Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Por Patrícia Mariuzzo
20/8/14

 

O ano é 1998. No quintal da casa de George e Grace Weston, Robbie brinca de esconde-esconde, carrega a pequena Glória nos ombros e adora ouvir histórias de princesas. Cinderela é sua preferida. Robbie é um robô. Ele foi construído com uma única finalidade: servir de companhia para uma menina, por isso foi programado para ser fiel, carinhoso e bonzinho. “Robbie” é o título de um dos contos que compõem o volume I da coletânea Histórias de robôs, publicada no Brasil pela L&PM Editores (2005). O conto é um dos mais conhecidos daquele que é provavelmente o mais famoso escritor de ficção científica, o russo Isaac Asimov, que organiza a coletânea e que a considera um convite para o “espantoso mundo da antecipação”. Além do próprio Asimov, a coletânea reúne nomes ilustres da ficção científica moderna como Arthur C. Clarke, Philip k. Dick e Lester Del Rey, com o grande mérito de mostrar várias facetas da inteligência artificial e da robótica.

Publicado originalmente em 1940, “Robbie” foi a primeira história de robôs escrita por Asimov, quando ele tinha apenas 19 anos e era ainda um escritor iniciante. A despeito disso, a história se tornou um de seus contos mais marcantes. Ele antecipa cenários com os quais já estamos bastante acostumados, como nesse trecho onde o administrador da U.S. Robots, empresa que fabricou Robbie, descreve uma das áreas de produção da fábrica: “Pronto! Aí estão! Só robôs! Meia dúzia de homens fiscaliza tudo e nem sequer precisa ficar aqui dentro. Durante cinco anos, não ocorreu nenhum acidente”. Ora, na indústria automobilística existem linhas de produção que coincidem exatamente com essa descrição. O próprio Robbie se parece muito com diversos brinquedos que entretêm as crianças hoje em dia, a começar pela velha televisão, passando pelos vídeogames, tablets e brinquedos mais complexos que já estão sendo vendidos na Europa e especialmente no Japão.

Nesse conto, Asimov antecipa também as Três Leis da Robótica, exploradas mais tarde na coletânea Eu, Robô, de 1950. Para responder às preocupações da esposa sobre a segurança da menina, em permanente companhia de uma máquina, o Sr. Weston explica: “Você sabe que é impossível que um robô faça mal a um ser humano. É uma impossibilidade matemática. É mais provável que você endoideça de uma hora para outra do que acontecer alguma coisa errada com Robbie”, diz ele, caçoando da Sra. Grace.

O dilema que perpassa toda a história é a confusão que Glória faz ao acreditar que Robbie era uma pessoa. Quando levam o robô embora, por conta das preocupações da mãe, ela entristece e nada a faz esquecer o amigo de metal. A história reserva uma boa reviravolta no final, fazendo de Robbie uma inspiração para diversos robôs “heróis, de bom coração” que surgiram posteriormente.

Crédito: Reprodução

As histórias do livro, no entanto, nem sempre trazem uma imagem boa sobre os robôs. Em “O feitiço e o feiticeiro”, conto de 1894, do escritor norte-americano Ambrose Pierce, um inventor solitário acaba assassinado pela sua criação, uma máquina que joga xadrez. Nesse conto, a palavra robô ainda não aparece. Ela surge pela primeira vez em 1921, empregada pelo escritor tcheco Karel Capek, em sua peça “R.U.R.” ou “Os robôs universais de Rossum”. Robô deriva da palavra robota, que em tcheco quer dizer trabalho ou serviço compulsório. A história de Pierce é extremamente inovadora porque, com seu clima de suspense, discute, ainda no século XIX, as implicações filosóficas de uma máquina com consciência.

Essa mesma discussão aparece em “Rex”, de Harl Vincent. A história é de 1934, e se passa no século XXIII, em uma sociedade servida por robôs que realizam todo tipo de tarefa. Um dia, “uma transformação natural sem precedentes, uma fonte de energia atômica desconhecida que apareceu em algum ponto qualquer do complicado mecanismo do cérebro dele”, altera o comportamento de Rex. O robô adquire consciência e passa a empreender uma grande reforma na sociedade. O nome dado a esse personagem, Rex, significa rei, em latim, indicando as mudanças que ele pretende impor aos homens que o criaram: criar uma raça de novos seres híbridos – humanos robotizados que seriam comandados por ele.

E se Deus fosse uma máquina?

A coletânea Histórias de Robôs está dividida em quatro partes, nas quais as histórias são dividias por um critério cronológico. Assim, as duas últimas partes do livro trazem histórias dos anos 1940, época de ouro da ficção científica, quando a maioria dos clássicos foi publicada. “Adeus ao mestre”, de Harry Bates, é um deles.

O conto inspirou o filme O dia em que a terra parou, (Robert Wise, 1951), relançado em 2009, com o ator Keanu Reeves. Bates conta a história de Gnut, um robô gigante que veio do espaço: “No espaço logo à direita de vocês, tal como agora, surgiu a nave interespacial. Num abrir e fechar de olhos. Não desceu devagar, lá de cima do céu; dezenas de testemunhas juram que simplesmente apareceu”. Enquanto nas outras histórias do livro não há dúvida sobre o caráter dos robôs, essa trama é rodeada de mistério, deixando o leitor em permanente clima de suspense sobre quais seriam as verdadeiras intenções do grande robô de olhos vermelhos. O enredo é uma provocação aos mitos de criação do homem: e se Deus fosse uma máquina e, sendo máquina, tivesse criado o homem? E se não estivesse satisfeito com sua criação?

A década de 1940 marcou o ponto inicial da evolução dos computadores. A.E. Vogt aproveitou essa ideia para criar a história de Cérebro, um computador que evolui a ponto de possuir consciência e autodeterminação. Ideia frequentemente explorada no cinema, Cérebro possui poderes telepáticos e a capacidade de viajar no tempo. Por isso ele volta ao século XX para descobrir seu passado e entender porque tinha sido criado, mostrando algo em comum com os seres humanos: a permanente vontade de entender de onde viemos.

O volume I da coletânea História de Robôs (a L&PM publicou mais dois volumes) traz excelente prefácio de Isaac Asimov em que discute tecnologia e nossos receios em relação a ela, robótica e ficção científica, talvez uma das maneiras mais interessantes de conhecer e entender a tecnologia. Cada história é precedida por uma pequena introdução bastante útil para o leitor conhecer o autor e o contexto em que escreve. Para os leitores já apaixonados pela ficção, as histórias dessas máquinas confirmam porque o tema segue despertando tanto interesse. Para aqueles que, como eu, nunca tinham lido ficção científica, só resta uma coisa a fazer: ir correndo ler os outros volumes!