Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

.
Por Adriana Menezes
29/6/16

Em ano olímpico nada mais oportuno do que ler ou reler o livro “O atleta e o mito do herói: o imaginário esportivo contemporâneo”, da professora associada da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (EEFE-USP), Katia Rubio. O livro foi publicado há 15 anos pela Casa do Psicólogo, mas as discussões que ele suscita seguem mais do que atuais, principalmente quando na televisão, jornais e outras mídias os atletas olímpicos são comparados a heróis. Por que fazemos essas associações? Como esse imaginário é construído e quais os seus efeitos são algumas das questões que a pesquisadora busca responder.

O estilo e o formato do texto estão muito alinhados à formação da autora, jornalista e psicóloga, mestre em educação física e doutora em educação. Katia Rubio desenvolve sua análise a partir de conceitos apresentados de forma aprofundada, com referências que passam pela antropologia, psicologia, sociologia e estudos de religião. A premissa da autora é que o esporte compõe nosso imaginário social, entendido não como uma negação do real, mas como algo que se apoia no real de modo a transformá-lo e deslocá-lo, dando origem a novas relações no aparente real.

Nesse imaginário, o atleta compartilha valores em comum com os heróis mitológicos: confronto, luta, ascensão e domínio, que se traduz em vitórias. No entanto, isso não basta. Por valorizar sempre o melhor, a sociedade impõe padrões de comportamento que privilegiam o mais forte, mais habilidoso, o que chega em primeiro lugar. Nessa lógica, aquele que persegue esse objetivo, especialmente os atletas de alto rendimento é tomado por herói. Um herói que equivale a personagens míticos como Hércules e Ulisses ou bíblicos, como Jonas (aquele que foi devorado pela baleia e sobreviveu), homens que têm em comum aventuras e feitos extraordinários.

Heróis de ontem e de hoje

A palavra herói foi empregada por Homero (autor dos poemas épicos Ilíada e Odisseia) para designar os homens que possuíam coragem e méritos superiores, favoritos entre os deuses. Para Hesíodo, poeta grego contemporâneo de Homero, heróis são resultado da união entre um deus e um mortal. Ainda na mitologia grega, os heróis são apontados como protetores das cidades. O herói é uma idealização.

Mas o herói não é encontrado somente na estrutura mitológica grega. O mito do herói é o mais comum e o mais antigo do mundo, presente na mitologia romana, na Idade Média, em culturas do Extremo Oriente e entre diversas comunidades indígenas contemporâneas. São mitos com grande poder de sedução dramática e uma importância psicológica profunda que varia de cultura para cultura.

O mito se transforma com as mudanças da sociedade e da cultura. Por isso, o herói adquire novas formas, roupagens. Como Moisés que sobe às montanhas e traz as tábuas da lei no Antigo Testamento, ou Luke Skywalker, em Guerra nas Estrelas, que derrota o próprio pai para depois salvá-lo. A ideia de herói, portanto, é dinâmica e adequa-se à concepção de homem e de mundo. No entanto, a vitória sobre si-próprio é a grande propulsora do herói de todos os tempos. Daí a pertinência de, na modernidade associarmos o atleta com o herói.

Muito mais do que atletas

O período histórico contemplado por Rubio se concentra no final do século XX e início do XXI. Segundo ela, um tempo em que as relações entre esporte e a indústria esportiva acabam associando imagem e marca de forma inseparável. Enquanto na Antiguidade o atleta era premiado com uma coroa de louros e com privilégios como isenção de impostos, pensões vitalícias e escravos, hoje o reconhecimento acontece na forma de medalhas, mas, em vez de isenções nos impostos, muitos atletas assinam contratos publicitários milionários, que conferem prestígio e dinheiro, que os projetam além dos limites das quadras ou dos campos de disputas esportivas.

O esporte contemporâneo absorveu uma série de características da sociedade industrial moderna, como intensa especialização, racionalização, burocratização, quantificação e busca permanente de recordes. Rubio cita o antropólogo Roberto DaMatta ao acrescentar que o esporte no mundo moderno também tem forte ligação com aspectos da vida burguesa, como a disciplina e o fair play (que trivializa a vitória e o fracasso).

Diferentemente do atleta da Antiguidade, cuja preparação física era um elemento da sua formação enquanto cidadão, uma preparação para a guerra e a proteção da polis, o atleta de alto rendimento hoje tem sua imagem vinculada ao espetáculo e ao lazer. Em dias de jogo, são capazes de levar multidões a estádios e ginásios ou causar forte comoção em casos de acidente ou morte, como aconteceu recentemente com o pugilista norte americano Muhammad Ali.

Os feitos dos atletas, considerados quase sobre humanos, somados à rotina disciplinada a que são submetidos contribui para a sedimentação da imagem do herói, aquele que transcende sua condição mortal e se aproxima dos deuses.

Expressão da cultura contemporânea, o esporte é também um produto da cultura de massas, ou seja, os meios de comunicação exercem papel crucial na construção do imaginário do mito. Os produtos de mídia emergem e o público é atraído por mensagens e valores que refletem as expectativas contemporâneas, não de maneira direta e objetiva, mas quase sempre metaforicamente. Nessa lógica, como um produto para ser consumido, de consumo, o esporte tem que criar protagonistas capazes de vender um espetáculo esperado e desejado. A consequência é a racionalização da figura do herói, esvaziando-o de sua permanência mítica. Se antes o discurso olímpico e a prática esportivas eram divinos, hoje eles têm que se submeter a valores mercantis e ideológicos, destituídos de conteúdo semântico. Somente os que escapam desta armadilha conseguem superar o individualismo e trazer de volta os símbolos da aventura para a comunidade, “conquistando seu lugar no pódio das realizações humanas”.

Conversando com heróis

A parte final do livro é dedicada a construção de uma cartografia do imaginário esportivo, onde a autora separa a trajetória dos atletas em cinco fases: iniciação, ingresso no esporte, profissionalização, afastamento e recolhimento. A partir dessas categorias, ela analisou individualmente um grupo de atletas, gerando um rico conjunto de histórias de vida. Inevitavelmente vêm à tona os sacrifícios, as escolhas, as longas jornadas de treinamento, as expectativas e cobranças, as dificuldades na hora de deixar o esporte. Os depoimentos contrastam com o imaginário do mito do herói ao revelar pessoas que vivenciam desafios, dificuldades, alegrias e frustrações bem mais perto da maioria dos mortais do que do Olimpo.