Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

.
Por Chris Bueno
9/11/16

Manter o crescimento econômico e, ao mesmo tempo, garantir a preservação do meio ambiente e o desenvolvimento social. Esse é o tripé que sustenta o ecocapitalismo, ou capitalismo verde, que busca incorporar princípios do ecologismo e da economia de mercado. Surgido na década de 1980, o ecocapitalismo ganhou notoriedade a partir de 1992 com a realização da ECO-92 (Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento), realizada no Rio de Janeiro, que contou com a participação de representantes de 179 países. Alvo de intensos debates, “o ecocapitalismo é alvo de críticas porque justamente favorece a manutenção do capitalismo, sem questioná-lo”. A socióloga Valquíria Padilha, professora doutora no Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP), de Ribeirão Preto (FEARP), e autora dos livros Tempo livre e capitalismo: um par imperfeito (Alínea, 2000) e Shopping center: a catedral das mercadorias (Boitempo, 2006), é uma das críticas a esse modelo, que acredita não oferecer soluções factíveis para o cenário atual. Nesta entrevista para a revista Pré-Univesp, ela comenta as limitações do sistema capitalista, a finitude dos recursos naturais, a insustentabilidade do crescimento econômico, o consumismo e as alternativas ao modelo atual.

Pré-Univesp: De seu ponto de vista, quais são as falhas na visão do ecocapitalismo?

Valquíria Padilha: As propostas de um capitalismo ecológico ou de um ecocapitalismo, a meu ver, possuem algumas limitações no sentido de que não oferecem soluções para as causas da destruição da natureza. O capitalismo é um sistema complexo que, bem resumidamente, implica em aumentar a produção e reduzir custos, para, assim, aumentar os ganhos dos capitalistas (os donos das grandes empresas produtivas e de serviços, dos latifúndios e dos bancos). Nesse processo, é preciso tirar da natureza o máximo de recursos possíveis para aumentar a produção. Para haver a circulação desses produtos, é preciso incentivar o consumo acelerado. A publicidade e a moda têm papel central aqui. O objetivo maior do capitalista é a acumulação do capital, ou seja, ele não pode deixar de reinvestir seu lucro para gerar novo capital. A maior pressão sofrida pelos capitalistas é a concorrência, por isso eles não podem apenas preservar o capital, mas devem expandi-lo sob pena de serem suplantados pelos concorrentes. O objetivo da acumulação é aumentar produtividade – o que quase nunca ocorre de maneira harmoniosa ou simples. Eventualmente será interrompida por crises e recessão. Os não capitalistas tentam manter sua “riqueza” contendo os gastos, enquanto que os capitalistas colocam constantemente sua riqueza em circulação, reinvestindo-a. O capitalismo não pode existir sem buscar o crescimento e a acumulação em escala cada vez maior, isso é o que chamamos de “reprodução do capital”. Portanto, na economia capitalista o crescimento infinito é um imperativo. Entretanto, o processo de expansão é destrutivo, pois acarreta esgotamento de recursos naturais, no começo da cadeia produtiva, e geração de resíduos em escala crescente, no fim da cadeia produtiva.

Pré-Univesp: Então temos uma lógica de crescimento infinito baseado em recursos naturais finitos…

Valquíria Padilha: Sim. Por isso a natureza está sendo degradada pelo sistema capitalista de produção. As propostas do ecocapitalismo não chegam nem perto de questionar essa lógica, elas não colocam em dúvida o modelo, apostando na viabilidade de crescimento econômico junto com um desenvolvimento sustentável, algo impossível na lógica de acumulação de capital. Assim, o ecocapitalismo é um discurso desonesto, em minha opinião, que nos confunde e que não sai do que chamamos de “capitalismo verde”. De um jeito bem simples, o capitalismo verde propõe enxugar gelo. É como se víssemos a torneira aberta em um banheiro que está alagado e aí a gente propõe retirar essa água com baldes, mas ninguém fala em fechar a torneira, que continua aberta e alagando o banheiro. Quem tem coragem de propor uma revisão total do sistema capitalista a fim de salvar, de fato, os recursos naturais?

Pré-Univesp: Então, seguindo essa lógica, não é possível manter o crescimento econômico e ainda ser sustentável?

Valquíria Padilha: Em minha opinião, não é possível. Marx já disse que, no capitalismo, é a ação direta do homem sobre a natureza que se converte em fonte direta de uma maior acumulação para o capital. O que é crescimento econômico senão o aumento de acumulação de capital? Quem realmente se beneficia do crescimento? Como é possível defender um crescimento infinito num planeta finito? Queremos aumentar o PIB (Produto Interno Bruto) indefinidamente? Qual seria a taxa ótima do PIB de um país para que disséssemos “agora não precisamos crescer mais”? A ganância do capital é infinita – e essa é uma de suas utopias. Gostaria de citar uma passagem do geógrafo britânico, David Harvey, que diz: “A história do capitalismo não se baseia em taxas de crescimento? Sim. As crises capitalistas não são definidas como falta de crescimento? Sim. Os criadores de políticas em todo o mundo capitalista não são obcecados pelo estímulo e pela manutenção do crescimento? Sim. Você já viu alguém questionar o princípio do crescimento, para não dizer tomar alguma providência a esse respeito? Não. Questionar o crescimento é irresponsável e impensável”1.

