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Nº.61 UNIVERSO Dez.2016 | Jan.2017

John Ikerd
3/11/16

Estamos no meio de uma grande transição. A nossa economia, sociedade e ambiente natural estão passando por um período de mudança fundamental. Esta transição está sendo tão grande como foi a Revolução Industrial e, possivelmente, tão importante quanto o Iluminismo, o começo da ciência. Contrariamente à crença popular, esta não é uma revolução tecnológica, embora as novas tecnologias eletrônicas e biológicas sejam relevantes para a transição. É uma revolução filosófica, uma revolução sobre a natureza da realidade, sobre como o mundo funciona e nosso lugar nele. Maneiras de pensar que pareciam adequadas no passado são incapazes de enfrentar os desafios de hoje e do futuro. Para completar a transição, temos de repensar praticamente todos os aspectos de nossas vidas. A era industrial trouxe muitos benefícios materiais para a humanidade e, com certeza, as pessoas não querem voltar a viver numa sociedade agrária pré-industrial, a não ser, é claro, os anarco-socialistas. O capitalismo é o sistema econômico mais eficiente já criado comparado ao socialismo, provando ser capaz de satisfazer as necessidades e desejos materiais da sociedade.

No entanto, há uma percepção crescente de que as coisas que estamos fazendo para enfrentar os desafios de hoje não estão funcionando e não vão funcionar no futuro. Os intermináveis conflitos militares no Oriente Médio, a poluição causada pelo uso de energia fóssil e as mudanças climáticas globais são apenas sintomas de problemas mais profundos, mais fundamentais em todas as sociedades industriais modernas. Economias capitalistas são muito eficientes e tremendamente produtivas, mas elas estão consumindo rapidamente os recursos dos quais dependerão para sua produtividade futura. Elas não são sustentáveis.

Sustentabilidade e energia

Esta não é uma questão de opinião pessoal, mas está enraizada nas leis mais fundamentais da ciência. Sustentabilidade, em última análise, é uma questão de energia. Tudo o que é útil para a humanidade como nossas casas, objetos, roupas e comida, requer energia para ser produzido. Todas as atividades humanas úteis como nosso trabalho, pensamento e gerenciamento, também necessitam de energia. E igualmente importante, a utilidade da energia humana é um produto da sociedade. Nós não nascemos como adultos maduros produtivos, mas bebês pequenos e indefesos. Temos de ser alimentados, socializados e educados pela nossa família e comunidade para sermos úteis à sociedade e isso requer energias sociais.

As economias capitalistas também dissipam energia social porque elas enfraquecem as relações humanas. A eficiência econômica exige que as pessoas se relacionem entre si de forma imparcial, o que significa impessoalmente. As pessoas têm de competir entre si em vez de colaborar, se os mercados estão trabalhando de forma eficiente, a concorrência degrada as relações pessoais. A eficiência econômica incentiva as pessoas a trabalhar fora de suas casas e fazer compras fora das suas comunidades locais.

Elas fazem mais dinheiro, mas têm menos tempo e energia para gastar sustentando suas famílias e comunidades. As economias capitalistas modernas transformaram as relações humanas em transações econômicas, esgotando a energia social necessária para criar pessoas produtivas, acelerando assim o esgotamento da energia social. Tais economias não são socialmente sustentáveis.

Além disso, todo o valor econômico vem ou da natureza ou da sociedade. Uma economia não cria nada pois é simplesmente uma forma de facilitar nossas relações individuais uns com os outros e com a terra. Se continuarmos a extrair da natureza e explorar a sociedade em curto prazo e benefício individual, eventualmente, não haverá fontes de valor econômico. Economias capitalistas extraem da natureza e da sociedade, mas não dão nada em troca para sustentar a natureza ou a sociedade. Economias capitalistas de hoje simplesmente não são economicamente sustentáveis.

A economia da sustentabilidade requer uma maneira fundamentalmente diferente de pensar. Como disse Albert Einstein certa vez, “nós não podemos resolver nossos problemas com o mesmo pensamento que usamos quando os criamos”. O desenvolvimento econômico Industrial, que tem dominado o nosso pensamento nos últimos dois séculos é baseado em uma visão mecanicista do mundo. Nós, seres humanos, não somos peças de uma máquina gigantesca e complexa. O desenvolvimento econômico sustentável deve respeitar o fato de que o mundo é realmente um ecossistema natural vivo, dos quais nós somos uma parte e ao qual estamos integralmente ligados.

