Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Anita Malfatti, "A boba", 1915-1926. Acervo do Museu de Arte Contemporânea, USP.
Por Adriana Menezes
18/5/16

Eles queriam romper com as regras estabelecidas na cultura e desejavam fazer uma arte genuinamente brasileira. Era 1922, o ano do centenário da Independência do Brasil, quando um grupo de artistas munido de uma força renovadora decidiu promover a Semana de Arte Moderna, que aconteceu de 11 a 18 de fevereiro no Theatro Municipal de São Paulo. A ideia era simbolicamente provocar uma segunda independência do Brasil. Inspirados em movimentos artísticos europeus como o dadaísmo, o futurismo, o expressionismo e o surrealismo os artistas brasileiros fizeram uma fusão deles com os temas brasileiros, declarando assim a antropofagia cultural, em analogia aos índios antropofágicos brasileiros, que devoravam os inimigos para tomar sua força. Estava instaurado o movimento Modernista.

Mário de Andrade (sentado), Anita Malfatti (sentada, ao centro) e Zina Aita (à esquerda de Anita), em São Paulo, Brasil, 1922.

A Semana de Arte Moderna de 1922 foi um marco na arte, arquitetura, literatura e pintura do país. Liderados por Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti e Menotti Del Picchia, artistas e intelectuais como Heitor Villa-Lobos, Tarsila do Amaral, Manuel Bandeira, Di Cavalcanti, Graça Aranha e Guilherme de Almeida proclamavam mudanças para romper com academicismos, ao mesmo tempo em que defendiam uma arte totalmente livre. O movimento durou toda a década de 1930, mas sua influência na produção artística nacional seguiu ao longo de todo o século 20.

Sob vaias

A Semana de Arte Moderna aconteceu, na verdade, ao longo de três dias, 13: pintura e escultura; dia 15: literatura; 17: música. Quase tudo que aconteceu gerou polêmica e, em geral, o público não gostou do que viu. Inúmeras apresentações foram vaiadas. Tudo causava estranheza, das pinturas à música de Heitor Villa-Lobos, que subiu ao palco com um sapato em um pé e um chinelo no outro. A plateia se sentiu desrespeitada. Os modernistas ridicularizavam o parnasianismo, movimento da época que produzia uma poesia formal. A proposta era romper definitivamente com a arte tradicional e trazer uma renovação na linguagem artística.

Na literatura, a ruptura correspondia ao reajustamento da vida nacional. “Daí a força renovadora modernista”, afirma um dos principais estudiosos da obra de Mário de Andrade, João Luiz Lafetá (1946-1996), em “1930:  crítica e o Modernismo”, livro publicado em 1974.

O embrião

Uma exposição polêmica e inovadora da pintora Anita Malfatti, em 1917, teria sido o embrião do Modernismo. Recém-chegada da Europa, Anita trouxe um novo olhar para sua pintura, impregnada de influências da arte moderna alemã e do expressionismo. Suas pinturas retratavam personagens marginalizados dos centros urbanos. No entanto, a mostra não foi bem recebida pela crítica. Em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, o escritor Monteiro Lobato criticou a exposição em artigo publicado com o título “Paranoia ou mistificação?”. Lobato considerou o conjunto da exposição uma obra de “cérebros transtornados por psicoses” e, em seu artigo, defendeu a arte tradicional. Isso gerou uma dualidade forte entre os artistas modernistas e os clássicos. Os escritores e jornalistas Mário de Andrade e Oswald de Andrade reagiram e passaram a defender o Modernismo. A partir daí começaram a amadurecer a ideia da Semana de Arte Moderna que aconteceria em 1922.

Anita Malfatti, “A estudante” (1915-1916). Acervo do Museu de Arte de São Paulo. Reprodução.

Diante da reação negativa do público à arte mostrada no Theatro Municipal, os críticos, assim como fizera Monteiro Lobato cinco anos antes, não pouparam os artistas modernistas, o que acabou minimizando seu impacto imediato. Anos depois, no entanto, as influências e as mudanças que se efetivaram na produção artística atestaram o fundamental papel da Semana de Arte Moderna para o movimento.

O Brasil de 1922 também passava por transformações, com a chegada de imigrantes, a urbanização e a industrialização. A despeito de ser um movimento artístico predominantemente urbano, a Semana foi patrocinada pela oligarquia rural paulista que desejava contrapor-se ao Rio de Janeiro, fazendo de São Paulo uma referência na cultura nacional. Com a Semana de Arte Moderna, a elite cafeeira tentava transformar a cidade de São Paulo em uma capital cosmopolita, comparável a qualquer metrópole europeia.

Convergência de ideias

No início do século 20, uma vanguarda europeia instaurava novos conceitos artísticos cuja influência chega ao Brasil via intelectuais e artistas. Assim, mesmo antes de 1922, as ideias modernistas já circulavam pelo ambiente paulistano. Havia um desejo de mostrar o verdadeiro Brasil, sem os idealismos românticos. Ainda em 1902, a obra de Euclides da Cunha sobre a Guerra de Canudos, “Os Sertões”, já era parte deste anseio. Em 1911, Lima Barreto também levantou a temática do nacionalismo em “Triste fim de Policarpo Quaresma”, com doses críticas e de humor. O próprio Monteiro Lobato já havia criado o personagem Jeca Tatu e o Sítio do Pica-pau Amarelo. Em 1913, o pintor e escultor Lasar Segall já havia mostrado um trabalho expressionista nas artes plásticas.

Lasar Segall, “Leitura”, 1913. Acervo Museu Lasar Segall. Reprodução.

Todas essas manifestações artísticas convergiam para o desejo comum de produzir uma arte genuinamente brasileira. Foi esse desejo que culminou no Modernismo.

A circulação dessas ideias contou com a ajuda de uma série de publicações entre as quais destacava-se a revista Klaxon,  lançada após a Semana de Arte Moderna para difundir e promover as ideias modernistas e as de outros quatro movimentos culturais agregados ao Modernismo: o Pau-Brasil, o Verde-Amarelismo, a Antropofagia e a Anta.

A virada

De acordo com Lafetá o movimento modernista também possuía um forte elemento político. As ideais anarquistas dos anos 20 ajudaram a construir o imaginário do movimento que pode ser dividido em duas fases: a primeira, mais anarquista e revolucionária ou heroica, e a segunda, que culmina com uma ruptura da linguagem e expressa uma carga maior de pessimismo em relação aos destinos do país. Na obra “Retrato do Brasil: ensaios sobre a tristeza brasileira”, de 1928, o escritor Paulo Prado oscila entre o otimismo da primeira fase e o pessimismo da segunda”. No mesmo ano, em “Macunaíma, com humor e melancolia, Mário de Andrade, mostra o instante da virada e revela o “não-caráter” do brasileiro.

Capa do livro “Macunaíma”, publicado em 1928.

Ainda segundo Lafetá, que foi professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), o movimento alcançou a maturidade na década de 1930, quando surgiram alguns dos escritores mais importantes da literatura brasileira, como Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Jorge de Lima, José Lins do Rego, Jorge Amado, Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos, até os estudos históricos sociológicos de Gilberto Freyre, Caio Prado Jr, Sérgio Buarque de Holanda.