Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Matheus Vigliar
Por Daniela Klébis
8/10/14

Migrar em busca das condições ambientais mais favoráveis à existência é comum aos animais. Os tubarões, por exemplo, quando sentem que uma tempestade se aproxima, nadam para regiões mais profundas do mar, longe das rochas e dos bancos de areia. Já os pássaros, voam para lugares mais altos e frescos, quando a temperatura se eleva; ou para regiões mais baixas, quando as chuvas se intensificam. Entretanto, conforme apontam estudos recentes, como o 5º Relatório do IPCC, por consequência das ações humanas, as mudanças climáticas vêm acontecendo a uma velocidade e intensidade maiores que a capacidade de muitos animais de migrarem ou se adaptarem. O biólogo Hans-Otto Pörtner, do Instituto Alfred Wegener de Pesquisa Marinha e Polar (AWI), em Bremerhaven, Alemanha, coautor do capítulo sobre ecossistema do Relatório, alerta que o aquecimento global e os eventos extremos, cada mais frequentes, podem ter efeitos devastadores sobre os seres vivos. “Podemos esperar muitas perdas na fauna terrestre por conta disso”, alerta.

De fato, nos últimos 40 anos, ao mesmo tempo em que assistimos a população humana dobrar, o número de animais vertebrados caiu pela metade no planeta, de acordo com o Living Planet Report (Relatório Planeta Vivo), publicado no dia 30 de setembro pela WWF (World Wildlife Fund, em inglês), em parceria com a Sociedade Zoológica de Londres. Será que nós estamos exigindo demais do nosso planeta? Segundo o relatório, a resposta é sim.

Ação humana e recursos naturais

O estudo indica que a degradação que provocamos nos habitats dos animais para constituirmos nossos espaços, a exploração exagerada da caça e da pesca, e as mudanças climáticas foram os fatores que mais contribuíram para varrer da Terra 52% da sua fauna. “As pressões humanas, regionais e locais, como mudanças no uso da terra, expansão e intensificação da agricultura, combinadas com as mudanças climáticas em velocidade sem precedente na história da evolução terrestre, estão empurrando a biosfera para a sua sexta extinção em massa”, observa Pörtner.

Não é a primeira vez que as mudanças climáticas são relacionadas ao desaparecimento de espécies no planeta. Estudos de 1999 já apontavam modificações no clima com o desaparecimento de anfíbios na Austrália e, mais recentemente, também na região neotropical, inclusive na Mata Atlântica brasileira.

Neste último estudo, publicado na revista Biodiversity and Conservation em fevereiro deste ano, os pesquisadores concluíram que cerca de 10% das 431 espécies de anfíbios que habitam na Mata Atlântica podem ser extintas e 88% delas sofrerão reduções consideráveis na sua população até 2050. Isso porque, de acordo com as projeções, as condições climáticas refletirão em alterações nos ambientes naturais ao longo dos próximos 30 anos e, considerando as capacidades de dispersão desses animais, além da forma e posição geográfica das reservas, é pouco provável que eles tenham como e para onde escapar.

Previsão do tempo

Se por um lado algumas espécies de animais têm dificuldade de adaptação, em longo prazo, às mudanças climáticas, alguns deles possuem a capacidade de prever mudanças no clima em tempo de tomar medidas de proteção.De acordo com uma pesquisa concluída em 2013, na Universidade de Western Ontário, no Canadá, o pardal-de-garganta-branca percebe ascensão e queda de pressão barométrica, podendo, com isso, prever mudanças no clima. Por meio dessa habilidade, essas aves alteram seus comportamentos migratórios a partir de suas percepções sobre a proximidade, ou não, de tempestades.

Os esquilos também têm ajudado os cientistas a compreender como os animais respondem às mudanças ambientais. Em um estudo de 2012, desenvolvido por pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Berkeley, Estados Unidos, observou-se que uma espécie de esquilo, o Urocitellus beldingi, muito comum no oeste do país, desapareceu em 42% das regiões onde costumavam ser encontrados no início do século XX. Segundo a autora principal da pesquisa, Toni Lyn Morelli, a dispersão é uma resposta ao aquecimento ambiental, uma vez que, nessas regiões, a temperatura invernal subiu ao longo do século, ao passo que as chuvas tornaram-se mais frequentes. Curiosamente, esses esquilos, que costumam hibernar no inverno, começaram a buscar refúgio em áreas que foram modificadas pela ação humana, como parques ecológicos da região. 

Sensores antifuracão

Possuir habilidades sensoriais afinadas também ajudou os tubarões a sobreviver e a se adaptar em diversos habitats e nichos, ao longo de sua história evolucionária. A bióloga marinha Lauren Smith, do Macduff Marine Aquarium, no Reino Unido, pesquisa as habilidades dos tubarões de sentir as mudanças na pressão atmosférica. Seus estudos apontaram que esses peixes respondem às mudanças do clima, especialmente da pressão atmosférica, causadas por tempestades, como furacões. “Eu observei que pequenas células capilares do ouvido interno dos tubarões se curvavam quando expostas às mudanças na pressão do ambiente; a dobra das células capilares transmitiam, então, impulsos ao cérebro que, aparentemente, desencadeava mudanças no comportamento do animal”, conta a pesquisadora.

Essa investigação corrobora as observações de outro estudo, publicado em 2001, pelo Laboratório Mote Marine, que demonstravam que, quando um furacão se aproximava, os tubarões da espécie galha-preta pareciam tentar escapar de onde estavam e, quando a tempestade passava, eles retornavam para os viveiros. As tempestades podem ser perigosas para os tubarões menores em águas rasas. “Os ventos provocam ondas e correntezas muito fortes, que podem jogar os peixes contra as pedras ou levá-los para a praia”, expõe Smith.

A habilidade de sentir a pressão atmosférica ajuda não apenas os tubarões jovens em viveiros de águas rasas, mas também os que vivem em águas profundas. Porém, mais pesquisas são necessárias para determinar se esses peixes conseguem se adequar a um certo grau de pressão, se são capazes de aprender qual é o limite de um lugar seguro para eles e, também, compreender melhor as consequências desses deslocamentos para novos nichos. “Se considerarmos uma perspectiva mais geral, por conta dessa capacidade de respostas a padrões climáticos extremos, resultantes das mudanças climáticas, o deslocamento de tubarões de seus habitats naturais pode afetar ecossistemas inteiros no futuro”, alerta a pesquisadora.

Quando migram, os animais ainda encontram novos obstáculos, além de novos inimigos. Em alguns casos, novas espécies se formam com novas características funcionais. Em outros, eles não conseguem encontrar novos lares. Os animais, organismos e plantas que são maiores e mais altos são especialmente vulneráveis, uma vez que eles necessitam de mais espaço que os pequenos, salienta o pesquisador alemão. “Os animais maiores acabam sendo os que competem mais intensamente com os humanos pelo espaço”, finaliza Pörtner.