Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Ângela Maria Rubel Fanini
21/10/15

Este artigo procura verificar a representação literária das várias formas de trabalho (material, imaterial, escravo, assalariado) que ocorrem em O Cortiço e de como essa tipologia orienta o destino das personagens, dependendo de gênero, etnia e classe social. O foco no trabalho enquanto representação estética se justifica uma vez que Aluísio Azevedo é um dos primeiros escritores a ficcionalizar as personagens secundárias e principais na labuta cotidiana, demonstrando que o universo laboral está presente no cenário literário. O destaque para o universo do trabalho se explica em virtude de que o campo literário, devido às novas configurações sociais na sociedade brasileira (Abolição da Escravatura, vinda dos imigrantes europeus e advento de uma classe média incipiente), passa a privilegiar a representação das classes labutadoras e mais humildes.

Poupar, enriquecer e acumular

A trajetória da personagem João Romão “reflete e refrata” a vida do português pobre que emigra de Portugal para a colônia em busca de ascensão econômica. A personagem passa de auxiliar de vendas em uma quitanda a visconde, por intermédio de poupança árdua, trabalho brutal, expropriação do trabalho dos mineiros que labutam em sua pedreira, dos inquilinos do cortiço de sua propriedade e do trabalho escravo.

A passagem de classe social é descrita a partir de uma mudança de comportamento lenta, radical e penosa. João Romão, já detentor de poder econômico, vê a necessidade de adquirir a cultura e os valores das classes abastadas. Deseja e consegue o título de visconde que lhe confere status simbólico e cultural, agregado ao poder material conquistado no trabalho e na expropriação do outro e dos bens de outrem. Essa articulação do valor econômico ao simbólico lembra a transição das classes burguesas em outras nações no século XIX, a quem só o poder econômico não satisfazia, almejando o poder político-social.

Percebe-se a articulação entre o trabalho material e a ascensão econômica, pois sua riqueza vem tanto da labuta cotidiana quanto da exploração do outro. O sentido dessa labuta é único, ou seja, poupar, enriquecer e acumular.

Não há espaço e tempo para o ócio e o prazer. Entretanto, ao concretizar esse fim, vê-se embrutecido pelo processo cego de enriquecer a qualquer custo. Deseja alterar a sua condição e dar outro sentido a sua existência. Na almejada alteração de classe social, ocorre uma desarticulação entre trabalho e sentido da existência, pois o trabalho material que exercia é derrogatório no novo horizonte de classe. Ao final da narrativa, a personagem já não exerce nenhuma atividade laboral material, apenas gerenciando o trabalho dos outros, transformando-se em um grande investidor financeiro. O trabalho material tanto de exploração ferrenha de si quanto dos outros fornece a base para a sua riqueza, mas já não pode ser exercido por ele à medida que ocupa outra função social, obrigando-se a novos comportamentos em que a civilidade, a sofisticação, a polidez o impedem de se imiscuir no degradante universo material a que estava vinculado.

O trabalho como algo indigno

Em relação ao trabalho escravo, tem-se a sua representação na personagem Bertoleza que, mesmo na condição de escrava, apresenta comportamento não totalmente submisso, mas muitas vezes insurrecto à medida que é escrava fugida, vive na condição de trabalhadora assalariada e, ao final, ao saber que será devolvida ao cativeiro, suicida-se como forma de libertação. Bertoleza representa o escravo parcialmente autodeterminado, com certo poder de negociação, desviando-se parcialmente da imagem do escravo objeto, alienado e passivo ao cativeiro.

Assumimos que Bertoleza é formalizada tanto como sujeito quanto objeto no mundo do trabalho. Na condição de escrava fugida, trabalha na cidade para um quituteiro, percebendo salário, já denotando uma condição de autodeterminação. Ao conhecer João Romão, abandona o vendeiro e passa a trabalhar para ele e é também sua concubina. O companheiro toma-lhe as economias e forja uma carta de alforria, ludibriando-a. Ilusoriamente vive uma existência livre. Todo trabalho tem um único fim, ou seja, acumular e enriquecer, vivendo em condições frugais extremas.

