Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Bruna Garabito
José Oiteiral
22/4/15

Charles Baudelaire (1821-1867), conhecido poeta francês, publicou em 1851 um conjunto de quatro poemas sob o mesmo título, “Spleen”. Ivan Junqueira, tradutor desses poemas, explica que “spleen” é um vocábulo de origem inglesa que a língua francesa incorporou no século XVIII para designar uma sensação de “tédio sem causa”. O “spleen”, refere Sérgio Alcides, foi uma expressão importante ao “jargão romântico”. Palavra inglesa que significa “baço”, órgão que os antigos gregos relacionavam aos sintomas da melancolia, o “spleen” caracterizava sentimentos relacionados ao “pessimismo, ceticismo e um irresistível tédio…Era chamado de mal do século – inspiração da corrente que no Brasil ficou conhecida como ultra-romantismo, e que teve em Álvares de Azevedo seu primeiro grande nome” (Sérgio Alcides, 2004 ). Moacyr Scliar também escreve sobre este tema no livro Saturno nos Trópicos. A Melancolia Européia Chega ao Brasil.

O adolescente Álvares de Azevedo (1831-1852) nasceu em São Paulo, na esquina da Rua da Cruz Preta com a Rua da Freira (atuais Quintino Bocaiúva e Senador Feijó), e morre aos 21 anos, no Rio de Janeiro. O atestado médico revela “enterite, com perfuração do intestino”. O autor de Noites na Taverna começa a escrever recém saído da meninice e aos 17 anos, em 1848, quando se matricula na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, registra em uma carta que envia carta à mãe (Sérgio Alcides, 2004), em 11 de junho de 1848:

"…. adeus e viva que não há mais nada digno de contar-me senão que a cidade ainda não deixou de ser São Paulo… o que quer dizer muitas coisas: entre as quais tédio e aborrecimento… ".

Ele escreve da mesma forma que Charles Baudelaire, ambos entediados com suas cidades. Estes dois flaneurs tinham, entretanto, queixas distintas. Álvares de Azevedo queixava-se da falta de progresso e civilização de São Paulo, enquanto Charles Baudelaire queixava-se da modernização e da velocidade de sua Paris. Isso é relevante pois mostra que para o verdadeiro “spleen” adolescente a realidade externa, como tal, não importa tanto.

No ano seguinte Álvares de Azevedo prosseguia entediado e, a 12 de junho de 1849, escreve novamente à mãe, registrando:

“Nunca vi lugar tão insípido, como hoje está São Paulo. Nunca vi coisa mais tediosa e inspiradora de spleen… a vida aqui é um bocejar infindo”.

Álvares de Azevedo escreve em Lira dos Vinte Anos uma série de versos aos quais ele dá o título de Spleen e Charutos, onde sua, digamos, filiação ao “spleen” fica mais uma vez caracterizada. Não querendo tirar do leitor o prazer de procurar ele mesmo a leitura das obras de Álvares de Azevedo, quero trazer um dos poemas da série Spleen e Charutos, e comentá-lo, na medida do possível, sob o olhar da psicanálise.

A adolescente que pensava em ser freira - Os pais de uma adolescente de 13 anos me procuram, em busca de orientação, pois estão muito preocupados com sua filha. Ela diz achar o mundo “sem sentido” e que a religiosidade é o caminho que irá buscar. Nada a interessa e passa o dia “entediada”. Cumpre suas tarefas escolares, é gentil com as pessoas e não parece estar deprimida. Não é possível encontrar eventos que possam estar relacionados com o que ela sente. Apenas acha “tudo uma droga!”. Como comentou com os pais de que estava pensando em entrar para “uma vida religiosa” eles ficaram deveras preocupados. Eles relatam, entretanto, um fato paradoxal: ela tem em seu arquivo escolar fotos de atores. A adolescente é uma “chata”, dizem os pais, em contraste com a criança alegre e criativa que ela fora. Sugeri aos pais que aguardassem e me procurassem dentro de seis meses, ou antes se considerassem necessário. Cerca de um ano depois eles me procuram dizendo que a preocupação era outra: a “entediada e desinteressada”, agora queria sair todas as noites e só pensava em namoros. A sugestão de Donald Winnicott de que o tempo é um fenômeno curativo na adolescência me pareceu ser verdadeira e a “página fora virada”, como escreveu o jovem poeta Álvares de Azevedo.

