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Nº.61 UNIVERSO Dez.2016 | Jan.2017

Jussara Abraçado
1/10/15

Marta Maria Pereira Scherre é pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) e membro do Programa de Estudos sobre o Uso da Língua (PEUL), da Universidade Federal do rio De Janeiro.

E graduada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Mestre em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e Doutora em Linguística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Desenvolve pesquisas na área de Linguística, com ênfase em Sociolinguística e Dialetologia, atuando principalmente em temas relacionados à variação linguística, mudança linguística, português brasileiro, concordância de numero, verbal, nominal e imperativo gramatical.

Nesta entrevista, concedida a Jussara Abraçado e publicada no Caderno de Letras da UFF (2008), Maria Marta Pereira Scherre discorre sobre a intricada relação existente entre preconceito linguístico, variação linguística e ensino. Fala-nos ainda sobre seu livro “Doa-se lindos filhotes de poodle: variação linguística, mídia e preconceito” (2005), cuja proposta é discutir o preconceito linguístico, explicitado e reforçado na mídia de um modo geral.

 

Jussara Abraçado: O preconceito linguístico está relacionado a determinadas variedades linguísticas. Quais as variedades mais sujeitas ao preconceito? Por quê?

Marta Scherre: (...) O que é preconceito linguístico? O dicionário de Houaiss e Villar (2001) nos dá uma caracterização de fácil acesso aos leitores curiosos. Dizem os autores que se trata de “qualquer crença sem fundamento científico acerca das línguas e de seus usuários, como, p.ex., a crença de que existem línguas desenvolvidas e línguas primitivas, ou de que só a língua das classes cultas possui gramática, ou de que os povos indígenas da África e da América não possuem línguas, apenas dialetos”’. Essa crença se manifesta nos julgamentos depreciativos, desrespeitosos e jocosos dos usuários das línguas e das variedades das línguas. Assim, eu diria que o preconceito linguístico é mais precisamente o julgamento depreciativo, desrespeitoso, jocoso e, consequentemente, humilhante da fala do outro (embora o preconceito sobre a própria fala também exista).

O preconceito linguístico tem a ver, essencialmente, com a língua falada. Então, quando estamos falando de preconceito linguístico, não estamos pensando na escrita, que decorre do ensino formal, não é dada por natureza, como é a capacidade de adquirir uma língua em circunstancias naturais, sem ensino formal, e a sua efetiva aquisição: não se conhece nenhum ser humano que, inserido no seio da comunidade, não tenha adquirido um sistema linguístico e que dele não seja senhor absoluto. Isso posto, podemos perceber e dizer que as variedades linguísticas mais sujeitas a preconceito linguístico são, normalmente, as que possuem características associadas a grupos de pessoas com menos prestigio na escalasocial ou a grupos de pessoas da área rural ou do interior do pais. Este fato decorre do sentimento de superioridade - muito claro na mídia – dos grupos vistos como mais privilegiados, econômica e socialmente. Vejamos dois exemplos do português brasileiro que provocam preconceito linguístico. Uma das características das variedades menos prestigiadas na escala social e, por exemplo, a ausência de concordância nominal e verbal de numero, usada de forma variável em todo o território brasileiro (três risco verde/ as porta aberta/ os menino fala muito/ as coisa tá cara demais/ caiu os livro/ nós foi lá/ a gente fomos rapidinho/ o povo foram embora).

Para ler a entrevista completa, baixe o arquivo em pdf, clicando aqui.

Esta entrevista foi publicada originalmente nos Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Preconceito linguístico e cânone literário, no 36, p. 11-26, 1. sem. 2008 13.

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sobre o autor

Jussara Abraçado
Jussara Abraçado

Jussara Abraçado é Doutora em Linguística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e atua na Universidade Federal Fluminense, como Professora Titular de Linguística. É líder do grupo de pesquisa Linguagem em uso, cognição e gramática e membro do Grupo de Investigação Linguagem, cognição e sociedade.