Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Matheus Vigliar
Texto: Patrícia Piacentini | Arte: Matheus Vigliar
10/4/14

Muitas pessoas se queixam de que não têm tempo e de que a rotina está cada vez mais acelerada. Mas será mesmo que o tempo está passando mais rápido? Para Luiz Flávio Neubert, sociólogo e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), essa percepção se dá basicamente pelo uso cada vez maior dos meios de comunicação e de transporte para resolvermos as nossas necessidades diárias. “Essas inovações tecnológicas possibilitaram a ampliação da nossa capacidade de realizar atividades e, portanto, alteraram bastante nosso estilo de vida”.

Para Neubert, a mudança com relação ao tempo é cultural e marca o estilo de vida moderno, o qual corresponde ao uso padronizado, disciplinado e produtivo do tempo, regra levada ao máximo grau em um contexto de economia global e informação digital. “Se é possível fazermos cada vez mais atividades em um mesmo dia, isso se deve ao fato de que a organização das atividades diárias se alterou historicamente: fazemos mais coisas ao mesmo tempo como, por exemplo, andar de ônibus enviando mensagens pelo telefone”, exemplifica.

A psicóloga Laura Camara Lima, vice-coordenadora do curso de Psicologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), concorda: “Nós preenchemos o dia com atividades e metas em fatias de tempo muito precisas. Tudo é muito imediato, o que dificulta planejar e pensar no futuro”. Se antes o tempo era medido por fatores externos, como a natureza e as estações do ano, hoje ele é medido precisamente, com exatidão de milionésimos de segundos pelos relógios atômicos, o que acaba regulando o tempo social. “O tempo está próximo do homem. É a interiorização do cronômetro. Você mesmo se cobra sobre o seu tempo. Além disso, uma pessoa acelera a outra”, aponta Lima.

De acordo com Neubert, o tempo não mudou apenas de forma subjetiva, ou seja, na forma como as pessoas o percebem, mas principalmente em sua forma objetiva. “O calendário e o relógio são formas consolidadas, na modernidade, de demarcação do tempo em suas várias subdivisões (segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, séculos), as quais garantem precisão e possibilidade de cálculo sobre o tempo como algo exterior aos indivíduos. Isso exige, por parte das pessoas, uma vida muito disciplinada”, afirma.

Nesse contexto, expõe Lima, as tecnologias abriram espaço para novos modos de aprender, o que demanda mais tempo para gastar nos diversos aparelhos ou plataformas. “O excesso de possibilidades é muito cansativo. Você vê e-mail, rede social, tem que fazer atualizações, guardar senhas etc.”, enumera.

Trabalho

Se as inovações tecnológicas modificam o ritmo de vida das pessoas, pode-se dizer que alterações no ritmo das jornadas de trabalho também têm relação com as novas tecnologias? Segundo Cristina de Campos, professora do Instituto de Geociências (IG) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é um engano atribuir à tecnologia as mudanças que ocorreram com o trabalhador e sua jornada de trabalho ao longo dos últimos séculos. “Temos que ter em mente que as relações sociais, sobretudo no que diz respeito ao trabalho, sofreram transformações profundas entre os séculos XVI, XVII e XVIII, em que o trabalho deixou de pertencer ao homem”. Ela cita o escritor norte-americano Harry Braverman (1920-1976) que, no livro Trabalho e Capital Monopolista (1974), afirmou que o trabalho foi uma das propriedades sociais a se converter em um auxiliar do capital.

Depois dessa conversão, o trabalhador teve que vender sua força de trabalho em troca do salário e, consequentemente, submeter-se a jornadas de trabalho estipuladas e controladas pelo patrão. “Antes acostumado a um ritmo de trabalho ditado pela natureza e pelas estações do ano, em tempos de Revolução Industrial, o trabalhador passou a ser submetido a jornadas de trabalho exaustivas e com o tempo rigorosamente controlado pelo relógio. O desejo pelo aumento dos lucros, este sim, é que impôs um tempo maior de trabalho”, explica Campos.

