aponta Santos. O sucesso desse formato significa que ele está “entre os mais bem sucedidos na tarefa de angariar a sensibilidade coletiva”, conforme assevera o professor da Unesp. “Não apenas em relação à forma, mas também tematicamente paira sobre eles o espírito romanesco: ecos do romance fantástico surgem em obras populares como Harry Potter e Crepúsculo e a trivialidade do romance realista (de uma Jane Austin, aliás, muito lida ainda hoje), é perceptível nos açucarados romances de Nicholas Sparks”, menciona o professor, que evita falar de qualidade literária.

“Enquanto não houver mudanças significativas nos nossos modos de produção, de relação com o capital e na nossa sensibilidade – enfim, enquanto ainda formos uma sociedade de orientação burguesa utilitária, por um lado, curiosa em relação à devassa do cotidiano e, por outro, necessitada de doses generosas de escapismo e fantasia – os modelos do romance realista e do romanesco ainda encontrarão ressonância entre nós”, afirma Fabiano Santos.

Mário Frungillo conta que, quando o irlandês James Joyce publicou seu romance Ulisses (1922), fazendo um dos experimentos mais radicais com essa forma literária, houve quem dissesse que aquele romance acabaria com todos os outros, como se ele tivesse esgotado as possibilidades do gênero. “Mas, felizmente, nem os romancistas nem o público se deixaram impressionar com essa sentença e o romance está mais vivo que nunca”, conclui.