Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Crédito das imagens: Race for Water 2015 / Peter Charaf
Por Patrícia Mariuzzo
9/3/16

A fundação Race for Water (corrida pela água, em tradução livre) é uma instituição suíça sem fins lucrativos dedicada à preservação da água. Sua criação foi motivada pela ameaça que a poluição, especialmente, o plástico, representa para os recursos hídricos de todo o planeta. Assim, a Race for Water busca identificar, promover e ajudar a implementar soluções para reciclagem e a correta destinação dos plásticos após seu uso, evitando assim a poluição dos rios e mares. Dados da RFW apontam que anualmente são produzidas 250 milhões de toneladas de plástico e que ao menos 10% desse volume acaba no oceano. Todo esse lixo é transportado pelas correntes marítimas e acaba acumulado nos chamados vórtices ou giros de convergência de plásticos, conforme mostra o mapa abaixo. São verdadeiras ilhas de lixo no meio dos oceanos. Um dos projetos recentemente finalizados pela Fundação é o “Race for Water Odissey” (R4WO), expedição que fez o primeiro levantamento sobre o lixo nos oceanos. A conclusão inicial do estudo é alarmante: a poluição com plástico está em toda parte! Nesta entrevista para a revista Pré-Univesp, Elsa Mabillard, relações públicas da Fundação Race for Water, alerta sobre a gravidade do problema do lixo nos oceanos, adianta alguns resultados da pesquisa e fala sobre os próximos passos, após o encerramento da expedição.

A RFWO saiu da França, em março de 2015 e percorreu todas as cinco regiões que mais acumulam lixo no mundo. Ao longo de nove meses a equipe suíça fez paradas em 11 ilhas e cidades para fazer coletas de fragmentos plásticos e de água. Todo esse material vai ser utilizado para compor um levantamento amplo sob as condições dos oceanos do planeta. A previsão é de que os resultados sejam divulgados em setembro deste ano.

Pré-Univesp: Quais são os resultados preliminares da Race for Water Odissey?

Elsa Mabillard – Os resultados preliminares mostram que a poluição de plástico está em toda parte e que chegou até ilhas mais remotas do planeta. 89% dos detritos recolhidos durante a expedição são feitos de plástico. Na fase atual da pesquisa, que está sendo realizada Escola Politécnica Federal de Lausanne, estamos avaliando a origem e o tipo de plástico recolhidos, bem como os poluentes absorvidos pelos destroços, na Universidade de Friburgo, ambas na Suíça. A pesquisa sobre o impacto destes poluentes sobre larvas de peixes é atualmente liderada pela Universidade de Bordeaux, na França. Outra observação importante é que a poluição de plástico nos oceanos é muito difusa. Não existe o chamado continente de plástico, região no nordeste do Oceano Pacífico, perto do Havaí. Não é realista pensar em um projeto de limpeza de grande escala em uma localização específica no oceano. 

 Lixo no oceano, prejuízos para todos - Ao confundir resíduos plásticos com alimento, pelo menos um milhão de pássaros morre a cada ano sufocados ou por envenenamento. O mesmo acontece com peixes e tartarugas. Em um estudo realizado entre 2006 e 2007, um grupo de pesquisadores de instituições como a Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Fundação Centro Brasileiro de Proteção e Pesquisa das Tartarugas Marinhas (Fundação Pro-Tamar) encontrou resíduos antropogênicos, especialmente aqueles relacionados à atividade de pesca, em 60% das tartarugas marinhas no litoral norte da Bahia. Segundo os pesquisadores, os resíduos foram encontrados no trato gastrointestinal dos animais, o que pode levar a debilidade e até mesmo provocar sua morte. Outro problema grave são os micro resíduos, partículas de menos de cinco milímetros que contaminam toda a cadeia alimentar do oceano e, portanto, pode acabar em nossos estômagos.

Das regiões que a expedição percorreu, onde a poluição com plástico é maior ou mais grave?

A região mais poluída é o que normalmente é chamado de “The Great Pacific Garbage Patch” (A Grande Mancha de Lixo do Pacífico). O local mais poluído que a expedição visitou é Kamilo Beach, no Havaí, com uma densidade máxima de 3579 detritos macro (maiores que 2,5 cm) por 100m2 e de 9×180ml de microplásticos para 25 litros de areia (detritos menores que 2,5 cm). No entanto, como disse antes, a poluição de plástico está em todos os lugares, com uma densidade média de 67 detritos macro por 100m2 e uma densidade média de micro plásticos de 3×180ml para 25 litros de areia.

 

Equipe da Race for Water recolhendo micro detritos em uma das praias visitadas pela expedição.

Quais são os próximos passos?

Depois de ter avaliado a poluição por plástico e a qualidade da água em todo o mundo e de ter entendido que uma limpeza dos oceanos em grande escala não é realista, a fundação agora se concentra na implementação de soluções para resolver o problema em terra. É, portanto, desenvolveu uma abordagem para dar um valor a resíduos de plástico e, assim, impedir que eles cheguem aos rios e mares.

Em sua opinião, quais devem ser as medidas mais urgentes para interromper a poluição nos oceanos?

Em nossa opinião, é crucial agir em terra para impedir o fluxo de resíduos de plástico. Para que isso aconteça, estamos convencidos de que temos de dar um valor a resíduos de plástico. É também, obviamente, importante incentivar as pessoas a reduzir, reutilizar e reciclar, como fizemos durante nossa expedição, inclusive durante a nossa escala no Rio de Janeiro, por meio da exposição Mar sem Lixo, Mar da gente, organizada para divulgar as ações da R4WO, que aconteceu em novembro de 2015. É igualmente urgente conscientizar instituições, governos e empresas sobre o problema da poluição de plástico de água. Precisamos de leis e iniciativas privadas para resolver o problema na sua origem e reduzir a produção de plásticos de uso único e de embalagens inúteis.

A Fundação irá investir em um projeto de reciclagem de plástico. Você pode falar um pouco sobre esse projeto?

A Fundação desenvolveu um modelo para, de fato, agregar valor aos resíduos de plástico. A ideia é transformar resíduos plásticos em energia de modo que coletar os resíduos plásticos em vez de jogá-lo fora, seja economicamente interessante para as pessoas. No projeto que estamos desenvolvendo, qualquer tipo de resíduo de plástico pode ser transformado em energia eléctrica, graças a uma tecnologia limpa (hidrólise com temperatura ultraelevada). A abordagem do projeto é inspirada em um conceito de empreendedorismo social que visa criar valor econômico para o lixo, bem como gerar empregos para as populações mais afetadas pela poluição. A imagem abaixo traz um esquema da abordagem que queremos implementar.

 

Fontes:

MACEDO, Gustavo Rodamilans et al. Ingestão de resíduos antropogênicos por tartarugas marinhas no litoral norte do estado da Bahia, Brasil. Cienc. Rural, Santa Maria, v. 41, n. 11, p. 1938-1941, nov. 2011.

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Crédito das imagens: Race for Water 2015 / Peter Charaf