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Nº.61 UNIVERSO Dez.2016 | Jan.2017

Matheus Vigliar
Por Chris Bueno
9/9/15

Um negro caminha pela noite e é parado por policiais. Um menino declara sua opção sexual e passa a ser alvo de bullying na escola. Uma mulher não é aceita em um emprego considerado tipicamente masculino. Uma criança é excluída das brincadeiras por seus colegas por ter Síndrome de Down. Todas essas situações são exemplos de preconceito. E todas elas se repetem diariamente em nossa sociedade, nos mais variados contextos. Preconceito significa conceito ou opinião formados antes de ter os conhecimentos adequados, ou opinião ou sentimento desfavorável concebidos antecipadamente ou independente de experiência ou razão. A própria palavra já traz esse conceito em sua formação: pré + conceito, ou seja, conceito formado previamente. Assim, quando se julga uma pessoa antes mesmo de conhecê-la, isso já é uma forma de preconceito.

O preconceito é um problema social muito grave. Existem casos extremos de violência, como ocorreu com os judeus durante a Segunda Guerra Mundial e com os negros durante o apartheid. No entanto, boa parte das atitudes preconceituosas se manifesta de forma silenciosa e disfarçada. Juízos acerca de certos grupos de pessoas (como os homossexuais, por exemplo) já existem a tanto tempo que muitas vezes são considerados naturais. E, por estarem tão arraigadas na sociedade, é frequente que as pessoas não consigam reconhecer atitudes preconceituosas em si mesmas e nos outros.

Raízes do preconceito

Muitos pesquisadores se dedicaram a estudar as raízes do preconceito. Um dos primeiros foi o filósofo Gordon Allport, que discutiu o assunto em sua obra A natureza do preconceito, de 1954. Allport define o preconceito como sendo uma atitude negativa em relação a uma pessoa, baseada na crença de que ela tem as características negativas atribuídas a um determinado grupo. Segundo o filósofo, o preconceito é o resultado de uma frustação: pessoas que se sentem exploradas e oprimidas acabam deslocando sua hostilidade para outros em posição mais “baixa” na escala social. O resultado é o preconceito e a discriminação. “O preconceito é uma atitude evitativa ou hostil contra uma pessoa simplesmente porque ela pertence a determinado grupo. Fica presumido que ela tem as qualidades atribuídas ao grupo”, afirma Allport.

Já o filósofo italiano Norberto Bobbio assume uma posição diferente. Para ele o preconceito é uma opinião acolhida passivamente pela tradição, pelo costume ou por uma autoridade, tendo destaque a noção de não pertencer ao âmbito da razão, de escapar ao raciocínio e se impor com força de uma certeza. Para Bobbio, a atitude sentimento preconceituosa nasce geralmente de uma generalização superficial, um estereótipo do tipo: “todos os baianos são preguiçosos”, “todos os paulistas são arrogantes”, “todas as mulheres são frágeis” ou “todos os ciganos são ladrões”. O filósofo ainda explica que esses estereótipos fazem parte do domínio da crença, não do conhecimento, ou seja, eles têm uma base irracional e por isso escapam a qualquer questionamento fundamentado num argumento ou raciocínio. "Apenas posso dizer que os preconceitos nascem na cabeça dos homens. Por isso, é preciso combatê-los na cabeça dos homens, isto é, com o desenvolvimento das consciências e, portanto, com a educação, mediante a luta incessante contra toda forma de sectarismo. Para se libertarem dos preconceitos, os homens precisam antes de tudo viver numa sociedade livre”, afirma o filósofo em seu livro Elogio da Serenidade (Ed. da Unesp, 2011).

Para Theodor W. Adorno a fonte do preconceito é uma personalidade autoritária ou intolerante. Para o filósofo e sociólogo alemão, pessoas autoritárias tendem a ser rigorosamente convencionais e hostis com quem desafia as regras sociais. Desta forma, o preconceito seria uma manifestação de desconfiança e suspeita, podendo conduzir a atos extremos de exclusão e violência. Na obra Educação e Emancipação (Paz e Terra, 1995), Adorno afirma: “É preciso reconhecer os mecanismos que tornam as pessoas capazes de cometer tais atos, é preciso revelar tais mecanismos a eles próprios, procurando impedir que se tornem novamente capazes de tais atos, na medida em que se desperta uma consciência geral acerca desses mecanismos”.

Uma atitudes preconceituosa pode ser ainda o resultado de um medo do diferente. É isso que defende a escritora e linguista brasileira Lya Luft. Segundo a escritora, o que não conhecemos pode ser visto como algo que ameaça ou assusta. E esse medo pode levar as pessoas a cometerem atos de agressão, exclusão, desprezo etc. “O diferente parece ameaçador: queremos preservar nossa individualidade, tememos que o outro nos prejudique. O que eu não entendo, o que não é igual a mim, seja na cor, no formato dos olhos, na cultura, nas origens, na profissão e nos afetos, desperta minha hostilidade irracional”, explica Luft em seu ensaio Múltipla Escola (Record, 2010).

Graves consequências

O preconceito, muitas vezes visto como natural ou inerente ao ser humano, pode ter consequências gravíssimas. “Quem quer que conheça um pouco de história, sabe que sempre existiram preconceitos nefastos e que, mesmo quando alguns deles chegam a ser superados, outros tantos surgem quase que imediatamente”, aponta Bobbio.

No caso dos negros, há vários exemplos extremos: a escravidão nas Américas nos séculos 16 e 17; as organizações racistas norte-americanas, como a Ku Klux Klan (KKK), que queriam impedir a integração dos negros recém-libertos da escravidão, muitas vezes cometendo atos violentos e assassinatos, e o apartheid na África do Sul, que separava brancos e negros no sistema de transporte, nas escolas, lojas e no sistema saúde. O Holocausto também é consequência de uma política governamental baseada no preconceito racial. Ele significou o assassinato em massa de cerca de seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial.

Outros números alarmantes são aqueles relacionados a crimes contra mulheres e homossexuais. A ONU estima que, anualmente, mais de cinco mil mulheres sejam mortas por crimes de honra (assassinato de mulheres a mando da própria família por alguma suspeita de transgressão para não manchar o nome da família). Quase 17 mil mulheres foram mortas vítimas de agressões, entre 2009 e 2011, por conflitos de gênero (ou seja, apenas por serem do sexo feminino), segundo o estudo “Violência contra a mulher: feminicídios no Brasil”, publicado em 2013, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Quanto aos homossexuais, a atualização de 2015 do relatório da ONG internacional Transgender Europe traz um total de 1.731 casos de mortes relatados de pessoas homossexuais e transgêneros, entre janeiro de 2008 e dezembro de 2014 no mundo todo. Há que se salientar que o homossexualismo ainda é considerado crime em mais de 70 países.

“O preconceito, doença que turva nosso olhar e entorta nossa alma, que nos diminui e emburrece, é uma das enfermidades mais sérias deste nosso mundo”, afirma Luft.