Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Bruna Garabito
Por Daniela Klébis
29/4/15

O Romantismo é um movimento artístico que surgiu de uma sociedade em profunda transformação socioeconômica, marcado pelo posicionamento subjetivo, ideológico e emotivo do artista diante do mundo que o circunda. Com início na Europa, no final do século XVIII, efervescente período marcado pelas Revoluções Industrial e Francesa, o movimento foi marcado por uma necessidade de romper com os rigores do passado clássico e de experimentar novas estruturas.

No Brasil, o Romantismo se dissemina sob a influência do movimento da Independência, de 1822, e da consequente necessidade de quebrar os elos políticos e culturais com a colônia portuguesa. Os artistas brasileiros dessa geração buscavam uma arte, uma poesia, uma língua que expressasse a identidade da nova nação. Daí, o forte sentimento nacionalista marcado pela procura por um ponto de vista brasileiro.

Segundo o cientista social Bernardo Ricúpero, autor do livro O romantismo e a ideia de nação no Brasil (1830-1870), de 2004, nesse processo de construção social da ideia de nação brasileira, o Romantismo assenta alguns elementos como independência literária, historiografia nacional e mestiçagem como fatores de diferenciação dos brasileiros em relação a outros povos, aomesmo tempo em que traz um silêncio cauteloso sobre a escravidão.

O grau do sucesso do empreendimento romântico, conforme aponta o pesquisador, estaria, assim, no fato de que esses elementos originais teriam pautado em grande medida a forma pela qual a nação tem sido desde então entendida no Brasil. “[…] Os intelectuais românticos deram início ao processo de construção da nação e, mesmo em meio aos constrangimentos sociais impostos pela escravidão, levaram-no adiante com as ambiguidades daí advindas. E a ideia de nação por eles construída foi aos poucos se tornando senso comum”, diz.

O ano é 1836, quatorze anos após a independência. O Brasil é ainda um império escravocrata. É o momento de reconstrução das sociedades coloniais sul-americanas, de formação de novos Estados-nação, de consolidação de territórios, centralização do governo, legitimação internacional. As ideias de Estado e de nação são cruciais nesse momento. O estabelecimento dessa nação original brasileira deveria complementar a formação desse novo Estado. . Daí, a forte ligação entre política e a arte romântica. Muitos artistas, de fato, atuavam, ao mesmo tempo, nesses dois campos. Autores como Gonçalves Magalhães, José de Alencar, Francisco Adolfo Varnhagen, por exemplo, acumulavam funções públicas.

Entretanto, Ricúpero chama atenção para a maneira paradoxal que esse Romantismo desenha o país para estabelecer a nação. Ainda que fortemente apegados a ideais de liberdade, de rompimento com velhas estruturas, de uma nova intelectualidade, inclusive criando instrumentos como a crítica literária, a literatura e a historiografia nacionais, a maior parte da população, formada por escravos negros e homens livres pobres, manteve-se excluída dessa “comunidade imaginada”.

Indianismo

A ideia de identidade nacional não existia no Brasil Colônia. Ela surge no Romantismo, a partir de referências à América portuguesa, aos personagens regionais e, primordialmente, ao índio. A eleição do indígena como símbolo heroico e a posterior formação da corrente do Romantismo brasileiro conhecida como Indianismo acontecem em 1846, com a publicação dos Primeiros cantos, de Gonçalves Dias. “Resgatar o indígena americano significava mudar os rumos do futuro da nacionalidade. Esse sem dúvida foi o ponto de partida para que em torno do indígena se construísse uma perspectiva historiográfica, cultural, artística e filosófica de ver a nacionalidade”, destaca a historiadora Maria Edith Maroca de Avelar Rivelli de Oliveira, na sua dissertação de mestrado, defendida em 2011 na Universidade Federal de Ouro Preto.

Conforme explica a pesquisadora, esse índio romântico é um conceito abstrato, uma representação alheia ao indígena real. A ideia era conceber uma nacionalidade alicerçada no indígena como elemento base da história brasileira pré-descobrimento e, conforme conta Rivelli de Oliveira, resgatar essa história “era completar as lacunas do nosso passado e do nosso futuro”. O símbolo, dessa forma, se consolida e mantém-se como elemento de destaque no Romantismo até meados de 1870.

Autor de grandes clássicos do indianismo, como O Guarani , Iracema e Ubirajara – a trilogia indigenista –,José de Alencarfoi uma das figuras mais influentes do período. Destacou-se por integrar política e literatura para a construção de um projeto de nação brasileira, tanto pelo alcance de seus romances, como também por sua figura e carreira política, conforme conta em artigo a cientista política Giovanna de Godoi Liguori Imbernon. Concomitante à carreira literária, o autor cearense ocupou diversas funções políticas: desde chefe da Secretaria do Ministério da Justiça, deputado estadual no Ceará, pelo Partido Conservador (Brasil Império), e ministro da Justiça“O conjunto de suas obras é um projeto de nível abrangente, isto é, a elaboração de seus romances obedecia a um objetivo comum ao de sua carreira e obras políticas: a formação da nação brasileira”, aponta Liguori.

A pesquisadora observa que, em suas obras, Alencar busca retratar diversos momentos e problemáticas político-sociais presentes ao longo do Segundo Reinado. Desde a prosa indianista aos romances urbanos, e até mesmo romances históricos e regionalistas, ele contempla questões importantes ao seu tempo, como a herança colonial, a questão da escravidão e a urbanização:“O jogo entre suas personagens é, portanto, uma metáfora para o conflito ente colônia e colonizador, novo e velho, passado e futuro”.

Em Iracema, por exemplo, as personagens Iracema e Martim, figuras do índio e do colonizador, encenam um romance proibido do qual nasce Moacir, o filho mestiço, fruto da união das raças que estão na origem da nova nação brasileira.

É particularmente significativo como o romantismo mobiliza símbolos importantes para pensar a nação, em especial, o índio e a mestiçagem. “Essa visão do país, evidentemente, alimenta-se de referências já presentes anteriormente e continua a reverberar posteriormente no que é chamado de imaginário coletivo. Por outro lado, é verdade que essa mestiçagem, muitas vezes, deixa de fora o negro, escravo, que não podem pertencer à nação”, conclui Ricúpero.