Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Matheus Vigliar
Valquíria Padilha
16/3/16

Desde a segunda metade do século XX que passamos a conhecer expressões como “sociedade de consumo”, “sociedade consumista” ou “sociedade de hiperconsumo” para fazer referência a uma fase do capitalismo que passou a enfatizar cada vez mais a atividade de consumo na vida cotidiana das pessoas que vivem em centros urbanos. Consumir foi se tornando uma atividade de lazer, acompanhada de sensações de prazer, mais do que meramente o ato de comprar algo de que se tem necessidade imediata. Desde então, nossas sociedades capitalistas industrializadas são marcadas pelo fenômeno do consumismo, do consumo de supérfluos, do consumo guiado pela moda e pela mídia e, cada vez mais, do consumismo infantil. Com isso, vem o excesso de produção de lixo, o desperdício, a elevada rotatividade de produtos, a efemeridade das mercadorias. O imperativo do novo chegou de forma intensa na sociedade de consumo.

Crédito: Shutterstock Fotos

Este fenômeno social contemporâneo configura-se num universo bastante rico para a análise crítica que se preocupa com os efeitos nefastos trazidos pelo excesso do consumo, dentre os quais podemos destacar a “obsolescência programada”, a qual, em última instância, reflete o incentivo planejado para o rápido descarte dos produtos comprados, para que o ciclo produção-consumo-produção seja acelerado ao seu máximo. Hoje, um telefone celular vai ao lixo depois de menos de oito meses de uso. Uma CPU de computador ou um monitor, que nos anos 1990 duravam até sete anos, hoje dura dois anos ou menos. Telefones celulares, computadores, aparelhos de televisão, CD players, games, câmeras fotográficas e outros eletrônicos caem em desuso e são descartados com uma velocidade assustadora. A obsolescência dos produtos gera mais consumo, mas gera concomitantemente mais lixo, o que se torna um problema social, ambiental e econômico.

A publicidade aliada à estratégia da obsolescência programada e às formas de crédito ao consumidor são, atualmente, as principais estratégias da sociedade de consumo que acabam por manter os consumidores na condição de fantoches do consumismo.

Da Revolução Industrial aos dias de hoje, podemos nos questionar: produzimos o suficiente apenas para o que precisamos para suprir as nossas necessidades ou produzimos muito além? Tudo o que consumimos é realmente necessário para nossa sobrevivência? Como aprendemos a necessitar de coisas novas o tempo todo? A abundância de bens e de serviços, típica da sociedade de consumo, tem a finalidade de nos fazer mais felizes e satisfeitos? Muitos estudiosos do campo da sociologia entendem que essa sociedade de abundância e do descarte rápido traz sérios problemas sociais, psíquicos e ambientais. Nesse sentido, a crítica ao consumismo passou a ser vista como uma contribuição para a construção do que poderíamos chamar de uma sociedade sustentável.

No capitalismo, as empresas precisam produzir muito e vender rápido para alimentar um ciclo de produção e consumo que chamamos de “ciclo de acumulação do capital”, ou seja, ciclo de enriquecimento dos empresários. Nesse sentido, eles usam das estratégias da publicidade, do crédito e da obsolescência programada visando atingir seus objetivos de acumulação e riqueza. Nesse artigo, vamos analisar a obsolescência programada. Você sabe o que é e como funciona esse fenômeno?

Para mover esta sociedade de consumo precisamos estar consumindo o tempo todo e cada vez mais desejar novos produtos ou então substituir produtos que já temos, seja por falha do produto ou por acharmos que surgiu outro exemplar mais desenvolvido tecnologicamente ou simplesmente porque saiu de moda. Obsolescência é o estado de algo que se tornou ultrapassado ou perdeu a utilidade. Em economia, é caracterizada pela diminuição da vida útil de determinado bem devido à evolução tecnológica; deriva de obsoleto, que quer dizer antigo ou caduco. A obsolescência é algo que pode ocorrer ao objeto naturalmente devido ao desgaste do dia a dia, ou seja, tudo que se desgasta se torna obsoleto. Mas, e se pudéssemos dizer quando um produto vai falhar ou mesmo se tornar velho, programando seu fim antes mesmo da ação da natureza e do tempo de uso? Nesse caso, temos uma obsolescência programada que se refere ao ato de estabelecer uma data de morte a um produto, seja através de mau funcionamento ou por se tornar velho perante as tecnologias mais recentes existentes no momento. Você já percebeu que quando você compra um par de tênis, em pouco tempo ele já rasgou ou a sola já se soltou? E que, muitas vezes, o seu tênis ainda está bom, mas você já viu na televisão o comercial de um novo modelo e você passa a desejá-lo?

O conceito da obsolescência programada surgiu por volta de 1920, quando fabricantes começaram a reduzir a vida de seus produtos para aumentar as vendas e seus lucros. A primeira vítima da obsolescência programada foi a lâmpada elétrica, com a criação do primeiro cartel mundial para controlar a produção de lâmpadas que duravam muito e deveriam durar menos. Este cartel intitulava-se Phoebus. Os membros do Phoebus perceberam que lâmpadas que duravam muito não eram vantajosas. Vale a pena assistir ao documentário espanhol “Obsolescência programada. Nos anos 1950, a obsolescência programada ressurgiu com o enfoque de criar um consumidor insatisfeito com o produto que tinha desfrutado, fazendo assim com que ele desejasse algo mais novo. Ainda nos anos do pós-guerra assentaram-se as bases do consumo atual, através do estilo de vida americano (o chamado American way of life) que era baseado na liberdade e felicidade pela abundância de um consumo ilimitado.

