Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Por Patrícia Piacentini
9/9/15

Uma pesquisa realizada em 2009 pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) com 501 escolas públicas do país, apontou as formas de preconceito no ambiente escolar brasileiro. Das 18,5 mil pessoas entrevistadas, entre alunos, educadores, funcionários e pais, 99,3% demonstram algum tipo de preconceito: étnico-racial, socioeconômico, de gênero, geração, orientação sexual ou territorial ou em relação a pessoas com algum tipo de necessidade especial. A discriminação relacionada aos portadores de deficiências especiais são as mais frequentes (96,5% dos entrevistados), seguido pelo preconceito étnico-racial (94,2%), de gênero (93,5%), de geração (91%), socioeconômico (87,5%), com relação à orientação sexual (87,3%) e 75,95% têm preconceito territorial.  Os números são preocupantes e trazem um desafio para a escola. Algumas medidas tentam enfrentar o problema como a Lei 10.369, de 2003, que torna obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares. Para discutir o assunto, conversamos com Luís Carlos de Menezes, físico e educador da Universidade de São Paulo (USP), membro do Conselho Técnico Científico da CAPES/MEC para Educação Básica, consultor da Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura (UNESCO) e assessor e integrante do corpo de especialistas da Secretaria de Educação Básica (SEB) do Ministério da Educação (MEC) para a elaboração da Base Nacional Curricular.

 

Crédito da imagem: reprodução Revista Nova Escola

Pré-Univesp - É possível dizer que o preconceito no ambiente escolar é maior hoje ou o tema acabou ganhando mais visibilidade? Os gestores e educadores estão preparados para lidar com isso?

Luís Carlos de Menezes - O preconceito ganhou mais visibilidade, o que é ótimo, pois questões escondidas não são respondidas. Os gestores integram nossa cultura escolar e social de forma análoga aos demais partícipes da escola. Por isso, as iniciativas voltadas à modificação dessa cultura não pode pressupor gestores já aptos a implementá-las, mas sim tomá-los, também, como público alvo.

Pré-Univesp - O Senhor acredita que o preconceito manifestado na escola pode ser reflexo de um pensamento que vem da casa/família do aluno, um retrato cultural do país? Como modificar essa situação?

Luís Carlos de Menezes - A cultura escolar é parte da cultura do ambiente social, vivida em casa, no trabalho ou nos meios de comunicação, de forma que não será modificada sem políticas mais abrangentes, envolvendo todos os recursos, mais do que pelo refinamento de leis e prescrições.

Pré-Univesp – O senhor poderia dar exemplos de políticas mais abrangentes para combater a discriminação.

Luís Carlos de Menezes - Campanhas de mídia e de rua, filmes e espetáculos públicos mostrando a beleza da diversidade étnica, cultural e de gênero; fazer minutos de silêncio ou erguer bandeiras anti-discriminatórias antes de partidas desportivas; mostrar brancos, como eu, explicitando que, na música, na dança, na comida e na graça do convívio, são culturalmente afrodescendentes; mostrar homens assumindo “trabalhos de mulher” e vice-versa – aliás, na minha casa sou eu que cuido da pia e conserto roupas.

Pré-Univesp - De que forma o preconceito aparece no ambiente escolar? Quais atitudes podem exemplificar a discriminação? É o chamado bullying?

Luís Carlos de Menezes - O estabelecimento de “funções femininas” como cozinhar e limpar, e de grupos afetivos com concentração de gênero e etnia reforçam algumas formas de preconceito. Por isso muitas formas de assédio pela discriminação são “naturalizadas”. Para combatê-las, é mais eficiente a prática e a valorização do convívio na diversidade e do que a mera repressão.

Pré-Univesp – Quais as consequências na vida escolar e, consequentemente, no futuro do aluno que sofre discriminação?

Luís Carlos de Menezes - Um primeiro impacto é de eventual revolta e baixa-autoestima. Os impactos duradouros podem se refletir em desempenho escolar insuficiente e na depreciação social e econômica.

Pré-Univesp - O Ministério da Educação estabeleceu um prazo até junho deste ano para que estados e municípios finalizassem seus Planos de Educação para os próximos dez anos. A medida trouxe debates intensos sobre a inclusão das discussões sobre gênero em diversas cidades do Brasil. A Câmara dos Vereadores de São Paulo decidiu excluir do seu Plano as palavras “gênero” e “sexualidade” sob o argumento de que o uso desses termos poderia estimular uma “ideologia do gênero”, que estaria em oposição aos valores da família tradicional. Como o Senhor vê essa exigência do MEC e a decisão da Câmara dos Vereadores de São Paulo?

Luís Carlos de Menezes - Não sei se a demanda do MEC terá condição de ser atendida por estados e municípios. Creio que não. Quanto às questões de gênero e sexualidade, certamente devem ser temática educacional, tenho uma visão muito aberta relativa a isso, mas sei que o processo democrático é algo contraditório, e como tal precisa ser conduzido. Nações importantes como a Rússia têm compreensão muito restritiva e países teocráticos ainda mais. A batalha será longa.

Pré-Univesp - Hoje, a maioria dos jovens tem acesso às redes sociais, um canal que, muitas vezes, dissemina pensamentos e atitudes preconceituosas, seja em imagens, postagens ou vídeos.  Qual a influência da mídia em geral, mais particularmente da internet, na questão da discriminação?

Luís Carlos de Menezes - Assim como mídia e redes sociais são espaços de preconceito e discriminação, eles também são os melhores veículos para o bom combate, estabelecendo-se uma associação entre comunicadores, artistas e jovens engajados.

Pré-Univesp – É possível ser otimista e vislumbrar que o preconceito um dia poderá ser combatido no ambiente escolar? Existe um caminho para isso?

Luís Carlos de Menezes - Tem havido claro progresso na explicitação do problema, o que é o primeiro passo para enfrentá-lo. A existência de grupos mobilizados e políticas contra exclusões já dá o segundo passo. O terceiro e definitivo passo será uma mobilização social ampla para que aprendamos a apreciar e valorizar as diferenças, não simplesmente tolerá-las.