 

A economia linear atual é focada em extrair, fabricar, descartar e gerar resíduos, levando a obsolescência programada ao máximo e criando o capitalismo predatório que não considera a natureza um bem comum, mas apenas uma fonte de recursos a ser explorada. No capitalismo predatório o que importa é produzir e vender de forma incessante, acumular recursos e o desenvolvimento econômico a qualquer custo. Já o capitalismo sustentável procura imitar os processos naturais da vida e sistemas biológicos através do ciclo fechado da economia circular, que se baseia no reduzir, reutilizar e reciclar. O capitalismo sustentável promove o capitalismo social, natural e responsável.

Para alcançar a sustentabilidade, devemos utilizar uma parcela significativa de nossa energia e da energia da Terra para a renovação e regeneração para uso futuro. Precisaremos de energia para reconstruir e redesenhar novos sistemas de coleta de energia que sejam mais eficientes e ecológicos. E talvez, o mais importante, utilizar a energia humana para renovar e regenerar as famílias, comunidades e sociedades civis que serão necessárias para assegurar que qualquer energia disponível no futuro seja utilizada de forma construtiva em vez de usos destrutivos. As economias sustentáveis devem funcionar de acordo com os princípios regenerativos e sistemas vivos.

Por exemplo, o desenvolvimento de comunidades sustentáveis deve ser guiado pelos princípios de ecossistemas naturais, saudáveis e produtivos, incluindo o holismo, a diversidade e interdependência. Os ecossistemas são mais do que coleções de elementos físicos e biológicos individuais. Eles são holísticos e as relações importam. Os princípios orientadores sociais para as comunidades sustentáveis, incluindo a confiança, bondade e coragem, surgem a partir de um conjunto de valores fundamentais comuns, que transcendem a religião, a filosofia, raça, nação e cultura.

A diversidade também é essencial na manutenção de ecossistemas naturais, para a renovação, resiliência e resistência, regeneração e adaptação. Interdependência transforma os benefícios potenciais do holismo e diversidade em realidade ecológica positiva. Um grau de especialização e padronização pode ser necessário para sua eficiência, mas uma economia sustentável deve manter uma medida de diversidade e as suas relações econômicas devem ser mutuamente benéficas, ao invés de priorizarem a extração ou a exploração.

Do individual para o todo

As relações econômicas devem ser baseadas na confiança e não apenas nos contratos e leis, e devem refletir um sentimento de bondade para com os outros, incluindo as gerações futuras. A integridade econômica é inseparável da integridade ecológica e social. Muitos indivíduos, empresas, organizações sem fins lucrativos, cidades e comunidades informais estão tomando a iniciativa de viver, trabalhar e se governar pelos princípios da sustentabilidade. Mas a questão fundamental que confronta a humanidade é se as pessoas em geral estarão dispostas a renunciar a algum nível de auto interesse econômico individual para garantir a sustentabilidade de longo prazo da humanidade.

Se continuarmos a nos comportar como animais irracionais e a seguir nossos instintos mais básicos e instáveis, nossa espécie irá sofrer o mesmo destino de outras espécies irracionais que tiveram uma posição de domínio no seu ambiente ecológico. Vamos continuar a expandir a nossa população e o consumo até degradar e destruir os recursos que deveriam nos sustentar. Os seres humanos não estão isentos das leis fundamentais da natureza, independentemente de quanto nós pensamos que sabemos ou quanto tecnologicamente avançados podemos nos tornar. Infelizmente, o ecossistema dominado pelos seres humanos hoje inclui toda a biosfera da Terra.

Muitas pessoas questionam hoje se a economia capitalista nunca será sustentável. É certo que os riscos ecológicos e sociais do capitalismo são reais. No entanto, nenhum outro sistema econômico pode rivalizar com a sua eficiência e produtividade nas decisões e atividades que são legitimamente privadas, pessoal ou de natureza individual. As sociedades que tentaram o comunismo, socialismo e teocracias religiosas nunca foram capazes de satisfazer as necessidades físicas e materiais do seu povo. Elas fracassaram enormemente porque não são economicamente sustentáveis, além de serem muito mais corruptas e com tendências ditatoriais que prejudicam as liberdades individuais. O capitalismo, com todos os seus riscos inerentes, ainda é a melhor esperança da humanidade para a sustentabilidade.

