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Nº.61 UNIVERSO Dez.2016 | Jan.2017

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Por Juliana Passos
8/6/16

Livre docente em gestão do esporte, professor visitante na University of East London (Inglaterra) e membro do Conselho Consultivo da Russian International Olympic University e pesquisador da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Lamartine da Costa é um dos maiores especialistas em esporte e em megaeventos no Brasil. Ele coordenou o projeto que resultou no “Atlas do esporte no Brasil”, um grande levantamento sobre a identidade do esporte e da educação física no país. O professor é bastante crítico à forma como está sendo conduzida a organização dos Jogos Olímpicos no Brasil. Para ele, a Olimpíada que será realizada no Rio de Janeiro em agosto é o último estágio do exagero em jogos olímpicos. Nesta entrevista para a revista Pré-Univesp, ele comenta as mudanças nos ideais olímpicos desde sua idealização, no fim do século XVIII, até o presente, o custo das obras e o futuro dos Jogos Olímpicos.

Pré-Univesp: O que é educação olímpica?

Lamartine da Costa: Bom, a educação olímpica é um nome genérico para estudos e situações diversas relacionadas aos jogos olímpicos. Como é uma concepção transversal, ela passa por várias disciplinas e suscita várias interpretações. É algo semelhante ao que acontece com estudos culturais[i]. É essa razão de sermos um grupo pequeno de estudiosos, a maioria vinculada à uma área, alguns à história, outros à gestão, economia, filosofia, à medicina esportiva e mais recentemente à tecnologia. Como não existe uma academia olímpica, ou a que existe não está ativada, as próprias universidades estão assumindo iniciativas. No mundo inteiro há mais atividades na área da educação olímpica nas universidades do que nas academias olímpicas. Aparentemente a evolução que o próprio COI tem feito é junto às universidades porque a estrutura na qual a academia se apoia não é própria para a pesquisa.

Pré-Univesp: Pierre de Coubertin foi o fundador do Comitê Olímpico Internacional (COI) e o primeiro a falar em educação olímpica em 1922. O que mudou neste conceito de lá para cá?

Lamartine da Costa: O criador dos jogos olímpicos era um educador. O sentido que ele deu aos jogos olímpicos foi educacional desde a origem e foi assim enquanto ele viveu. Nós, progressivamente, fomos alterando esse aspecto devido a influências políticas, dos negócios. Hoje vivemos uma situação completamente diferente. O movimento esportivo mundial foi se profissionalizando cada vez mais, recebendo influência de empresas e se distanciando dos seus objetivos originais. Hoje o esporte é mais um negócio do que propriamente educação. A principal mudança foi o desaparecimento do amadorismo, um ideal irrealista no mundo moderno. Coubertin desejava valorizar a prática esportiva dentro de uma moldura de poucos recursos financeiros, o que seria provavelmente um bom caminho, mas que não se consolidou. É muito difícil manter alguém exclusivamente dedicado ao esporte. Tem que ter algum recurso, uma instituição, algum suporte. A concorrência entre países, instituições, entre os próprios treinadores e atletas foi criando os exageros da competição. O que nós assistimos no esporte de alto nível é um exagero, a húbris, um conceito grego que pode ser traduzido como tudo que passa da medida, quando se deseja ter mais do é possível ou aconselhável. É o que acontece quando o esporte deixa de ser um instrumento educacional e passa a ser somente uma competição. Competição que não é esportiva, mas de recursos, tecnologia, entre laboratórios, entre países. Com isso os aspectos educacionais, que são valores humanos, passam a ser periféricos, eles estão presentes, mas não dominam.

Pré-Univesp: O senhor acha que há caminhos para retomar essa função educacional?

Lamartine da Costa: Eu acho que cada vez mais as empresas dominam esse ambiente e, sendo realista, não sei dizer qual é o limite disso. Penso que, por conta do exagero nos investimentos de recursos e envolvimento de marcas, o sentido do esporte vai se perdendo. É o que estamos vendo agora com a questão do doping, que pode acabar com os jogos olímpicos. E por que que existe esse risco? Por causa do excesso de comercialização dos jogos. O governo da Rússia está envolvido na dopagem em larga escala dos seus atletas. Isso é um escândalo enorme, talvez o maior de todos. Onde há muito dinheiro sem uma organização apropriada para lidar com ele, criam-se vícios. Então nós estamos diante de uma situação extremamente delicada.

Pré-Univesp:  O esporte de alto nível é saudável?

Lamartine da Costa: Boa pergunta. Há muitas dúvidas. Já se imagina que deixou de ser saudável porque, como eu disse antes, estamos na fase do húbris e, quando há exagero, nada é saudável. Não é à toa que o Comitê Olímpico Internacional (COI) emitiu no final do ano passado a Agenda Olímpica 2020 com 40 recomendações para o futuro dos jogos. As cinco primeiras estão vinculadas à questão da sustentabilidade, um conceito que não está ligado somente ao meio ambiente, mas também ao social e ao econômico. É um tripé. O que o COI espera com essas recomendações é justamente esse equilíbrio. Se colocadas em prática, um dos efeitos das recomendações da Agenda seria reduzir o ímpeto do gasto de dinheiro como nós estamos assistindo agora no Rio, para mim, o último estágio da evolução dos jogos olímpicos no contexto da húbris, dentro do paradigma do exagero. Não haverá mais jogos olímpicos como o do Rio, Londres (2012), Pequim (2008), Atenas (2004) e Sidney (2000) e os antes deles. A partir de 2020, em Tóquio, o que deve dominar é a sustentabilidade. Nós já estamos vivendo uma intervenção que, mesmo que não seja sensível nos jogos olímpicos do Rio de Janeiro, está acontecendo.

Pré-Univesp: O que o senhor considera exagero?

Lamartine da Costa: Começa pelo tamanho. Então, por conta de sua magnitude, a Olimpíada passa a ser politicamente importante e competitiva entre nações. Por ser grande demais, ela não obedece a critérios de proteção do meio ambiente, os custos são muito elevados, obrigando o deslocamento de recursos que deveriam ser investidos na sociedade como um todo, para a construção de obras desportivas. Estas obras, por sua vez, também por serem grandes demais, correm o risco de se transformarem nos chamados elefantes brancos, estruturas enormes subutilizadas. É o que está acontecendo no Rio de Janeiro.

Arena Carioca 2. Parte do Parque Olímpico Rio2016, na Barra da Tijuca. Crédito: Paula Johas/PCRJ | Acervo: Fotos Públicas

Pré-Univesp: Como o evento poderia ser reduzido?

Lamartine da Costa: O tamanho das instalações é um bom exemplo. O que é recomendado é que elas sejam construídas com o menor tamanho e maior resistência possíveis. Tóquio já foi escolhida a partir de novos critérios, isto é, não pelo tamanho ou pela proporção dos jogos que eles querem fazer, mas pela possibilidade de utilizar instalações já existentes nas cidades e nos arredores e, com isso, construir menos. O próprio sentido dos jogos vai mudar porque, pela Agenda 2020, serão aceitos jogos em diversas cidades, não somente em uma, como acontece hoje. Isso encarece muito organizar os jogos olímpicos. A ideia, novamente, é reduzir a construção de instalações novas. Isso representa uma nova era do esporte de alto nível a partir do final dos jogos de 2016.

Pré-Univesp: O custo das obras assusta?

Lamartine da Costa: O custo das obras no Rio foi menor do que Londres, não chega a R$ 4 bilhões. Isso está bem abaixo do que foi gasto em Pequim (2008), mas ainda é insustentável. Em Tóquio não será nem metade disso. O restante dos investimentos no Rio foi em mobilidade urbana. Isso é salutar, atende uma necessidade porque o Rio de Janeiro não tinha obras nessa área há 30 anos. Estão sendo finalizadas sete linhas de BRT (ônibus de trânsito rápido), que serão incorporadas ao sistema de transporte público da cidade, a linha 4 do metrô, a modificação do centro da cidade e outras obras. É a cidade que está se transformando, então esse custo não pode ser creditado aos jogos olímpicos. E olha que eu sou crítico desse processo.

Novo Joá, via que liga a Zona Sul do Rio a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, com objetivo de aumentar em 30% a capacidade viária entre as duas regiões. Via será um dos legados de mobilidade para os cariocas dentro de escopo de obras que preparam a cidade para os Jogos Olímpicos. Crédito: Beth Santos/PCRJ. Acervo Fotos Públicas.

Outro aspecto importante é que os jogos no Rio de Janeiro têm o maior índice de participação privada até hoje. Nem em Londres (2012) houve tantos empreendimentos privados. A prefeitura do Rio de Janeiro não tinha recursos suficientes para todas as obras necessárias para sediar os jogos, então ela teve que dividir com o setor privado. Esse é um diferencial na organização dos Jogos de 2016. A Vila Olímpica, por exemplo, um conjunto de mil e poucos apartamentos, a maior da história, foi inteiramente construída por empreendimentos privados, financiados pela Caixa Econômica. Depois dos Jogos os apartamentos serão colocados à venda (o que pode ser um fracasso por conta da crise e até mesmo quebrar as empresas envolvidas). De maneira geral, não houve grande empenho em relação à sustentabilidade nas obras realizadas, mas, em relação ao investimento dos recursos, foram encontradas algumas soluções criativas que reduziram os riscos do empreendimento do ponto de vista do seu valor público. Então, nesse particular, a gente tem que elogiar esses administradores.

Projeto da Vila Olímpica, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Empreendimento foi repassado para iniciativa privada para reduzir custos da prefeitura. Crédito: Comitê Rio2016.

Pré-Univesp: O senhor concorda que as Olimpíadas cumprem um papel de desenvolvimento da cidade que recebe os jogos?

Lamartine da Costa: Com certeza. É por isso que um megaevento como esse não vai acabar. Pode haver ameaças no seu aspecto de competição esportiva, mas não como um grande empreendimento. Já existem cinco cidades candidatas aos jogos olímpicos depois de Tóquio: Paris (França), Roma (Itália), Hamburgo (Alemanha), Budapeste (Hungria) e Los Angeles (Estados Unidos). A partir das diretrizes colocadas pela Agenda 2020, do COI, o interesse das cidades em sediar os jogos deve aumentar porque o Comitê vai privilegiar localidades com instalações já existentes, o que diminui os investimentos.

Pré-Univesp: É preciso investir um alto valor para ingressar a candidatura?

Lamartine da Costa: Não, não existe isso. O COI entra como sócio da cidade selecionada com um valor próximo a US$ 1 bilhão. Logo após ganhar a seleção para sediar a Olimpíada, o Rio de Janeiro criou a Rio 2016, uma organização privada, com um capital de US$ 1 bilhão que veio do exterior. É um grande negócio, um jogo que vale a pena se é bem jogado. Não é à toa que existem várias candidatas a receber os jogos olímpicos. No Brasil, nós cometemos alguns erros e alguns acertos, como dividir com a iniciativa privada a construção das obras desportivas. Somente o custo do metrô, a linha 4, equivale ao valor gasto nos jogos olímpicos como um todo. Isso dá uma ideia da desproporção de recursos[ii]. Se pensarmos nessa pergunta em relação dos Jogos Pan-americanos, a resposta é outra porque a proposta era usar as instalações dos Jogos Pan-Americanos nas Olimpíadas. Isso fracassou. As instalações foram malfeitas, o que é responsabilidade do Comitê Olímpico Brasileiro. Nesse sentido o custo desse projeto foi muito grande. Eu não sei exatamente o total de custos dos jogos Pan-Americanos, mas não foi inferior a R$ 3 bilhões, valor próximo ao das instalações esportivas dos jogos olímpicos. Mas, como as obras foram malfeitas, o desperdício foi total.

Pré-Univesp: Voltando às pesquisas. Há grupos de pesquisa na área de estudos olímpicos em número suficiente no Brasil?

Lamartine da Costa: São poucos, seis atualmente. Se você comparar com os 20 mil grupos de estudos do CNPq, isso não representa quase nada. Mas na área internacional o Brasil é o quinto, em produção de pesquisa na área olímpica. Então esses seis grupos, que têm aproximadamente uns 50 doutores, são muito produtivos. Só o meu grupo de pesquisa na UERJ está lançando quatro livros esse ano. Podemos ser poucos do ponto de vista quantitativo, mas do ponto de vista qualitativo, internacionalmente, nenhuma outra área de pesquisa mantém uma relação tão estreita com o exterior do que os estudos olímpicos. 

Pré-Univesp: Quais são as áreas que mais se destacam e onde falta avançar?

Lamartine da Costa: Aqui no Brasil a área mais avançada é a da educação, depois as pesquisas na área de história. Isso, no entanto, varia muito de país para país. Na Alemanha, por exemplo, há poucos estudos na área de gestão e muitos sobre história e filosofia. Em geral, nos países de língua inglesa, a parte de saúde está fortemente à educação olímpica. Nos Estados Unidos e no Canadá, os pesquisadores dedicam-se bastante à biomedicina. Aqui no Brasil essa área não é desenvolvida, eu só conheço dois cientistas que trabalham com esse tema. 


[i] O campo dos Estudos Culturais surge, de forma organizada, através do Centre for Contemporary Cultural Studies (CCCS), diante da alteração dos valores tradicionais da classe operária da Inglaterra do pós-guerra. As relações entre a cultura contemporânea e a sociedade, isto é, suas formas culturais, instituições e práticas culturais, assim como suas relações com a sociedade e as mudanças sociais, vão compor o eixo principal de observação do CCCS. Fonte: ESCOSTEGUY, Ana Carolina. Os Estudos Culturais. Cartografias, Website de Estudos Culturais.

[ii] De acordo com informações do portal desse o projeto, o custo do empreendimento é de R$ 9,7 bilhões, sendo R$ 8,5 bilhões de recursos públicos estaduais e o restante da Concessionária Rio Barra, responsável pela implantação da Linha 4 do Metrô.