Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Renato Francisco Rodrigues Marques
10/7/14

Pode-se perceber, nas últimas décadas, um significativo processo de mudança nas formas de interação entre as pessoas com deficiência (PCD) e a sociedade brasileira. Tais modificações passam pela processual e inacabada transformação da visão sobre as PCD, com o progressivo abandono de um paradigma médico (no qual a PCD é tratada como um paciente, incapaz de exercer uma vida plena com autonomia) para um social (a PCD é tida como um sujeito com potencialidades, as quais podem e devem ser valorizadas no sentido de proporcionar uma participação plena e autônoma na sociedade).

A perspectiva social de deficiência possibilita algumas reflexões sobre o modo como as PCD estão inseridas nos diferentes espaços sociais. Uma das possibilidades se traduz no exercício de inclusão social. Este conceito diferencia-se da integração social, forma predominante de interação da sociedade com as PCD durante a maior parte da segunda metade do século XX. Baseado no paradigma médico de deficiência, a integração social é um movimento que busca inserir as PCD na sociedade sem a devida transformação desse ambiente. A ideia é que todas as PCD tenham oportunidades e livre acesso às mesmas normas sociais, educacionais e de lazer oferecidas à população como um todo. A integração conta com a boa vontade do coletivo social em acostumar-se com os limites da PCD, sem que haja modificações nas formas de socialização, o que demandaria uma significativa capacidade de adaptação da PCD às normas e exigências da coletividade de que faz parte. Tal processo acaba, por muitas vezes, expondo limitações das PCD e, assim, reforçando o paradigma médico de deficiência.

Esporte e inclusão

No final do século XX e início do XXI, entra em cena o conceito de inclusão, baseado no modelo social de deficiência e em princípios de aceitação e valorização de diferenças, e potencialidades dos cidadãos, sendo PCD ou não. No movimento de inclusão, a sociedade se adapta em diferentes frentes (educação, mobilidade, trabalho, lazer, esporte, entre outras) para proporcionar à PCD a oportunidade de se desenvolver como ser que age, produz, questiona, se diverte e ama.

Neste artigo, o esporte é objeto de maior atenção como forma de promoção de inclusão social para PCD. Na sociedade contemporânea globalizada, o esporte se coloca como um fenômeno sociocultural de compreensão e inserção universal, vinculado a importantes setores como educação, comércio, lazer, comunicação, política, entre outros. Neste campo, uma forma de manifestação esportiva vem crescendo em importância e abrangência, o esporte adaptado para PCD e, de forma mais destacável, o esporte paralímpico.

O esporte adaptado para PCD consiste em formas de manifestação esportivas pautadas em transformações de regras, estrutura ou materiais, de modo a possibilitar maiores e/ou melhores oportunidades de participação a este público. Assim como outras modalidades esportivas convencionais, o esporte adaptado para PCD pode abarcar desde o sentido de alto rendimento e busca pela vitória em competições, assim como o sentido ressignificado, ligado à busca pelo prazer, autoconhecimento e reabilitação.

Dentro do espectro do esporte adaptado para PCD, pode-se apontar desde práticas motivadas em modalidades do esporte convencional, como por exemplo o basquetebol em cadeira de rodas (uma adaptação do basquetebol), bem como modalidades criadas de acordo com algumas condições específicas para PCD, como o goalball, para pessoas com deficiência visual.

Neste campo esportivo, o esporte paralímpico tem recebido grande destaque, a partir do final do século XX. Esta forma de manifestação esportiva abarca modalidades adaptadas, que fazem parte do programa dos Jogos Paralímpicos de verão ou inverno e que respeitam certas regras de elegibilidade. Ou seja, são normas estabelecidas para classificar sujeitos que podem ou não participar destas disputas e agrupar atletas com características físicas, visuais ou intelectuais semelhantes.

Os jogos paralímpicos

O esporte paralímpico nasceu de iniciativas oriundas da Inglaterra e Estados Unidos na década de 1940, em que foram organizadas práticas e competições voltadas à participação de veteranos da II Guerra Mundial com lesões medulares. O esporte foi utilizado como parte do processo de reabilitação destes sujeitos.