Pré-Univesp: Falar de meio ambiente hoje virou um “modismo”, um conceito que abrange desde pesquisas sérias até mesmo oportunismo. E muitas empresas se aproveitam desse “modismo” para vender produtos ou para se promover. Como reconhecer iniciativas sérias contexto?

Valquíria Padilha: O capitalismo verde (ou ecocapitalismo ou economia verde) é aparentemente interessante e se reveste de um discurso sedutor, porque todos nós temos medo de ver o planeta se extinguir nos levando junto. Mas, não é um discurso honesto. Há cada vez mais empresas que fazem campanhas em defesa da preservação do meio ambiente, de causas ecológicas, mas que continuam estimulando a venda/compra de seus produtos, porque precisam obter lucros e acumular capital. É incompatível defender o crescimento econômico e a sustentabilidade ambiental ao mesmo tempo. Defender o consumo de carro movido a etanol é a solução, enquanto milhões de veículos novos são lançados no mercado a cada ano? Como defender a não poluição do ar num mundo que é movido a automóvel? Vamos defender o transporte público e frear a produção de automóveis de uso individual? Defender a reciclagem dos resíduos é a solução ou vamos defender a redução de produção de mercadorias (supérfluas) que viram lixo depois de poucos dias de uso? A pecuária e a agroindústria são as maiores responsáveis pelo desmatamento no Brasil, sem contar com os agrotóxicos que poluem rios e lençóis freáticos e que causam doenças. O ecocapitalismo e os defensores do desenvolvimento sustentável propõem o que para isso? Vamos discutir, de verdade, os malefícios do agronegócio? O que percebemos é o aumento do greenwashing, ou seja, empresas que, em seu processo produtivo, poluem o meio ambiente, esgotam recursos naturais, mas nas embalagens e na publicidade posam de “amigas da natureza”. É greenwashing quando uma organização gasta mais tempo e dinheiro em marketing verde do que efetivamente implementando práticas de negócios que, ao menos, minimizem os impactos ambientais. Devemos suspeitar de empresas de óleo, gás ou biotecnologia e das que usam muito as palavras “sustentabilidade”, “eco”, “100% natural” em suas embalagens.

Pré-Univesp: No atual cenário, é possível uma economia mais ética? E qual seria a participação da população nisso?

Valquíria Padilha: Eu não acredito no capitalismo ético, nem tampouco num capitalismo verde ético. Como eu já afirmei, o desenvolvimento sustentável é uma falsa ilusão, é um discurso que opera como um calmante ao não questionar a lógica da acumulação capitalista e o modelo de sociedade industrial que são as causas fundamentais de destruição ambiental. Só poderíamos falar de uma economia ética fora dos moldes da economia de mercado. Há milhares de pessoas e movimentos sociais que se dedicam a estudar, pensar e lutar pela sustentabilidade, mas que, por inúmeras razões, não saem da superfície e ficam presos nas “soluções” mais fáceis. Há também os que se dedicam à estudos mais radicais – no sentido de irem à raiz dos problemas – e que denunciam o capitalismo pintado de verde, propondo pensar modelos de “decrescimento econômico”, de “ecossocialismo” e do “bem-viver”. Eu digo que esses três modelos devem ser pensados em conjunto para começarmos a sair dessa zona de conforto que é propor saídas dentro do capitalismo – ainda que sejam válidas (apesar de insuficientes) as propostas de humanização do capitalismo. Esses movimentos já existem, aqui e ali, no mundo todo, mas crescem devagar. As pessoas têm raras ou nenhuma oportunidade de conhecer essas propostas, porque a mídia, no geral, não as mostra e as escolas não as ensinam.

Pré-Univesp: Para realmente alterar o cenário atual, não seria necessária também uma mudança de comportamento? Por exemplo, como ficaria a questão do consumismo?