A ideia da obsolescência programada surgiu – e se mantém até hoje – para incentivar as pessoas a comprarem mais e descartarem mais. Para isso, as fábricas precisam fazer com que o tempo de vida útil dos produtos dure cada vez menos. Pergunte a uma pessoa com mais de 60 anos de idade quanto tempo durava uma geladeira, um automóvel ou um simples rádio, por exemplo. E hoje, quanto tempo dura uma televisão, uma máquina de lavar roupa ou um celular? Em dois anos de uso, a maioria dos produtos eletroeletrônicos já começa a falhar porque foram programados para isso.  Uma impressora sai da fábrica com um chip que determina quanto tempo ela vai viver.

Foto:reprodução/Pixabay

Podemos considerar três tipos de obsolescência: obsolescência de função, obsolescência de qualidade e obsolescência de desejabilidade: a) na obsolescência de função, um produto existente torna-se antiquado quando é introduzido um produto que executa melhor a função; b) Na obsolescência de qualidade, um produto é feito para quebrar ou gastar em determinado tempo, geralmente não muito longo e, c) na obsolescência de desejabilidade, um produto que ainda está sólido, em termos de qualidade ou desempenho, torna-se ‘gasto’ em nossa mente porque um aprimoramento de estilo ou outra modificação faz com que fique menos desejável. A obsolescência de qualidade é quando a empresa vende um produto com probabilidade de vida bem mais curta sabendo que poderia estar oferecendo ao consumidor um produto com vida útil mais longa. A obsolescência da desejabilidade, ou “obsolescência psicológica”, adota mecanismos para mudar o estilo dos produtos como uma maneira de manipular os consumidores para irem repetidamente às compras. Trata-se, na verdade, de gastar o produto na mente das pessoas. Nesse sentido, os consumidores são levados a associarem o novo com o melhor e o velho com o pior – mesmo que o produto ainda esteja funcionando bem. Aqui a publicidade tem um papel central ao nos convencer do que está na moda e do que é cool – porque uma pessoa famosa usa você também deve usar.

Para aumentar a acumulação de riquezas privadas, o capital devasta, destrói e esgota a natureza. Dito de outra forma: o aumento da riqueza do capital é proporcional ao aumento da destruição da natureza. Na sociedade da obsolescência induzida, tudo acaba em lixo. Quanto mais rápida e passageira for a vida dos produtos que consumimos, maior será o descarte dos mesmos. A publicidade é o motor que faz toda essa dinâmica funcionar. Para além da discussão sobre os efeitos psicossociais do consumismo, ressalto como esse modelo de sociedade baseada nas estratégias da obsolescência programada está sendo determinante no esgotamento dos recursos naturais (que ocorre na etapa da produção) e pelo excesso de resíduos (que ocorre na etapa do consumo e do descarte). Todo o nosso sistema produtivo-consumista, potencializado pelas estratégias de obsolescência, produz uma destruição assustadora dos recursos naturais ao mesmo tempo em que aumenta consideravelmente a geração de lixo. Você já pensou quanto lixo você gera por dia? Para onde vai todo esse lixo?1 A voracidade com que o modelo vem destruindo o planeta é incompreensível quando pensamos na velocidade com que as coisas são consumidas, usadas e descartadas. Qual é sentido disso?

Crédito: Shutterstock Fotos.

As gerações futuras não nos perdoarão! Produção de tecnologias verdes ou programas de reciclagem não resolvem essa gama de problemas graves que estão cada vez mais sendo alarmados nos quatro cantos do mundo. É urgente pensar no modelo de produção e de crescimento econômico que se sustenta sobre os pilares da obsolescência programada. Rever os princípios que norteiam nossa sociedade de consumo e o modelo atual de crescimento econômico é necessário, você não acha?

Referências

  • LEONARD, A., A história das coisas. Da natureza ao lixo, o que acontece com tudo que consumimos, Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
  • MAGERA, M. Os caminhos do lixo, Campinas (SP): Editora Átomo,2012.
  • MÉSZÁROS, I. Produção destrutiva e o estado capitalista. São Paulo: Ensaio, 1969.
  • Obsolescência programada. Comprar, tirar, comprar. Direção: Cosima Dannoritzer. Produção: Joan Úbeda. Barcelona, Spain: Media 3.14, 2010. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=3pb7HOfp8PU
  • PACKARD, V. Estratégia do desperdício. São Paulo: IBRASA, 1965.
  • PADILHA, V. Shopping Center: a catedral das mercadorias. São Paulo: Boitempo, 2006.
  • PADILHA, V; BONIFÁCIO, R.C., Obsolescência planejada: armadilha silenciosa na sociedade de consumo. Le Monde Diplomatique Brasil, Ano 7, nº 74, set. 2013.
  • PORTILHO, F. Sustentabilidade Ambiental, Consumo e Cidadania. São Paulo: Cortez, 2005.
  • SLADE, G. Made to break: Technology and Obsolescence in America. Harvard University Press, 2006.





1 No Brasil, cada um dos 200 milhões de habitantes produz, em média, 1 quilo de lixo por dia. Como a natureza vai absorver tudo isso?