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Nº.61 UNIVERSO Dez.2016 | Jan.2017

Resíduos do agronegócio também são desafio para produtores e poder público. Foto: Reprodução/Pixabay
Por Nicolau Schoenmaker
23/3/16

Há um consenso de que as cidades são as grandes produtoras de lixo. No entanto, a pecuária e a agricultura também geram resíduos cuja destinação é um desafio para os gestores do agronegócio brasileiro – pecuaristas, produtores rurais - e para o poder público. Isso porque no campo existem resíduos sólidos específicos resultantes das atividades da agricultura e pecuária. Sem o manejo correto eles podem causar sérios problemas tanto para os trabalhadores diretamente envolvidos como para o meio ambiente.

Entre esses resíduos, estão embalagens dos mais diversos tipos (de herbicidas, fungicidas, bactericidas, carrapaticidas), frascos de vacinas, além de restos de produção agrícola, fezes e cadáveres de animais.

No caso da agricultura, de acordo com dados de 2012, do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), as culturas que mais contribuem para a geração de lixo geram 291 milhões de toneladas de resíduos sólidos por ano. São elas: cana-de-açúcar, arroz, soja, milho, feijão, trigo, café, cacau, e frutas como laranja, banana, coco-da-baía e uva. Já a pecuária soma 1,7 bilhão de toneladas anuais tanto de dejetos diretos como dos decorrentes de abate.

Foto: Reprodução/Pixabay

Embalagens

Atualmente, o Brasil conta com um sistema de coleta de embalagens de agrotóxicos considerado exemplar. Os distribuidores e revendedores do produto são obrigados a colocar, na nota fiscal, o local onde o agricultor deve devolver essas embalagens, no caso, a centrais e postos. Existem 414 unidades de recebimento, sendo 112 centrais e 302 postos espalhados pelo País.

O produtor rural, por sua vez, é obrigado a fazer três lavagens e a furar as embalagens, evitando que elas sejam indevidamente reutilizadas. Esses recipientes podem ficar armazenados em depósitos por até um ano. Periodicamente, as empresas que produziram têm a obrigação de as recolher e dar a destinação adequada: reciclagem ou incineração. Já ao poder público cabe fiscalizar e apoiar os esforços de educação e conscientização do agricultor em conjunto com fabricantes e comerciantes.

Esse sistema funciona a partir da regulamentação da Lei Federal 9.974 que determinou normas e responsabilidades para o recolhimento dessas embalagens em todos os elos da cadeia produtiva: agricultores, canais de distribuição, indústria e poder público. Até o ano 2000, era comum que embalagens de produtos utilizados na atividade agrícola fossem enterradas, queimadas ou jogadas em rios, causando danos ao meio ambiente e à sociedade.

Para atender tal legislação, a indústria de agrotóxicos brasileira criou, em 2002, o Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (Inpev). De acordo com dados do Instituto, de março de 2002 até dezembro de 2013, já foram corretamente destinadas mais de 280 mil toneladas de embalagens vazias de defensivos agrícolas. Com o Sistema Campo Limpo, denominação do programa gerenciado pelo Inpev para realizar a logística reversa de embalagens vazias de defensivos agrícolas, de 2002 a 2013, houve uma economia de energia equivalente a abastecer 157 mil casas durante um ano que seria usada para fabricar novas embalagens. Índices como esse colocam o Brasil na posição de referência mundial sobre o assunto, ao destinar percentualmente mais embalagens plásticas do que os países que possuem sistemas semelhantes: Brasil 94%, Alemanha 77%, Canadá 73%, França 66%, Japão 50%, Polônia 45%, Espanha 40% e Austrália e Estados Unidos 30%, conforme dados de 2013.