Felizmente, o capitalismo sustentável não depende de uma mudança radical, ele requer apenas que voltemos aos princípios fundamentais do capitalismo clássico e das bases da democracia. A sustentabilidade, em última análise, é uma questão de ética e moralidade. Nós somos seres materiais e precisamos nos preocupar com o nosso bem-estar econômico individual. Mas também somos seres sociais, éticos e morais e precisamos das outras pessoas em relações que não se baseiam na expectativa de benefícios econômicos.

 
 

Ironicamente, o capitalismo clássico foi construído sobre uma base sólida moral e ética. Os economistas clássicos, incluindo Adam Smith, David Ricardo e Thomas Malthus, estavam preocupados com o bem-estar da sociedade e da humanidade. Adam Smith escreveu em seu clássico de 1776, “A riqueza das nações”, que a melhoria nas condições de vida das classes mais baixas, nunca deveriam ser consideradas como um inconveniente para a sociedade. Esses teóricos entendiam que uma economia capitalista deve funcionar dentro dos limites sociais e éticos, para o bem-estar das pessoas em geral.

No entanto, os economistas neoclássicos, que apareceram em torno do século XX, queriam ser verdadeiros cientistas. Eles acabaram por abandonar os fundamentos éticos e sociais da economia clássica em sua busca pela objetividade científica impessoal. Com o tempo, as economias de mercado foram autorizadas a se afastar das condições necessárias do capitalismo competitivo, na busca de maiores economias de escala a partir de grandes organizações industriais. O capitalismo competitivo requer um número maior de compradores e vendedores, liberdade de entrada e saída, informações precisas e soberania do consumidor.

Estas condições existiam nos dias de Adam Smith, no entanto, as economias capitalistas de hoje são dominadas por grandes empresas multinacionais, que dependem de grandes investimentos, patentes e bilhões de dólares gastos em publicidade enganosa e persuasiva. O comércio internacional não é mais um livre comércio entre os indivíduos soberanos, mas passou a ser dominado por grandes grupos de interesse privados. As corporações não são seres humanos. Elas não têm nenhum senso de certo ou errado, bom ou ruim, elas não têm capacidade ética ou moral. A economia capitalista de hoje pode produzir toneladas de “coisas baratas”, mas não há absolutamente nenhuma garantia de que ela está produzindo a “coisa certa”, certamente não para as gerações futuras. Temos leis antitruste para garantir mercados mais competitivos, mas a sua aplicação foi amplamente abandonada. Precisamos de reformas jurídicas para limitar os poderes das corporações e para restaurar o verdadeiro capitalismo para a economia mundial.

Somente quando a nossa economia for novamente competitiva e funcionar dentro do contexto de uma sociedade equitativa e justa, ela será sustentável. Isso não é o comunismo ou socialismo, mas a democracia capitalista fundamental. Tudo o que precisamos fazer para estabelecer uma economia capitalista sustentável é voltar aos valores da democracia e dos princípios fundamentais do capitalismo.

Estamos no meio de uma grande transição. Nós simplesmente não podemos continuar fazendo o que temos feito por décadas porque estamos esgotando rapidamente os recursos naturais e humanos dos quais depende a sobrevivência da humanidade. Devemos renovar e regenerar nosso capital ecológico e social se quisermos sustentar o capital econômico necessário para uma economia sustentável.

Uma economia sustentável não é uma opção, é uma necessidade, se quisermos ter um futuro para a humanidade. Juntos, podemos e devemos construir uma nova economia e uma sociedade sustentável e, ao fazê-lo, vamos criar um modo de vida muito melhor para nós mesmos hoje e para as próximas gerações.

 *John Ikerd, professor da Universidade de Missouri, Estados Unidos. O texto acima é um trecho do livro Sustainable capitalism: a matter of common sense (2005), traduzido pelo artista plástico Renato Cunha e publicado originalmente no site StyloUrbano

sobre o autor

John Ikerd
John Ikerd

Professor Emérito de Economia Agrícola e Aplicada, Faculdade de Agricultura, Alimentação e Recursos Naturais, Universidade de Missouri Columbia. Outros textos do pesquisador podem ser consultados em sua página na internet (em inglês).