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Nº.61 UNIVERSO Dez.2016 | Jan.2017

Foto: Reprodução/Pixabay
Por Patrícia Santos
23/3/16

Restos de alimentos, embalagens, eletrodomésticos e até sofás. Todo tipo de entulho pode ser encontrado nas vias do metrô de Recife. O hábito atribuído a passageiros e moradores das proximidades atrai ratos que destroem os cabos de transmissão de dados, causando atrasos dos trens e prejuízos para a população, como foi noticiado em meados deste ano.

O problema não é novo, tampouco acontece apenas na capital pernambucana. Ao longo da história da humanidade, sempre foi um desafio dar destino ao lixo, como relata Maciel Eigenheer no livro “A história do lixo: a limpeza urbana através dos tempos”. Estudos arqueológicos indicam que na pré-história já se queimava lixo, uma saída para eliminar o mau cheiro dos rejeitos.

Mudanças importantes na maneira como lidamos com o lixo só foram registradas a partir da Revolução Industrial. Após esse período, a população passou a se concentrar cada vez mais nas cidades, o que evidenciou os problemas sanitários no ecossistema urbano, que depois foram associados à transmissão de doenças.

O reaproveitamento do lixo também não é algo recente. Há registros remotos de uso do lixo orgânico para adubar a terra. Na Antiguidade, por exemplo, Hércules é tido como o patrono da limpeza urbana porque um de seus trabalhos foi limpar as estrebarias do rei Augias. Para isso, ele desviou um curso d’água que, passando pelos estábulos, levou o esterco para os campos servindo como fertilizante.

Percepções sobre o lixo

Apesar da relevância do tema, assim como acontece em Recife e em outras tantas cidades brasileiras, o lixo ainda não recebe a atenção devida das pessoas. São comportamentos que se mantiveram ao longo do tempo e valores culturais só são modificados pouco a pouco, como explica Carlos Alberto Mucelin, professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e pesquisador do tema percepção ambiental.

O professor exemplifica que no início do século passado era comum abater animais e jogar as vísceras nos rios. Esses rejeitos se decompõem e até servem de alimento para os peixes. O problema é que o hábito dos nossos avós e bisavós se manteve nas gerações seguintes, com uma população muito maior e outros tipos de lixo como latas de tinta, lâmpadas, pilhas, causando impactos ambientais graves.

Além disso, afirma Mucelin, há comportamentos incentivados conforme o sistema de produção da sociedade. “Não há muita escapatória para o cidadão a não ser consumir bens produzidos em um sistema que, necessariamente, gera embalagens de plástico, de metal, ou seja, potenciais ingredientes para aterros ou lixões. É fácil dizer que o cidadão é o culpado, mas ele tem que comprar dessa forma”.

Para o professor, por um lado são necessárias ações constantes de sensibilização e informação para que as pessoas mudem seus hábitos e adotem práticas saudáveis de percepção do ambiente. A partir da teoria semiótica de Charles Pierce, Mucelin afirma que isso acontece porque ao receber novas informações, o indivíduo pode reelaborar suas crenças anteriores e reformular seus hábitos. Porém, caso ele entenda que não é viável agir como a nova informação propõe, não haverá mudanças. Isso ocorre, por exemplo, quando a pessoa separa o lixo reciclável, mas percebe que o caminhão de coleta mistura tudo o que recolhe. Ela se frustra ao imaginar que o material não será reaproveitado. Assim, por outro lado, são necessárias políticas, técnicas de gestão e procedimentos para que o ecossistema e essa percepção ambiental revelem situações mais adequadas.

Falta estrutura

Cada brasileiro produz em média 1,02 kg de lixo por dia. Das cerca de 200 toneladas diárias de resíduos gerados, aproximadamente 30% corresponde a materiais que poderiam ser reciclados. No entanto, somente cerca de 20% dos municípios têm coleta seletiva e apenas 1,8% dos resíduos coletados são, de fato, reciclados, segundo levantamento do Ministério do Meio Ambiente.

Até mesmo o tratamento regular para o lixo ainda não está disponível para toda a população. Dos 5.570 municípios brasileiros, 2.215 (39,8%) dispõem rejeitos adequadamente em aterros sanitários. Esse montante significa que os municípios com disposição final adequada de rejeitos atendem a 63,5% da população brasileira. Os pequenos municípios são os que têm maior dificuldade para lidar com o lixo. Esses são alguns números de um panorama mais amplo e grave no país: mais de 100 milhões de pessoas ainda permanecem sem saneamento básico.