O Inpev também tem um trabalho de conscientização e educação ambiental, dentro dos parâmetros curriculares do Ministério da Educação e Cultura (MEC). Atualmente, 100% das empresas fabricantes de defensivos agrícolas do Brasil estão envolvidas.  “O sucesso desse trabalho é devido a quatro pilares: uma lei clara que estabelece responsabilidade de todos os elos da cadeia (indústria, consumidor, distribuidor e poder público); a integração e sincronia desse fluxo; o investimento contínuo em conscientização e educação e a gestão da informação, hoje sabemos exatamente quantas embalagens estão nos mais de 400 distribuidores pelo país”, afirma o engenheiro agrônomo e gerente de logística do Inpev, Mario Fujii. O material que retorna se transforma em 17 artefatos novamente lançados ao mercado na forma de outras embalagens, paletes e conduítes (tubos embutidos na parede em que passam fios), por exemplo.

Aperfeiçoamento

A inserção de pequenos e micro produtores rurais, que ainda queimam ou abandonam seu lixo a céu aberto, é buscada no aprimoramento do sistema. “O recebimento itinerante auxilia o pequeno produtor que tem dificuldade de andar quilômetros para fazer a entrega. Montamos um roteiro e avisamos com antecedência que estaremos em locais próximos para o recebimento itinerante”, explica Fujii. Em 2015, foram 4.850 ações itinerantes. Só no Ceará foram recolhidas dessa forma mais de 80 toneladas de embalagens vazias. “O produtor precisa ter essa consciência, fomentando que outras áreas e outros setores também tenham iniciativas desse tipo”, afirma Fujii.

Com relação a outros tipos de lixo como peças de maquinário e material elétrico, também existe a possibilidade de devolver a vendedores e a centros de coletas especializados, segundo o pesquisador e gerente do departamento de pesquisa do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA), Geraldo Majella: “O produtor rural também pode retornar restos de adubo químico para o fabricante que os encaminha para reciclagem”, diz Majella.

Agricultura

Para os resíduos orgânicos da agricultura, uma alternativa muito interessante é o aproveitamento como compostagem na própria lavoura.

De acordo com o pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), Ronaldo Severiano Berton, na maioria das culturas, boa parte dos resíduos já fica no campo durante a colheita. “Outra parte pode ser destinada à compostagem e gerar um composto orgânico que serve como adubo”, diz.

Ele explica que a compostagem dos resíduos orgânicos tem várias funções benéficas como facilitar a disponibilidade de nutrientes às plantas, propiciando porosidade; controlar a erosão; diminuir a compactação e melhorar as propriedades químicas do solo.

Compostagem - Basicamente, trata-se de um processo de oxidação biológica através do qual os microrganismos decompõem os compostos constituintes de materiais orgânicos liberando dióxido de carbono e vapor de água. Ou seja, a compostagem é o tratamento de resíduos orgânicos, sejam de origem urbana, industrial, agrícola ou florestal. Nas propriedades rurais constitui-se como estratégia para transformar os resíduos agrícolas em adubos, uma mistura de materiais orgânicos geralmente dispostos em pilhas no campo. A técnica é praticada pelos chineses há mais de cinco mil anos.

A mistura deve conter materiais ricos em carbono e em nitrogênio. São ricos em carbono materiais lenhosos como a cascas de madeira, folhas, galhos e palhas. Esses materiais conferem à compostagem matéria orgânica e energia. Já folhas verdes, estrumes animais, urinas e ervas são materiais nitrogenados. Eles aumentam a rapidez do processo, pois o nitrogênio auxilia no crescimento dos microrganismos. Materiais que não devem ser utilizados: vidros, plásticos, tintas, óleos, metais e pedras. Eles retardam a compostagem e prejudicam a mistura. Quanto menores forem as partículas, melhor pois, assim, maior será a superfície de ação microbiana. Mas, as partículas também não devem ser muito pequenas, pois há risco de compactação e falta de oxigênio, impedindo sua decomposição. A mistura precisa ser mantida úmida porque os microrganismos necessitam de água para viver. Por outro lado, o excesso de umidade pode fazer que as partículas sejam aglutinadas, restringindo a difusão de oxigênio e baixando a temperatura, isto é, diminuindo a velocidade da degradação.