Em 1948, no Hospital de Stoke Mandeville, Inglaterra, o médico Ludwig Guttmann organizou o I Jogos de Stoke Mandeville, destinados a este público já mencionado. Com a internacionalização deste evento a partir de 1952, e o crescimento de sua abrangência, em 1960 foram organizados os primeiros Jogos Paralímpicos, em Roma, Itália, mesma sede dos Jogos Olímpicos daquele ano. O intuito de Guttmann era justamente promover uma espécie de Jogos Olímpicos para PCD.

Durante o século XX e início do XXI, os Jogos Paralímpicos passaram por constantes modificações, tanto em seu nome, quanto regras, entidades reguladoras, locais, datas e, principalmente, em relação à sua abrangência e sentido. Os últimos Jogos Paralímpicos de verão, em 2012, em Londres, Inglaterra, contaram com cerca de 4.250 participantes. Como comparação, 16 esportistas participaram dos Jogos de Stoke Mandeville. Em 1960, foram 400 atletas. Porém, a principal modificação diz respeito ao sentido empregado ao evento.

A partir do início do século XXI, os Jogos Paralímpicos são o principal evento esportivo para PCD, concentrando a elite esportiva entre pessoas com deficiência. Boa parte das pessoas que participam são atletas profissionais. Os Jogos são realizados sempre nos mesmos locais e cerca de duas semanas após os Jogos Olímpicos. Somente as pessoas com deficiência auditiva não participam do movimento paralímpico.

A importância de competir

A criação de nichos esportivos adaptados às capacidades e desejos das PCD representa uma forma de movimento de inclusão social, no sentido de adaptar práticas convencionais e tradicionais (o esporte como sempre foi praticado) às possibilidades destas pessoas, de modo a oportunizar vivências e intervenções na sociedade que destaquem suas potencialidades e não suas limitações. Porém, a criação do esporte adaptado e, mais especificamente o paralímpico, não garante que PCD sempre vivenciem processos de inclusão social. Dois pontos se fazem fundamentais para compreender esta possível lacuna.

O primeiro diz respeito ao sentido empregado na prática esportiva. O esporte, por si só, não é inclusivo. Depende da forma como ele é apresentado aos praticantes e conduzido por eles. Quando o objetivo central da disputa é apenas elencar campeões, com regulamentos e exigências de rendimento obrigatório sem adequações às capacidades dos participantes, ele pode ser excludente. Existem chances maiores de engajamento e desenvolvimento das potencialidades dos praticantes quando a intenção é a promoção do prazer e do aprendizado em vivências ressignificadas, com regras de disputa modificadas para privilegiar a participação, e não apenas o resultado.

O segundo aspecto reside na forma como a sociedade ainda considera e valoriza os esportistas com deficiência. Alguns estudos apontam certa insatisfação de atletas paralímpicos em relação ao discurso supercrip. Esta forma de abordar as PCD destaca a necessidade e capacidade de superação, por parte destas pessoas, sobre as dificuldades oriundas da deficiência. Este discurso é muito comum na mídia esportiva, quando destaca não o desempenho atlético do sujeito, mas sim o fato dele ser um herói, por ser PCD, e ainda assim conseguir feitos esportivos. Tal discurso considera as PCD como pessoas diferentes, distanciando-as das demais, simbolizando uma forma de discriminação agressiva.

A inclusão social efetiva de PCD supõe a valorização dos atletas com deficiência simplesmente como ATLETAS, destacando seus feitos esportivos, como acontece com esportistas não deficientes.

A verdadeira inclusão social através do esporte passa pela adequação de práticas e sentidos de modo a oportunizar vivências produtivas às pessoas, independentemente de serem altas, baixas, gordas, magras, brancas, negras, videntes ou não, ouvintes ou não, com duas, uma ou nenhuma perna, com maior ou menor aptidão esportiva. Principalmente, a inclusão social através do esporte se dá pela mudança para o paradigma social sobre deficiência, ou seja, a percepção, por parte da sociedade, de que um atleta merece ser valorizado como tal, independentemente de competir nos Jogos Paralímpicos ou Olímpicos, assim como empresários, engenheiros, médicos, professores devem ser valorizados por suas potencialidades e pela contribuição que oferecem à sociedade, sendo ou não PCD.