Logo Revista Pré-Univesp

Nº.61 UNIVERSO Dez.2016 | Jan.2017

Por Márcia Azevedo Coelho
18/1/17

O universo parece fascinar pessoas de todas as idades, contudo, quando esse assunto é tratado em sala de aula, muitas vezes, não desperta grande interesse nos estudantes, talvez pela forma com que o tema é abordado, atendendo a um tipo de ensino baseado no acúmulo de informações, transmitidas do professor para o aluno, em geral, de forma fragmentada, fora de contexto e tendo como recurso apenas o livro didático.

Divergindo desse tipo de ensino que reforça a aprendizagem passiva, em documentos como os Parâmetros Curriculares Nacionais e as Diretrizes Curriculares Estaduais a proposta é que os conteúdos disciplinares sejam apresentados de modo contextualizado, possibilitando relações interdisciplinares, de modo a consolidar uma visão de mundo que propicie, a partir  da formação conceitual, a avaliação das questões e tomada de posição cidadã.

É certo que a mudança de perspectiva no ensino-aprendizagem requer transformações em diferentes âmbitos do sistema educacional; recursos, métodos e materiais utilizados para abordagem das unidades do conhecimento compõem algumas dessas modificações.

Sabe-se também que os livros paradidáticos se constituem como excelente recurso para se trabalhar conteúdos de forma integrada, corroborando a orientação de incrementar o repertório científico e cultural dos jovens estudantes. Essa é uma das propostas da obra Novas janelas para o universo, de Maria Cristina Botoni Abdalla e Thyrso Villela Neto, que apresenta conceitos complexos, por meio de linguagem objetiva e acessível para o leitor não especialista, relacionando-os com questões da atualidade, amplamente debatidas no universo científico.

Maria Cristina Batoni Abdalla é professora livre-docente do Instituto de Física Teórica da Unesp, em São Paulo. Foi professora associada do ICTP-Trieste, na Itália, e trabalhou no Cern, em Genebra, na Suíça. Thyrso Villela Neto é pesquisador titular da Divisão de Astrofísica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, do Ministério da Ciência e Tecnologia – Inpe-MCT, em São José dos Campos (SP). Foi presidente da Sociedade Astronômica Brasileira no biênio 2000-2002.

A obra, dividida em sete partes (uma introdução e seis capítulos) apresenta um percurso bastante didático. Para cada tópico, os autores descrevem o histórico das descobertas, denominando os pesquisadores e áreas que contribuíram para o seu desenvolvimento e relacionam a aplicabilidade delas a situações do cotidiano.

Na parte final do livro, como em todos que compõem a Coleção Paradidáticos (Série Novas Tecnologias) da editora UNESP, há, além de um glossário, sugestões de leitura para aprofundamento no tema e algumas questões, que podem ser de grande utilidade para o professor que queira ampliar a discussão sobre o assunto.

Percebe-se já na introdução que os autores têm grande preocupação em aproximar o leitor que, de chofre, é convidado a embarcar na “aventura do descobrimento do Universo”, descrito como “uma das atividades mais importantes e divertidas” da vida humana. Nesta parte, os pesquisadores explicam que a astronomia é a ciência que possibilita “descobrir os segredos da natureza”(p.9), abrindo janelas que vão além dos olhos e utilizam, para tornar o texto acessível, mas sem perder a complexidade do tema, diversas analogias, tais como a comparação do movimento dos pulsares (estrelas compostas de nêutrons) com os faróis marítimos ou a das ondas marítimas com ondas sonoras.

Perguntas como “Quem imaginaria, na época da descoberta do primeiro laser (observado na luz emitida por uma estrela), que ele teria uma importância tão grande nos dias de hoje, sendo útil na medicina e em muitas outras áreas?” (p.10) ou “Como podemos relacionar o ar com a temperatura?” (p.20) são feitas em diversas passagens, instigando a curiosidade, para, a partir disso, aprofundar a abordagem dos conteúdos, sempre os relacionando com a atualidade. Assim ocorre, por exemplo, quando tratam da radioastronomia, associando-a à óptica adaptativa, à telefonia celular e até à combustão de motores e produção de energia limpa.

Janelas para o professor

Esse tipo de tratamento configura-se como ótimo gancho para o professor de ensino médio trabalhar com os conteúdos programáticos por meio de pesquisa; levantamento de hipóteses e resolução de problemas de forma interdisciplinar e contextualizada, utilizando o paradidático como elemento disparador e recurso de ampliação cultural, assim como aprofundamento dos estudos.

Questões propagadas pelo senso-comum são discutidas na obra como subterfúgio para a posterior desconstrução e esclarecimento. É o que ocorre, por exemplo, na passagem em que ao tratar das ondas eletromagnéticas, Abdalla e Villela Neto afirmam que “(...) o retrato do universo depende de como o olhamos. Visto a olho nu, ele é calmo e tranquilo (...) se observarmos o universo em outras faixas do espectro eletromagnético (ondas de rádio, infravermelho, ultravioleta, raios x, raios gama), veremos um cenário violento, explosivo e um estado de mudanças muito rápidas”(p.30).