Ao final da narrativa, João Romão casa-se com moça da alta sociedade. Para atingir esse fim, tenta devolver Bertoleza ao seu verdadeiro proprietário. À medida que João Romão migra de classe, precisa se “civilizar”, adquirindo outros valores e cultura. Urge se desvencilhar de seu passado escravista, escamoteando o acúmulo selvagem e desumano de capital. Bertoleza deve ser aniquilada, pois representa essa trajetória. O trabalho submetido à árdua poupança e fonte de privação deve ser suprimido da memória, pois se vincula à atividade escrava e não nobre, visão típica da sociedade brasileira oitocentista cuja economia escravista percebe o trabalho material como derrogatório.

Trabalho e ócio

O universo do trabalho versus o ócio é representado na figura de Rita Baiana que pode simbolizar, a partir das lentes deterministas de caráter mesológico e de mestiçagem, a inviabilidade do trabalho racional, metódico e sistemático à medida que se associa ao universo tropical que constitui, em parte, segundo Aluísio Azevedo, a identidade nacional. Essa visão determinista resulta da utilização de ideias eurocêntricas para ler a realidade nacional. A partir desse conjunto de ideias se vincula a inferioridade do brasileiro ao fenômeno da mestiçagem. Na obra em tela, a personagem Rita Baiana é apresentada por intermédio de certa perspectiva eurocêntrica que a faz voltar-se, sobretudo para o ócio. O maior objetivo do trabalho cotidiano da personagem é antes financiar as festas que promove no espaço do cortiço do que sobreviver materialmente e acumular. O ócio sobrevém o trabalho. Aluísio, reafirmando a inferioridade da mestiçagem, traz à luz a queda da personagem Jerônimo, que embora se vincule ao trabalho burguês, ao se amasiar com Rita Baiana, desnorteia-se, tornando-se ocioso.

A centralidade do trabalho na obra é evidente à medida que inúmeras personagens são figuradas na faina diária, sem, contudo, perderem sua individualidade. O escritor desenvolve uma narrativa para cada uma, dotada de dramas próprios. As personagens lavadeiras são em grande número e algumas recebem tratamento ficcional que simultaneamente as representa como uma totalidade, constituídas por certa visão de classe uma vez que exercem atividades muito semelhantes. Entretanto, dota-as de destinos e competências diferentes além do trabalho. O trabalho, talvez por não ser fabril e por seu caráter artesanal, é exercido de forma parcialmente determinada. Parece não objetificar as lavadeiras que o exercem com alegria, tendo orgulho pelo produto final. O método que utilizam para lavar as roupas para as classes abastadas é o mesmo empregado para lavar as suas próprias vestimentas. Talvez aí resida a não alienação no trabalho e esse é representado de modo prazeroso. Outro ponto que reforça o sentido humano desse trabalho é a sua parcial autodeterminação uma vez que as lavadeiras alugam água, tina e demais produtos, gerenciando parte do processo e não estão condicionadas à inspeção de fora. Há certa autonomia do processo, podendo ser subjetivado.

Considerações finais

O universo do trabalho apresenta-se formalizado no romance O Cortiço, sendo focalizado em suas múltiplas facetas: trabalho escravo como base de sustentação da aristocracia urbana e já em decadência à medida que novos paradigmas adentram a sociedade oitocentista; trabalho assalariado como forma de sobrevivência material, mas em condições precárias visto que representativo de uma fase de extrema expropriação do trabalhador livre; trabalho como forma de ascensão social associado à expropriação do outro; trabalho contraposto ao ócio, representando as diferenças deterministas mesológicas e raciais; tendo-se a realidade tropical e da mestiçagem como avessa ao trabalho metódico, sistemático, ordenado e parcialmente autodeterminado. Finalmente tem-se a representação de uma gama de trabalhadores livres e profissionais liberais que vivem do trabalho, apontando para a ascensão de classes médias, modificando a estratificação social oitocentista. O universo do não trabalho também é representado na figura do agregado que aponta para uma sociedade escravista e agroexportadora onde há escassez de postos de trabalho, fazendo com que muitos tenham que depender do favor das classes abastadas para subsistirem.

Este texto é uma adaptação do artigo publicado originalmente na Revista de Letras, v. 12, nº 13, 2010, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Curitiba. A obra está licenciada com uma Licença Creative Commons. 

Na ilustração, cena o filme brasileiro “O Cortiço”, de 1978, dirigido por Francisco Ramalho Jr., com roteiro baseado no livro de Aluísio Azevedo.