O spleen na adolescência - A adolescência é caracterizada, como sabemos, por inúmeros elementos, dos quais quero referir alguns: (1) a perda do corpo infantil, dos pais da infância e da identidade infantil; (2) da passagem do mundo endogâmico ao universo exogâmico; (3) da construção de novas identificações assim como das imprescendíveis desidentificações; (4) da resignificação das “narrativas” de self; (5) da reelaboração do narcisismo; (6) da reorganização de novas estruturas e estados de mente; (7) da aquisição de novos níveis operacionais de pensamento (do concreto ao abstrato); (8) da apropriação do novo corpo; (9) do recrudescimento das fantasias edípicas; (10) da vivência de uma nova etapa do processo de separação-individuação; (11) da construção de novos vínculos com os pais, caracterizados por menor dependência e idealização; (12) da primazia da zona erótica genital; (13) da busca de um objeto amoroso; (14) da definição da escolha profissional; (15) do predomínio do ideal de ego sobre o ego ideal; enfim, de muitos outros aspectos que seria possível seguir citando, mas, em síntese, da organização da identidade em seus aspectos espaciais, temporais e sociais. Os aspectos fundamentais para a compreensão da adolescência, sob o ponto de vista da psicanálise, nos foram dados pelo próprio Sigmund Freud, que foi um grande “psicanalista de adolescentes”.

Neste texto quero, entretanto, enfocar uma das manifestações sintomáticas que caracterizam a adolescência, o “spleen”: pessimismo, ceticismo e um irresistível tédio. Aparentemente sem causa, sem algo da realidade que verdadeiramente os atormente, pois como vimos os jovens Charles Baudelaire e Álvares de Azevedo se queixavam de suas cidades, de progresso de mais ou de progresso de menos. Rebeldes sem causa, isto é, sem causa aparente. Na verdade, as transformações deste período originam modificações que atingem a personalidade, provocando tristeza pela identidade infantil que vai sendo perdida e um temor pelo mundo adulto e suas representações que vão se avizinhando (o tão temido e desejado mundo adulto…). René Passeron, como nos recorda Edson Souza, considera que toda a obra de arte é um “curativo do vazio”. O “spleen” se insere, a meu ver, por essas vias. Minha intenção é, apenas, reavivar a memória e ativar as associações, fornecendo elementos para reflexão. Álvares de Azevedo é o nosso exemplo de adolescente sofrendo de “spleen”, condição que todos reconhecemos nos adolescentes que estão á nossa volta e no adolescente que, espero, nós fomos, somos e seremos.

Uma compreensão psicodinâmica sobre o “spleen” - A adolescência é, como explicitei antes, um período de importante modificações psíquicas. W. Bion, em seu texto sobre a condição borderline, nos fala dessa etapa como um momento de “turbulências”. A questão não é, como foi para Charles Baudelaire, que reclamava das rápidas transformações de Paris, ou de Álvares de Azevedo, que se queixava da monotonia de sua provinciana São Paulo, o externo. O “spleen”, esse “pessimismo, ceticismo e tédio sem causa” é determinado no mundo interno pelas transformações, determinadas pelas perdas e pelas novas aquisições, desejadas e temidas. O poema de Álvares de Azevedo, da série Spleen e os charutos, denominado, significativamente, de Solidão, é eloqüente. A mulher “…vagabunda, sem chale, sem camisa e sem mantilha, nua…”, sensual, que anda pela noite produzindo desejo, surpresa e medo, no adolescente. As figuras dos frades, nas nuvens a tudo observando numa representação de um superego rígido e crítico com a sexualidade, atormentam nosso jovem poeta. Ele pede uma donzela pura, não a vagabunda, que o tire de sua solidão.

Bibliografia

AZEVEDO, Álvares. Obra Completa. Editora Nova Aguilar. Rio de Janeiro. 2000

BAUDELAIRE, Charles. O Spleen de Paris. Imago. Rio de Janeiro. 1995

BAUDELAIRE, Charles. As Flores do Mal. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro. 1985

ALCIDES, Sérgio. Uma capital Ultra-romântica. In: Nossa História. Biblioteca Nacional. I: 3, Janeiro de 2004

*Este texto é uma adaptação do artigo: O spleen na adolescência. In: Simpósio Internacional do adolescente 1, 2005, São Paulo.