A relação das novas tecnologias com as possibilidades de compreensão do universo é assunto do segundo capítulo. Nele, ficamos sabendo, por exemplo, que o descobrimento da constelação de Cão Maior seria impossível sem o telescópio, por não ser muito brilhante na parte do espectro eletromagnético, tornando-se invisível aos olhos humanos.

Além disso, e a fim de imprimir significado para o leitor não especialista, os autores associam o desenvolvimento da radioastronomia ao da tecnologia necessária para várias ciências aplicadas, explicando que a “aventura do descobrimento do universo invisível começou com a radioastronomia e continua até hoje com os avanços tecnológicos progredindo rapidamente na detecção de micro-ondas, infravermelho, ultravioleta, raios x, raios gama, raios cósmicos e neutrinos” (p.50). E, diferentemente, de muitos livros didáticos que enfatizam mais os fatos do que os processos, são citados os nomes de pesquisadores que contribuíram para o desenvolvimento da área.

No caso específico da radioastronomia, cientistas como Karl Jansky (1905-1950), que tentando  resolver um problema de telefonia, observou que as ondas de rádio eram emitidas por vários objetos e regiões do Universo , e Grote Reber (1911-2002), que publicou os primeiros mapas do céu em rádio, técnica fundamental para o avanço da Astronomia, são mencionados como estudiosos da aventura da descoberta do universo invisível, em constante evolução  graças ao trabalho de pessoas e instituições engajadas no desenvolvimento da ciência e do conhecimento humano.

Essa é outra característica importante do livro que oportuniza  trazer o empreendimento dos cientistas para a sala de aula, muitas vezes apagado nas abordagens dadas à ciência, vista como algo neutro, sem autoria e muito distante dos adolescentes, como demonstrou a pesquisa Percepção dos jovens sobre a ciência e a profissão científica (2011), em que 85% dos estudantes de 15 a 17 anos não se lembravam do nome de qualquer cientista.Aproximar os jovens do fazer científico, assim como das instituições e pesquisadores, parece de suma importância, visto que a informação pode ser um dos caminhos para fomentar o desejo de ser cientista e professor; “profissões” tão necessárias para o desenvolvimento do país.

Apostando nessa divulgação é que, no quinto capítulo, os pesquisadores descrevem o que são e como atuam algumas instituições e projetos de relevância para o estudo de partículas elementares, tais como o Observatório de Raios Cósmicos Pierre Auger, na Argentina, o projeto Laser Interferometer Gravitational-wave Observatory (LIGO), operado por cientistas do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), do Laser Interferometer Space Antenna (LISA), financiada pela ESA e pela NASA, e o projeto brasileiro Mario Schenberg, que conta com uma parceria entre pesquisadores do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), da Universidade de Leiden, da Holanda, do Centro Federal de Educação Tecnológica de São Paulo (Cefetsp), da Universidade Bandeirante (Uniban) e do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Um mundo a desvendar

O universo continua um grande desconhecido é o título do sexto e último capítulo. Nele Abdalla e Vilella afirmam que a questão “de onde viemos e para onde vamos?”, presente em toda história da humanidade, poderia ser facilmente respondida se soubéssemos “quanta matéria existe no universo”(p.99) e, para tanto, apresentam algumas suposições que servem de subsídio ao professor  que queira provocar a reflexão dos alunos sobre o tema, seja discutindo a análise das equações de Einstein, seja promovendo um debate fundamentado em argumentos da área sobre a afirmação dos autores de que o universo realmente se encontra em expansão . Assim, valendo-se do paradidático como mais um recurso de exploração e aprofundamento de conteúdos abordados no ensino médio, o professor poderá valer-se de metodologias ativas para o aprendizado de temas muito abstratos para os jovens, tornando-os bastante significativos e, consequentemente, despertando o interesse para o estudo do universo, que tanto fascina a humanidade no decorrer dos tempos.

A boa utilização da obra Novas janelas para o Universo possibilita, portanto, atingir, concomitantemente, os objetivos de (i) formar alunos leitores, (ii) despertar o gosto pela ciência e (iii) favorecer o letramento científico, por meio do aprendizado reflexivo que vai além da memorização de conceitos, fórmulas, sistemas ou processos. Contribuindo para a formação de um aluno social e politicamente crítico, que reconhece a diversidade que o cerca e se reconhecer como indivíduo capaz de ler e atuar socialmente, ao apropriar-se dos conhecimentos científicos apresentados em sala de aula, de modo a questioná-los e utilizá-los em seu dia a dia.

 

OBRA RESENHADA

ABDALLA, Maria Cristina B.; VILLELA NETO, Thyrso. Novas janelas para o Universo. São Paulo, UNESP, 2005. 120p. (Coleção Paradidáticos; Série Novas tecnologias).

REFERÊNCIAS

BRASIL. 1998. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução CEB nº 3 de 26 de junho de 1998. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio. Disponível em: < http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/rceb03_98.pdf>. _______. 2000. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Média e Tecnológica.

Parâmetros Curriculares Nacionais (Ensino Médio). Brasília: MEC. Disponível em: < http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/baseslegais.pdf>. _______. 2009. Lei Nº 5597 de 18 de dezembro de 2009. Institui o Plano Estadual de Educação - PEE/RJ.

KRASILCHIK, M. 2008. Prática de Ensino de Biologia. 4ºed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.