Logo Revista Pré-Univesp

Nº.61 UNIVERSO Dez.2016 | Jan.2017

.
Por Chris Bueno
9/11/16

O ritmo do crescimento econômico é acelerado, mas os recursos naturais são finitos. Todos os anos são extraídos cerca de 55 bilhões de toneladas de biomassa, energia fóssil, metal e minerais do planeta, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU). Além disso, são consumidos mais de 15 terawatts de energia e produzidos mais de dois bilhões de toneladas de lixo por ano. Se esse ritmo continuar, um só planeta Terra não será suficiente para prover todas as necessidades dos seres humanos. Assim, são vários os grupos e organizações que buscam alternativas para esse cenário, propondo uma nova ética socioambiental capitalista que reivindica o tripé: equilíbrio econômico, social e ambiental. Uma delas é a TerraCycle, empresa líder global em soluções ambientais para resíduos de difícil reciclabilidade, responsável por transformar, nos 21 países onde atua, mais de duas mil toneladas de lixo/mês em matéria-prima que gera novos produtos, como baldes, vasos, bancos, entre outros. Nessa entrevista, Mônica Pirrongeli, gerente de comunicações e desenvolvimento de negócios da Terra Cycle Brasil, fala sobre a atuação da empresa no país, desenvolvimento sustentável e o futuro do planeta.

Revista Pré-Univesp: Em relação ao crescimento econômico, é possível manter o ritmo ascendente de maneira sustentável?

Mônica Pirrongeli: No modelo atual em que vivemos, com um grande aumento da produção e do consumo exacerbado, é necessário repensar muitas de nossas ações, desenvolver metodologias e explorar novas tecnologias sustentáveis já existentes. É possível ter um crescimento econômico e sustentável, porém, muitas mudanças precisam ocorrer.

Revista Pré-Univesp: No atual cenário, é possível uma economia mais ética e até mesmo mais ecológica? E qual seria a participação da população em geral nisso?

Mônica Pirrongeli: É possível sim, nós já possuímos diversas demonstrações de que os consumidores têm interesse em atuar nesses processos e de como a participação da população é extremamente importante. Um ótimo exemplo de como a atitude de cada pessoa promove uma mudança na sociedade são os programas de reciclagem da TerraCycle. Ao participar gratuitamente de programas que viabilizam a reciclagem de materiais considerados não recicláveis, os consumidores têm a oportunidade de exercer seu protagonismo para colaborar com a preservação do planeta - por meio do engajamento e ativismo nas coletas - e também ajudar escolas ou pessoas em situação de vulnerabilidade social - por meio das doações geradas com as próprias coletas, fomentando a educação ambiental e o consumo consciente, ao proporcionar-lhes a oportunidade de atuar como verdadeiros agentes da mudança na relação consumo x meio ambiente.

Revista Pré-Univesp: Para começar, conte um pouco como é a atuação da TerraCycle no Brasil. Como são realizadas as parcerias com as empresas brasileiras?

Mônica Pirrongeli: Por meio de seus programas de reciclagem, a TerraCycle engaja globalmente mais de 60 milhões de consumidores, verdadeiros protagonistas dessa transformação socioambiental, que não só viabiliza o descarte ambientalmente correto de resíduos, como também promove doações a instituições sem fins lucrativos escolhidas pelos próprios participantes. De esponjas de limpeza doméstica a fraldas usadas, até hoje a TerraCycle não encontrou nada que não pudesse ser reciclado. No Brasil, mais de 30 milhões de itens pré e pós-consumo já foram reciclados e mais de 500 mil reais doados a escolas e entidades de caridade. Atualmente, temos empresas parceiras no Brasil como a Faber-Castell, Avon, Colgate-Palmolive, L’Occitane e 3M (Scotch-Brite), oferecendo soluções ambientais para os resíduos pós-consumo dessas marcas, seja a partir da reciclagem, do reuso ou da produção de produtos upcycle. A TerraCycle garante 100% de reaproveitamento dos resíduos coletados pelos programas, evitando que sejam destinados a aterros, lixões ou processos de incineração, reinserindo-os, portanto, na indústria para a produção de novos produtos. Além disso, fornecemos em nosso site uma plataforma inteligente para que essa logística aconteça, qualquer pessoa pode se cadastrar, enviar os resíduos coletados gratuitamente pelos Correios e ainda receber pontos por essa coleta, que são revertidos para qualquer instituição sem fins lucrativos.

Revista Pré-Univesp: E como essa parceria pode se expandir?