A compostagem é feita por meio de pilhas no solo dispostas em camadas de restos de vegetais, intercaladas com estercos, até a altura de cerca de 1,5 metro. Para afastar mau cheiro e moscas, o material deve ser revolvido. Grandes volumes de resíduos exigem mecanização para esse trabalho.

O processo ocorre em duas fases: na primeira ocorrem reações bioquímicas mais intensas, predominantemente termofílicas (que operam em temperaturas maiores que a do ambiente), e a segunda quando ocorre o processo de humificação (conversão em humo). Primeiramente ocorre a decomposição dos resíduos orgânicos mais degradáveis. Com a energia produzida pelos microrganismos, a temperatura sobe chegando à faixa de 60 a 65º C. Após, ocorre a maturação, em que a temperatura permanece entre 45 a 30ºC. Na segunda fase, ocorre a chamada humificação. A temperatura cai para a faixa de 25 a 30ºC. O material se torna fonte de nutrientes para o solo e para as plantas. Com o controle da temperatura, é possível saber em que fase a compostagem está e se a decomposição está ocorrendo normalmente ou se está faltando água, aeração etc.  O aspecto final do material é um composto de cor escura, solto e com cheiro de terra.

Fonte: Oliveira, E.C.A.; Sartori, R.H.; Garcez, T.B. Compostagem. Piracicaba: Esalq, 2008.

Pecuária

A agricultura conta com sistema de logística reversa e com a compostagem como alternativas para destinação de seus resíduos. Já a pecuária, que inclui também suínos e aves, gera embalagens e também restos como cadáveres e fezes de animais. Esses resíduos têm destinos diversos.

De acordo com o pesquisador da Embrapa Gado de Corte de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, Rodney Mauro, praticamente tudo pode ser aproveitado do gado bovino.

Os ossos que sobram do abate passam por um processo industrial de cozimento e servem como fonte de cálcio para ração e para a produção de fertilizantes. Já os cadáveres dos bois podem ser enterrados (as valas têm que ser revestidas com cal para não gerar chorume que pode contaminar o lençol freático, rios e lagos) ou utilizados para compostagem (colocados entre camadas de palhas e galhos, com a barriga furada para não acumular gases). A compostagem é o método indicado pela Embrapa porque gera material orgânico a ser aproveitado na propriedade, segundo o pesquisador da Embrapa. Alguns ossos mais resistentes podem sobrar, mas a mistura restante pode ser usada para novas compostagens, que duram cerca de 60 dias.

A pecuária também gera “coprodutos” (como é chamado o lixo que não é lixo, ou seja, o que será reaproveitado) como fezes. “Em propriedades de pecuária intensiva, em que se confina o gado, há uma grande quantidade de fezes devido à engorda com grandes volumes de alimento para o animal. Algumas fazem biogás desse coproduto, outras fermentam essas fezes para utilizar como adubo”, explica Mauro. De acordo com legislações específicas estaduais, em hortas não é recomendado adubo originado de cadáveres.

Muitas propriedades estão implantando o esquema lavoura-pecuária, isto é, implantando culturas como de milho, adubadas pelos resíduos da pecuária e que vão servir de alimento para os animais. “A ideia é diminuir cada vez mais o impacto ambiental, possibilitando a geração de recursos financeiros para as propriedades”, diz Mauro.

Suínos e aves

Segundo o analista do Núcleo Temático de Meio Ambiente da Embrapa Suínos e Aves de Concórdia, em Santa Catarina, Evandro Barros, os principais resíduos dessa produção são os dejetos dos animais. Apesar de serem ricos em nutrientes para as plantas, eles não podem ser liberados no ambiente sem tratamento específico para diminuição do seu potencial poluente. “No caso dos dejetos, após passarem por processos de fermentação, em locais apropriados, são usados como fertilizantes”, explica Barros.

Assim como acontece com o gado bovino, os cadáveres de aves e suínos podem servir para compostagem. Entretanto, algumas propriedades ainda incineram esses resíduos em aparelhos à base de óleo diesel, trazendo impactos danosos ao ambiente.

Fontes: