Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

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Por Chris Bueno
7/10/15

Trabalhar é preciso. O trabalho faz parte das necessidades humanas e surge junto com o próprio homem, que precisa trabalhar para sobreviver. E, assim como o ser humano, o trabalho também evoluiu. A palavra trabalho tem origem no latim tripalium, que significa “três madeiras” e era o nome dado a um instrumento de tortura constituído de três estacas de madeira afiadas. Na Europa antiga, escravos e pessoas que não podiam pagar impostos eram torturados no tripalium. Assim, a palavra trabalhar significava “ser torturado”. A ideia de trabalho como tortura acabou sendo estendida para além do tripalium: a atividade física exaustiva de camponeses, artesãos e construtores era vista como torturante. O termo passou para o francês travailler, que significa “sentir dor” ou “sofrer” e, com o passar do tempo, o sentido da palavra passou a ser “realizar uma atividade exaustiva, dura”.

Mudanças políticas, culturais e econômicas ao longo da história contribuíram para transformar não apenas a concepção do trabalho, mas também a relação do homem com ele. De atividade necessária para a sobrevivência, passou a ser visto como tortura e sofrimento. Na Antiguidade, gregos e romanos concebiam o trabalho como algo vil e execrável e na Idade Média, trabalhar era um castigo, algo desprovido de prazer e valor. Hoje ele é visto como símbolo de status e realização pessoal.

Trabalho como algo indigno

Obter comida, abrigo, vestimenta, além de se proteger, era o trabalho básico do homem primitivo. Para ajudá-lo nessas tarefas o homem criou ferramentas de pedra, espinhos e pedaços de lascas de árvore, e que foram se desenvolvendo e sofisticando a partir das necessidades dos homens. Nessa sociedade primitiva, todos estavam em relações iguais de trabalho. Entretanto, essa condição de igualdade muda a partir do momento em que o homem começa a plantar e a estocar alimentos. A partir de então se instalam novas formas de interação social e com elas novas relações de poder. Aquele que tinha maiores plantações e mais alimentos passou a ter mais riquezas e mais poder. E, ao longo do tempo, aqueles que detinham mais poder acabaram forçando outras pessoas, menos favorecidas, a realizar o trabalho mais pesado. Desta forma, o trabalho não era visto como algo digno, ficando relegado àqueles considerados inferiores na sociedade. “O trabalho na Antiguidade representava punição, submissão, em que os trabalhadores eram aqueles que tinham sido vencidos nas batalhas, eram escravos. A escravidão era considerada como coisa justa e necessária. Ser culto significava ser rico e ocioso”, afirmam Francisco Ferreira Jorge Neto e Jouberto de Quadros Pessoa Cavalcante, na obra Direito do Trabalho (2013).

No entanto, uma nova conjuntura social mudou esse quadro. Com a queda do Império Romano, a escravidão deixou de ser viável tanto econômica quanto socialmente. Além disso, o aumento da ruralização e o avanço de tribos bárbaras na Europa acarretaram o aparecimento de uma nova ordem social: o Feudalismo, que inaugura outro sistema de trabalho, a servidão. Os trabalhadores estavam vinculados a terra, que por sua vez pertencia ao senhor feudal. Assim, os servos realizavam o trabalho rural – e também outras atividades como artesanato, construção e transporte – para o senhor feudal, e este oferecia a eles proteção militar.

Novas configurações

As caravanas para o Oriente em busca de mercadorias para vender na Europa são outro elemento disparador de mudanças nas relações de trabalho. Um das marcas do declínio do feudalismo, a intensificação das relações comerciais cria a demanda por novas técnicas e oficinas. Aos poucos os feudos deram lugar às cidades, fazendo surgir o capitalismo mercantil, com novas e variadas formas de trabalho e bancos para fomentar o novo sistema. Com a expansão marítima e descoberta de novas terras, esse sistema se dissemina e se consolida.

A colonização dessas novas terras baseou-se no sistema de trabalho escravo. Mas o avanço da industrialização fez com que esse sistema fosse perdendo forças até deixar de existir. Em vez de escravos, agora eram necessários trabalhadores assalariados para trabalhar nas fábricas e consumir seus produtos. “Até a Revolução Industrial predomina um tipo de trabalho que variava entre a escravidão e a servidão, cuja condição social ínfima era condizente com o escasso ou quase nulo valor que se atribuía ao seu esforço”, aponta o jurista espanhol Alfredo Montoya Melgar, em sua obra “Derecho del Trabajo”( 2002).

Na Revolução Industrial, as pequenas manufaturas ganharam força e se tornaram grandes indústrias. Porém, as forças de trabalho eram extremamente desiguais: enquanto os donos das indústrias enriqueciam enormemente, os trabalhadores operavam em condições precárias, com uma carga de trabalho alta e salários baixos. A união desses trabalhadores e a luta por melhores condições de trabalho mudaram esse quadro, culminando com a conquista das primeiras normas voltadas para a proteção dos trabalhadores. Entre as grandes mudanças, destaca-se a criação da Organização Internacional do Trabalho (OIT) em 1919.

Hoje, essas grandes indústrias tornaram-se grandes corporações multinacionais, os avanços tecnológicos e a internet trouxeram mais complexidade ao mercado de trabalho e a globalização levou as discussões sobre as relações trabalho a outro patamar. Mas essa relação continua se alterando conforme novas mudanças econômicas, políticas e sociais vão acontecendo.

Visões filosóficas sobre o trabalho

Vários filósofos e sociólogos estudaram as relações dos homens com o trabalho. Entre eles, destacam-se Karl Marx, Max Weber e Émile Durkheim. Para o economista, teórico político, filósofo e historiador alemão Karl Marx, todos os animais trabalham para sobreviver, mas o homem é o único que modifica a natureza por meio de seu trabalho, segundo suas necessidades. Através de seu trabalho, o homem consegue colocar a natureza a seu serviço e, para aumentar seu poder sobre ela, passou a utilizar instrumentos e acrescentar meios artificiais de ação. “O trabalho não é a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio para satisfazer outras necessidades”, diz. O trabalho, para Marx é uma condição necessária para que o homem seja cada vez mais livre e mais dono de si próprio. Por outro lado, ele é também um elemento de subordinação ao capital, de sacrifício e mortificação do homem, o que é exacerbado pelo capitalismo.

Max Weber, jurista e economista alemão, aponta a religião como elemento fundamental no processo de valorização do trabalho. Segundo Weber, o trabalho era considerado de maneira ambivalente ao longo da história: é indispensável e indesejável ao mesmo tempo. Com a Reforma Protestante, porém, essa visão se modifica. Na teologia de Martinho Lutero, uma das figurais centrais da Reforma, trabalhar é um modo de homenagear a Deus, do mesmo modo que o ócio e a preguiça são moralmente condenáveis. “O mais importante é que o trabalho constitui, antes de mais nada, a própria finalidade da vida”, afirma o teólogo.

Já para o sociólogo, antropólogo e filósofo francês Émile Durkheim, a divisão social do trabalho é fundamental para o funcionamento harmônico da sociedade, considerada por ele um organismo constituído de partes identificáveis e com relações bem definidas. Assim, cada um dessas partes é responsável pelo bom funcionamento da sociedade e precisa trabalhar para tanto. Os indivíduos aceitam o lugar social que lhes é dado desde que impere uma ordem social que leve justiça a todos os seus membros. “Se a divisão do trabalho produz a solidariedade, não é apenas porque ela faz de cada indivíduo um ‘trocador’, como dizem os economistas; é porque ela cria, entre os homens, todo um sistema de direitos e deveres que os aliam uns aos outros de maneira duradoura. Do mesmo modo que as similitudes sociais dão origem a um direito e a uma moral que as protegem, a divisão do trabalho dá origem a regras que asseguram o concurso pacífico e regular das funções divididas”, aponta.

Referências:

Jorge Neto, Francisco Ferreira; Cavalcante, Jouberto de Quadros Pessoa. “Direito do trabalho”. São Paulo: Atlas, 2013.

Melgar, Alfredo Montoya. “Derecho del Trabajo”, Madrid, Tecnos., 2002.

Marx, Karl. “O Capital”.

Weber, Max. “A ética protestante e o espírito do capitalismo”.

Émile Durkheim, “Da divisão do trabalho social”.