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Nº.61 UNIVERSO Dez.2016 | Jan.2017

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André Mendes Capraro
1/6/16

Quando se trata da Civilização Helênica, história e mito em vários momentos se fundem, ganhando certa unidade. Entretanto, na era moderna, as Olimpíadas apresentam contradições em comparação com os antigos Jogos Gregos. Os sociólogos Norbert Elias (1897-1990) e Eric Dunning, professor da Universidade de Leicester, na Inglaterra, refutam a ideia disseminada por muitos historiadores, que consideram o esporte como uma continuidade ou um “renascimento” de competições atléticas que teriam existido na Antiguidade. Eles afirmam que os jogos competitivos da Grécia clássica, normalmente identificados como o grande paradigma do esporte, apresentavam certas características próprias e se desenvolveram em condições muito distintas das que derivam os esportes atuais. Outro ponto de vista nesse mesmo sentido foi feito pela pesquisadora da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP), Katia Rubio, ao relatar que, diferentemente da cultura helênica, na qual o período dos Jogos representava um momento de trégua nas guerras e conflitos, as Olimpíadas Modernas já sofreram interrupções por duas grandes guerras e boicotes promovidos por Estados Unidos e União Soviética na década de 1980, indicando que o movimento olímpico não é tão apolítico como se proclama .Ao referir-se aos Jogos Olímpicos, o especialista em Grécia Antiga, Henri W. Pleket, lembra que as competições antigas aconteciam sempre no mesmo lugar: o santuário de Olímpia. Além disso, os principais símbolos das Olimpíadas modernas não têm nenhum tipo de ligação com os Jogos da Antiguidade. Este artigo apoia-se principalmente na formulação teórica dos historiadores ingleses Eric Hobsbawm e Terence Ranger, mais especificamente, no livro A Invenção das Tradições (1997). Nessa obra está descrito, em suma, que se inventam novas tradições quando ocorrem transformações que sejam ao mesmo tempo amplas e abrangentes nas sociedades modernas. O termo “tradição inventada” é utilizado num sentido amplo, porém definido e que inclui tanto as tradições realmente inventadas quanto aquelas que surgiram de maneira mais difícil de localizar e em um período limitado e determinado de tempo. Muitas vezes práticas de poucos anos se estabelecem com grande rapidez. Assim, Hobsbawm e Ranger consideram uma tradição inventada por:

Um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácitas ou abertamente aceitas. Tais práticas de natureza ritual ou simbólica visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade em relação ao passado, aliás, sempre que possível, tenta-se estabelecer uma continuidade com um passado histórico apropriado.

Em face desta afirmação levanta-se a seguinte questão: as Olimpíadas modernas podem ser compreendidas como uma tradição inventada?

Entre o antigo e o moderno

Os Jogos Olímpicos antigos eram festivais sagrados, nos quais os atletas competiam para servir aos deuses. Idealizadas pelo pedagogo e historiador francês, Pierre de Coubertin, seguidor da teoria darwinista, as Olimpíadas modernas nasceram sem vínculo religioso. Apesar disso, a maioria das publicações que tratam sobre o assunto repete a mesma história, normalmente preocupando-se em relatar o surgimento dos Jogos Antigos e seu ressurgimento em 1896, como Olimpíadas modernas. Por sinal, ao referir-se aos Jogos Olímpicos antigos, histórias diversas surgem para tentar explicar sua verdadeira origem. Na maioria das vezes, tais narrativas se preocupam apenas em citar que as Olimpíadas Modernas aparecem como uma continuação dos antigos Jogos Gregos.

Na verdade, não existem registros exatos sobre a origem dos Jogos Olímpicos antigos, mas sim, diferentes hipóteses sobre sua criação. Reforçando tal ideia, o pesquisador J.M.Neto acentua que a origem dos jogos antigos se perde no tempo e que não existe nenhum tipo de certeza em relação à data de início dos jogos e a razão para sua criação.

O professor de história do esporte Allen Guttmann (1938-2011) estabelece algumas características típicas do esporte moderno: secularidade, igualdade, especialização, racionalização, burocracia, quantificação e busca pela quebra de recordes. Tais características não são encontradas nos “esportes primitivos”.