Valquíria Padilha: Outra forma de participação da população numa possível transformação da sociedade, além do que já afirmei nas questões anteriores, seria uma profunda reflexão sobre a sociedade de consumo e nosso papel nela. Superar o sistema produtivista capitalista significa também extinguir esse modelo de consumo e consumismo no qual estamos imersos acriticamente. Vejam esses dados:

  • A produção de uma tonelada de papel exige a utilização de 98 toneladas de vários outros materiais (metais, meios de transporte, água, petróleo etc.).  
  • Cerca de 71% do papel utilizado no mundo vêm de madeira de florestas e não de recicláveis ou de fazendas de reflorestamento.
  • 80% das florestas originais do mundo desapareceram, e 20 mil hectares de florestas desaparecem por dia no mundo (o que equivale a 33 campos de futebol por minuto).
  • Os elementos químicos tóxicos industriais e agrícolas estão sendo encontrados em todos os corpos analisados em diversas pesquisas, inclusive em recém-nascidos, em qualquer lugar do planeta.
  • Na cidade de São Paulo, havia em 1920, 5,6 mil carros. Em 2012, essa quantidade passou para7 milhões. 
  • O consumo de antidepressivos aumentou 400% em 20 anos nos Estados Unidos, sendo que um em cada 10 estadunidenses começa a tomá-los aos 12 anos de idade.
  • No Brasil (em 2012), houve 70% de aumento na venda de drogas para DDA (Distúrbio de Atenção, como ritalina, por exemplo), para crianças e jovens (em relação a 2009).
  • Hoje, um estadunidense vê mais anúncios publicitários em um ano do que uma pessoa via a vida toda há 50 anos.
  • 90% dos bens consumidos nos Estados Unidos vão ao lixo em até seis meses de uso.
  • Das 100 maiores economias do mundo, 51 são corporações.

Essa lista de dados é infinita. A ideologia que está por trás da sociedade de consumo é a de que temos necessidade de abundância para sermos felizes. Você já se perguntou o que é suficiente ter para ser feliz? A sociedade de consumo – que tem nas estratégias publicitárias sua espinha dorsal – nos coloca diante de um falso dilema, que é o da suficiência versus a abundância. Precisamos repensar nossas necessidades, que são criadas artificialmente para sustentarmos – tanto como consumidores quanto como trabalhadores – o processo de acumulação de capital, conforme já expliquei acima. Mas, fica muito difícil mudar nossos hábitos de consumo diante de uma empresa milionária de publicidade que nos convence, dia após dia, que precisamos incessantemente comprar, usar, descartar, comprar, trocar, descartar. Ademais, não caberia apenas a nós, na condição de consumidores, a árdua tarefa de salvar o planeta. Esse é outro discurso falacioso no capitalismo verde, o de que nós, consumidores, temos que ser eco-responsáveis. Precisamos sim, repensar nossa relação com o consumo e com o lixo que produzimos todos os dias, mas essas reflexões não podem nos tirar o foco da causa de tudo isso. Lembra-se da metáfora da torneira aberta? Não podemos achar que apenas carregando água com baldes iremos secar o banheiro. Da mesma forma, não seremos nós, meros consumidores, que salvaremos o planeta. O assunto é complexo e temos muitas perguntas sem respostas, ou com meias respostas. O importante é buscarmos discussões e soluções coletivas no sentido de fechar a torneira, interromper o processo destrutivo pelas causas, na essência mais do que na aparência.

Pré-Univesp: Quais caminhos poderíamos trilhar para alcançar um modelo de sociedade mais sustentável? Existe alguma alternativa factível?

Valquíria Padilha: Como já afirmei, não acredito em capitalismo sustentável, apesar de acreditar que é necessário, num processo de transição (que, vale ressaltar, pode durar décadas), haver uma forte participação dos movimentos sociais, de intelectuais engajados com o anticapitalismo e do Estado não neoliberal (ainda que nos limites de um modelo de Estado de Bem-Estar Social) na construção de projetos políticos concretos. Não é suficiente uma melhor distribuição de bens. Não se trata de fazer as mesmas coisas com mais eficiência ou de corrigir o sistema. Não se busca ideias e consensos para disfarçar o sistema dominante. O mundo precisa de mudanças profundas e radicais, tais como as propostas pelo “decrescimento econômico”, o “ecossocialismo” e o “bem-viver”. Precisamos aprender a redefinir nossas necessidades de forma a incluirmos sempre o outro nas minhas necessidades (coletivismo), a delimitar os limites do suficiente, iguais para todos e é preciso identificar e definir o caráter comum de cada um dos bens disponíveis para evitar a privatização dos bens. Utopia? Talvez. Por que não? A utopia é necessária diante de uma realidade tão insuportável. Eu não temo a utopia, pelo contrário, me alimento dela e, assim como ouvi de Frei Betto certa vez, quero morrer semente de um mundo melhor.

 

Para saber mais, Valquíria Padilha recomenda:

Sobre decrescimento econômico: Serge Latouche. Pequeno tratado do decrescimento sereno. Martins Fontes, 2009.

Sobre ecossocialismo: Michael Löwy. O que é ecossocialismo. Cortez, 2014.

Sobre o bem viver, recomendo a leitura de Alberto Acosta. O bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. Autonomia Literária/Elefante Editora, 2016.





1  HARVEY, D., Para entender o capital, SP: Boitempo, 2013, p.249.