Para Neubert, as tecnologias vieram para determinar o ritmo de trabalho. “Uma mudança bem universal foi o advento das fábricas como lugar principal da produção industrial. Assim como os sinos marcavam o início, intervalo e fim das atividades, seja nos mosteiros ou nas igrejas, nas fábricas, são utilizados sinais sonoros para disciplinar os trabalhadores e torná-los mais produtivos”, afirma ele. Esse fenômeno foi interpretado por Karl Marx (1818-1883) como um processo de alienação no mundo do trabalho, pautado pelo ritmo das máquinas ditando o tempo da produção, e não os trabalhadores, os verdadeiros produtores de mercadorias. “Portanto, no início (segunda metade do século XVIII) e desenvolvimento posterior da era industrial (século XIX), o trabalhador das fábricas na Europa Ocidental teve suas condições de trabalho pioradas, se comparado ao estilo de vida que levavam como camponeses. Somente os movimentos operários do século XIX começaram a reverter esse quadro com greves e pressão para criação de uma legislação específica para proteção do trabalhador”, complementa o sociólogo.

Controle remoto

A internet e os dispositivos móveis trouxeram a possibilidade do “home office”, o trabalho feito em casa. Se por um lado, trabalhar remotamente pode livrar o trabalhador do trânsito e possibilitar mais tempo com a família, por outro, pode estender a jornada para aqueles indivíduos que não desligam do trabalho mesmo depois que já deixaram o escritório e estão em casa, permanentemente disponíveis para a empresa a qualquer horário.

Segundo o sociólogo há duas interpretações bastante gerais sobre esse processo: uma que pode ser identificada como liberal, que propõe um ajuste das condições de trabalho de acordo com as novas possibilidades que as inovações tecnológicas impõem. A outra interpretação vem na contramão desta e aponta para a precarização do trabalho, ou seja, os aspectos negativos das mudanças recentes no mundo do trabalho, que têm relação profunda com as tecnologias de comunicação, processamento de informação e transporte. “É dessa perspectiva que vem a pergunta fundamental: o que a tecnologia pode fazer pelas pessoas e coletividades? Quais são os benefícios que podem gerar? Caso seja nenhum, qual a justificativa para a inovação?

O parâmetro utilizado atualmente é o mercadológico: leva-se em conta apenas o quanto uma inovação pode gerar de lucro ou influenciar na produtividade”, destaca Neubert. O problema, aponta ele, é questionar sobre quais serão as condições de sobrevivência da maioria em um sistema produtivo que necessita cada vez menos de pessoas para funcionar e, paradoxalmente, precisa cada vez mais de consumidores para distribuir a produção. “Poderíamos dizer também que não há somente uma divisão desigual dos meios de produção e das mercadorias, mas, também, do tempo como recurso escassamente disponível. Isto está intimamente relacionado à questão da qualidade de vida”, conclui.

Consequências

Um dos resultados mais profundos dessa mudança cultural com relação ao tempo é a possibilidade de as pessoas se sentirem mais improdutivas, exatamente porque há a possibilidade de serem muito produtivas em relação ao tempo. “Em qualquer momento, posso ter a sensação de que não utilizei bem o meu tempo e que ele não foi suficiente para tudo aquilo que havia sido previsto. Podemos e fazemos mais coisas todos os dias: é um imperativo, já que a tecnologia pode tornar o uso do tempo, até mesmo para as atividades de lazer, mais produtivo”, salienta o sociólogo. Assim, ter um tempo para não fazer nada ou valorizar o ócio pode ser visto como algo negativo. “O descanso, a folga são malvistos e o lazer é tratado como consumo: nas viagens, muitas vezes, as atividades também são controladas pelo relógio”, destaca Lima.

A mudança no ritmo de vida e no trabalho já apresenta consequências preocupantes, como o aumento do uso de medicamentos para depressão e ansiedade.  “Distúrbios de ansiedade estão entre as principais causas de problemas de saúde mental. Verifica-se ainda uma epidemia de problemas de saúde mental no trabalho”, finaliza a psicóloga.