Para o filósofo sérvio Ljubodrag Simonović, Coubertin usou o termo Jogos Olímpicos, não porque foi inspirado pela herança espiritual antiga, mas porque o tema apresentava um “caráter solênico”, onde viu uma denotação peculiar para as competições esportivas internacionais e planejava organizá-las e institucionalizá-las e continua: “Coubertin não tentou renovar os antigos Jogos Olímpicos para desenvolver o esporte, mas sim colaborar com o desenvolvimento da força nacional da França e sua expansão colonial”, afirma Simonovic. Tendo em vista as colocações e as diferenças apresentadas em relação aos Jogos Olímpicos antigos quando comparados aos Modernos, Hobsbawm e Ranger argumentam:

Na medida em que há referência a um passado histórico as tradições inventadas caracterizam por estabelecer com ele uma continuidade bastante artificial. Em outras palavras, elas são reações a situações novas, que assumem a forma de referência a situações anteriores ou estabelecem seu próprio passado através da repetição, quase que obrigatória.

Costume e tradição

Segundo o professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Marcelo Proni, desde que foram concebidas em 1896, as Olimpíadas modernas, cresceram e ganharam símbolos e rituais próprios, tornando-se um evento singular no calendário esportivo mundial. Entretanto, é importante destacar que esses símbolos nada tinham a ver com os antigos Jogos gregos. Tais símbolos são considerados parte significativa de uma tradição, logo, são passíveis de mudanças. Para Hobsbawm e Ranger, as tradições devem ser, neste sentido, nitidamente diferenciadas dos “costumes” vigentes nas sociedades ditas “tradicionais”. Os objetivos e as características das tradições, inclusive das inventadas, é a invariabilidade. O passado real ou forjado a que se referem impõem práticas fixas, tais como a repetição. A característica de repetição foi utilizada por Coubertin ao tentar acentuar no final do século XIX que as Olimpíadas modernas se tratavam do mesmo evento que aconteceu na antiguidade grega. Além disso, as tradições podem evoluir ao longo do tempo ou se transformar de modo repentino. Dessa maneira, as tradições são inventadas e reinventadas o tempo todo – diferentemente dos costumes, que passam de geração a geração.

Os referidos símbolos apresentam-se aqui como tradições inventadas acerca dos jogos, como os anéis, a bandeira, o lema, a chama e o hino. Os cinco anéis representam os cincos continentes, embora não haja uma especificação de cada anel para um determinado continente. Eles são entrelaçados para mostrar a universalidade do olimpismo e do encontro de atletas do mundo todo durante as Olimpíadas. Também foi Coubertin que projetou a bandeira olímpica e a apresentou em junho de 1914, em Paris, onde, os anéis apareciam num fundo branco. A bandeira reforça a universalidade do movimento olímpico, como se trouxesse consigo todos os países do mundo. 

A tocha olímpica foi apresentada pela primeira vez em 1936, nos Jogos de Berlim. Muito embora seja afirmado que sua gênese foi na Grécia antiga, ela não fazia parte dos Jogos Antigos. Outra tradição seria a antiga frase “O importante não é vencer, mas sim participar”, creditada, na maioria das vezes, ao próprio Pierre de Coubertin, mas sendo proferida pela primeira vez em 1908 pelo bispo da Pensilvânia durante um sermão aos atletas que disputariam as Olimpíadas de Londres.

Assim como os símbolos citados acima não faziam parte desse passado, ora remoto, ora recente, também apareceram outros no decorrer da história, que serão apontados aqui como as novas tradições inventadas. Destacam-se: o percurso mundial da tocha olímpica, os mascotes, a escolha das cidades-sedes e os cartazes oficiais. Sobre o percurso da tocha olímpica, no entendimento dos pesquisadores Luis Henrique Rolim e Janice Zarpellon, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e ainda de Nelson Todt, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), “a corrida de revezamento da tocha olímpica é uma tradição inventada, que foi constituída com base em ideias nacionalistas para a abertura da Olimpíada de Berlim em 1936”. Foi somente nas Olimpíadas de Atenas (2004) que a tocha olímpica efetivamente percorreu todos os continentes, passando inclusive pelo Brasil. Ainda no âmbito das tradições inventadas, surgem novas alegorias que tentam cativar o público. Outro exemplo são os mascotes, parte do conjunto de merchandising das Olimpíadas. O primeiro mascote oficial surgiu em 1972, em decorrência do sucesso de Schuss (mascote não oficial da Olimpíada de Inverno de Genebra em 1968), o escolhido pelos anfitriões alemães foi o cãozinho da raça basset, chamado de Waldi. 