Mônica Pirrongeli: Para a expansão deste movimento precisamos eliminar a ideia de lixo. É fundamental que as empresas e os consumidores reconheçam sua responsabilidade pelo ciclo de vida dos produtos e somem esforços para a conscientização e o descarte ambientalmente adequado dos resíduos. E no momento em que tomarem consciência sobre isso, poderemos auxiliá-las a encontrar a solução mais adequada para eles. Como exemplo, podemos citar que a TerraCycle já possui a solução para a reciclagem de bitucas de cigarro e gomas de mascar, porém, como trabalhamos com um modelo de lixo patrocinado, necessitamos de uma empresa parceira, e no momento não possuímos nenhuma interessada em financiar uma solução para estes resíduos mais complexos.

Revista Pré-Univesp: Como essas empresas recebem o trabalho da TerraCycle? E como o trabalho da TerraCycle impacta no trabalho dessas empresas – e na sociedade?

Mônica Pirrongeli: O trabalho da TerraCycle impacta diretamente nas empresas parceiras nos setores de marketing, comunicação, sustentabilidade e vendas. Além de tornar os seus produtos recicláveis com soluções únicas, cresce a percepção positiva do público em relação à organização cresce e ajuda a conscientizar e a fomentar a educação ambiental entre os consumidores, impulsionando o valor da marca, a fidelização do consumidor o que, consequentemente, alavanca suas vendas. Ao participar gratuitamente de programas que viabilizam a reciclagem de materiais considerados não recicláveis, os consumidores têm a oportunidade de exercer seu protagonismo para colaborar com a preservação do planeta (por meio do engajamento com outras pessoas e ativismo nas coletas) e também ajudar escolas ou pessoas em situação de vulnerabilidade social (por meio das doações geradas com as coletas).

Revista Pré-Univesp: Como funcionam as brigadas da TerraCycle?

Mônica Pirrongeli: Os “Programas Nacionais de Reciclagem” da TerraCycle são abertos ao público e qualquer pessoa interessada em colaborar com o meio ambiente pode participar gratuitamente. Basta acessar o nosso site (www.terracycle.com.br), fazer o seu cadastro e começar a coletar os resíduos aceitos. Mesmo os programas sendo patrocinados por empresas específicas, aceitamos resíduos de todas as marcas. O envio desses materiais coletados é feito gratuitamente, bastando apenas gerar uma etiqueta pré-paga em nosso site e leva-los até uma agência dos Correios. Esses programas promovem a conscientização do público consumidor. A possibilidade de participação direta no processo de coleta é a oportunidade de fazê-lo rever sua relação com os resíduos que a sua comunidade produz. Essa experiência oferece um momento lúdico que ajuda a repensar as escolhas e ressignificar a ideia de lixo e a relação consumo x meio ambiente, norteando-se pelo valor da sustentabilidade. A TerraCycle tenta, por meio de promoções, diálogo e informações, aproximar os consumidores dos resíduos e transmitir a ideia de que o “lixo” não existe. Grande parte dos materiais que descartamos pode ser reaproveitada, em lugar de ser vista como rejeitos sem utilidade.

Revista Pré-Univesp: A TerraCycle trabalha também com projetos de educação?

Mônica Pirrongeli: Sim, os “Programas Nacionais de Reciclagem” atingem uma grande parte do público infanto-juvenil – aproximadamente 50% dos times de coleta da TerraCycle são escolas, o que enriquece o fomento à educação ambiental já na base da formação de crianças e adolescentes e, por consequência, reforça a importância de práticas de conscientização ecológica em adultos (professores, pedagogos, pais e demais colaboradores). Os programas podem ser uma opção didática e, ao mesmo tempo, divertida para as escolas inserirem o tema da sustentabilidade nas grades de ensino. A TerraCycle é também muito presente em escolas públicas de todo o Brasil e, por meio de seus programas, estimula o protagonismo juvenil, a preocupação ambiental e o consumo consciente dos alunos, revertendo os benefícios às próprias instituições.

Revista Pré-Univesp: Como as ações praticadas pelas empresas podem ser ampliadas/melhoradas? E qual o papel do governo nessa questão?

Mônica Pirrongeli: Hoje em dia existem muitas soluções ecologicamente corretas e muito acesso a esse tipo de informação. É extremamente importante comunicar os públicos sobre o impacto que uma ação sustentável pode ter, e a partir dela, como é possível obter resultados significativos, lembrando sempre de conferir o que é aplicável em cada tipo de empresa. O governo, como poder público que preza pelo bem-estar social, deveria ser um órgão regulador dessas práticas sustentáveis, criando mecanismos e ferramentas vantajosos que incentivem as empresas e organizações a aderir. Normalmente esses procedimentos sustentáveis costumam ter um valor mais alto de custo e, por isso, muitas organizações têm dificuldades em adotá-los. Então, seria interessante a criação de mais incentivos fiscais e financeiros para motivar as empresas, além da questão da sustentabilidade.