O problema é tema da Campanha da Fraternidade de 2016, coordenada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Intitulada “Casa Comum, nossa responsabilidade”, a iniciativa busca mobilizar a sociedade pela mudança de valores em prol desse direito. Mobilizações como essa, assim como da mídia, das escolas e outros setores da sociedade são importantes e têm contribuído para melhorar a maneira como a população lida com o lixo. Para Mucelin, que estuda a questão dos resíduos desde 1999, aos poucos as mudanças têm acontecido. “Me parece que no Brasil caminhamos para uma melhoria de hábitos culturais, tanto de relacionamento, de convivência, em especial para comportamentos mais saudáveis do uso do ecossistema urbano”, analisa.

Foto: Reprodução/Pixabay

Educação ambiental

Entre os esforços necessários a educação ambiental tem um papel importante e deve estar conectada ao que acontece na sociedade. No Brasil, a educação ambiental surgiu nos anos 1970, antes mesmo de se tornar parte das políticas públicas para o meio ambiente. A nova proposta para o campo da educação foi fruto de iniciativas isoladas de professores, estudantes e escolas, de entidades da sociedade civil ou prefeituras e governos estaduais com atividades educacionais relacionadas à recuperação, conservação e melhoria do ambiente. Mais tarde, a Política Nacional de Meio Ambiente (PNMA), Lei 6.938 de 1981, estabeleceu a inclusão da educação ambiental em todos os níveis de ensino, incluindo a educação da comunidade, com o objetivo de capacitá-la para a participação ativa na defesa do ambiente.

Décadas mais tarde, o desafio da educação ambiental permanece tão relevante quanto antes. Mauro Guimarães, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFFRJ), defende que é preciso uma abordagem crítica para que a educação ambiental de fato promova novos hábitos. Ele explica que é comum nas escolas ensinar as consequências do lixo no meio ambiente e a vantagem da prática correta de separar o lixo seletivamente para que as pessoas passem a fazer a coisa certa. “Se o trabalho parar aí, essa abordagem é conservadora, não é suficiente para transformar de forma significativa a realidade da própria comunidade na qual a escola está inserida”, diz.

O professor exemplifica com o caso de escolas que implantam a coleta seletiva de lixo. Elas costumam desenvolver o processo de aprendizagem junto aos alunos para separar os materiais para reciclagem, contando com o serviço público para a destinação correta do material separado. Porém, na maior parte das vezes, os municípios não têm coleta seletiva e até mesmo a coleta regular de lixo não acontece em muitas comunidades.

Nesses casos, a abordagem da educação ambiental crítica levará em conta que é preciso entender e problematizar cada realidade para então tentar intervir para transformá-la. Se a comunidade que não tem coleta normal de lixo, então esse é o primeiro problema a ser tratado, na visão de Guimarães. “O trabalho de educação ambiental será anterior à ideia de coleta seletiva, vai fazer com que os alunos percebam, questionem, problematizem e busquem formas de mudar sua realidade. Aí sim você pode até entrar com um projeto de coleta seletiva, mas articulando com a demanda e de que o poder público se engaje também comece a mudar aquela realidade”, diz.

Essa visão parte das causas para depois pensar nas consequências. “Normalmente as abordagens são muito imediatistas, buscando resolver um problema, mas sem ir buscar a causa profunda que leva àquela situação”, diz o professor.

No caso de comunidades estruturadas que já tenham o serviço de coleta seletiva de lixo, é possível trabalhar a importância do lixo hoje na sociedade e os problemas que os rejeitos geram. Para isso, um dado importante a se levar em conta é a dinâmica de produção do lixo no país. A geração de resíduos aumentou 29% entre 2010 e 2014, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2014, produzido pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). No entanto, no mesmo período, o crescimento da população ficou abaixo de 5%. “Ao trabalhar a ideia da sociedade de consumo, você faz com que os alunos tenham criticidade na forma de entender e estar no mundo e essa visão passa a ser incorporada ao que eles fazem. Assim, a coleta seletiva não será apenas um comportamento ecologicamente correto, mas vai suscitar a criança ou o adulto a ser consciente de sua realidade, da sociedade que gera um problema ambiental que é o lixo exacerbado por conta de um consumo exacerbado. Aí é possível pensar no mundo que estamos vivendo para então pensar em transformá-lo”, afirma.

O pesquisador ressalta ainda que o educador ambiental deve estar conectado com as relações que se estabelecem na sociedade, entre as pessoas e das pessoas com a comunidade e com a natureza. “É fundamental que ele trabalhe relações que se deem de uma forma mais horizontalizada, dialógica, quebrando hierarquias muito presentes na nossa sociedade. Se ele fizer isso, vai conseguir fazer muitas coisas dentro da sua realidade local e eu acho que tem repercussão num processo de transformação mais amplo da sociedade como um todo”, conclui Guimarães.