Devido à resposta favorável do público, a partir de então todas as Olimpíadas têm adotado seus mascotes oficiais: Amik, em Montreal, o urso Misha, em Moscou, a águia Sam, em Los Angeles, o tigre Hodori, em Seul, o cãozinho Cobi, em Barcelona, o Izzy, em Atlanta, Ollie, Syd e Millie, em Sidney, Phevos e Athena,em Atenas e em Pequim. Beibei, Jingjing, Huanhuan, Yingying e Nini. Fonte L. Silvino. “As mascotes olímpicas”. 

Mascotes dos próximos Jogos Olímpicos: Vinícius e Tom, que representam respectivamente a fauna e a flora brasileiras.

Outro fato que gera expectativas é a escolha das cidades-sedes. As cidades que se candidatam passam por uma rigorosa seleção. Uma delas é escolhida e apresentada ao público pelo COI. Se no final do século XIX, apenas Atenas se apresentava disposta a sediar as Olimpíadas, no decorrer do século XX, as disputas entre as cidades candidatas a sediar as Olimpíadas tornaram-se cada vez mais acirradas. Para o processo de seleção entre as cidades são avaliados critérios como: as instalações poliesportivas existentes e sua adaptação; criação de um novo projeto olímpico; repasse das instalações para a população; apoio da população civil; estrutura de turismo e de lazer; sistema de transporte; facilidade de telecomunicações; segurança; deslocamentos; alinhamento do projeto urbano com o projeto olímpico; entre outros.

Ainda existem outras tradições recentes que nasceram a partir do desenvolvimento das Olimpíadas Modernas, como as vilas olímpicas, que surgiram em Berlim em 1936; as medalhas, instituídas em 1904 nos Jogos de Saint Louis; o Museu Olímpico, inaugurado em 1993 pelo então presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Juan Antônio Samaranch, na Suíça; e os selos comemorativos, em 1896.

Selos confecionados em homenagem às Olimpíadas do Rio de Janeiro. Reprodução/Comitê Rio2016.

Inventando tradições

Todos os símbolos associados às Olimpíadas Modernas fazem parte de um conjunto de tradições inventadas e estas tendem a persistir. Assim, é possível afirmar que houve uma espécie de equilíbrio entre modernidade e tradição, considerando que as sociedades ditas “tradicionais” mantêm elementos como a família, a religião, a língua e o trabalho. Nesse sentido, essa ascensão retrata uma proposital exaltação da Antiguidade numa alusão de continuidade acerca dos antigos jogos. Por outro lado, o seu declínio favoreceu o esquecimento dos rituais sagrados, substituídos por rituais pomposos e espetacularizados, como os observados nas Olimpíadas modernas.

Em síntese, a partir de autores como Eric Hobsbawm, Norbert Elias, Eric Dunning e Allen Guttmann, é possível afirmar categoricamente que os jogos gregos tinham características bem específicas: eram manifestações populares e religiosas para homenagear os deuses, realizados sempre no mesmo lugar, no santuário de Olímpia, tendo como objetivo principal vencer para agradar às divindades. Em contrapartida, ainda de acordo com os referidos autores, as Olimpíadas modernas contemplam apenas o esporte: práticas competitivas com regras pré-estabelecidas, sem nenhum vínculo religioso, apresentando como uma de suas principais características o rendimento. Sem contar outra diferença fundamental: o nível de violência que nos esportes modernos é sensivelmente mais tênue do que nos jogos gregos. Portanto, partindo da compreensão do esporte como um fenômeno moderno, ressalta-se que esse “ressurgimento dos Jogos Olímpicos e seus novos elementos”, tratados por alguns autores como continuidade, podem ser compreendidos aqui como uma tradição inventada.

 

Este texto é uma versão adaptada do artigo “Olimpíadas Modernas: a história de uma tradição inventada”, publicado originalmente na revista Pensar a prática, v. 12, nº 1, 2009. A reprodução foi autorizada pelos autores. Adaptação Patrícia Mariuzzo. A versão original pode ser acessada clicando aqui.

sobre o autor

André Mendes Capraro

Doutor em História pela Universidade Federal do Paraná, professor adjunto e coordenador do Centro de Memória do Departamento de Educação Física na mesma instituição. 

Mariza Antunes de Lima, graduada em Educação Física pela Universidade Positivo, pesquisadora júnior do Núcleo de Pesquisa Futebol & Sociedade e professora da rede pública de ensino. 

Clóvis J. Martins, graduado em Educação Física pela Universidade Positivo e pesquisador júnior do Núcleo de PesquisaFutebol & Sociedade.