Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Matheus Vigliar
Texto: Christiane Bueno | Arte: Matheus Vigliar
2/4/14

O tempo consome todas as coisas e tudo envelhece com o tempo, já dizia Aristóteles. Inclusive o organismo humano. O tempo modifica a pele, os cabelos, a fisionomia e até mesmo nossos sentidos. Tato, olfato, visão, audição e paladar também são afetados com o passar dos anos. Mas como isso acontece?

O envelhecimento é um processo complexo e a ciência ainda está longe de compreender todos os aspectos moleculares e celulares envolvidos. Estudos genéticos explicam o envelhecimento através da divisão celular (mitose) e da maneira como é feita a transmissão do código genético de uma célula a outra.

Nesse processo de divisão, há o encurtamento dos telômeros, que são as porções terminais dos cromossomos e que funcionam como uma espécie de capa para o material genético neles contido. Acredita-se que a falta dessa proteção promoveria uma menor capacidade de renovação de células lesadas ou mortas. “Ao que parece, o envelhecimento celular envolve prejuízos nos mecanismos pelos quais células novas são geradas a partir das células precursoras”, aponta Leonam Martins, médico do Hospital Universitário Clementino Braga Filho (HUCFF) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista em geriatria e gerontologia.

Outro importante mecanismo estudado para entender como envelhecemos é o das lesões moleculares por espécies reativas de oxigênio, os radicais livres. O nosso organismo produz radicais livres na respiração e na queima das células, em resposta ao contato com toxinas, como as que estão presentes em ambientes poluídos, com muita fumaça e até mesmo pela exposição à luz solar sem proteção.

Esses radicais livres, no entanto, também são tóxicos, podendo destruir ou alterar o DNA e afetar várias outras funções celulares. Apesar de o organismo ter um sistema de defesa contra os radicais livres, ele perde eficácia com o tempo e os danos celulares se tornam maiores.

Além disso, o trabalho celular produz dejetos que, ao longo do tempo, tornam-se mais numerosos do que as células podem eliminar. Entre estes dejetos está a lipofuscina, ou pigmento do envelhecimento, que liga gordura a proteínas nas células, se acumula com o tempo e pode interferir no funcionamento celular.

A lipofuscina, juntamente com os outros dejetos celulares, afeta o funcionamento da célula, levando-a lentamente à morte. Essas teorias, no entanto, ilustram apenas uma pequena parte dos efeitos do tempo no organismo, como e porque eles ocorrem. “As teorias biológicas explicam algumas características do envelhecimento, mas os múltiplos mecanismos envolvidos no processo ainda não são completamente conhecidos. Entender as causas desse processo ainda é um desafio para a ciência”, diz Ilka Nicéia D’Aquino Oliveira Teixeira, pesquisadora da área de Gerontologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Rugas e cabelos brancos

Alguns efeitos do tempo sobre o organismo são bem visíveis. Entre eles estão os cabelos brancos e as rugas. Produzida pelos melanócitos, é a melanina que confere cor aos cabelos (e à pele). Com o tempo, essas células sofrem uma redução progressiva de sua função, perdendo a capacidade de produzir melanina e de manter os cabelos coloridos. A capacidade de produção de melanina é determinada geneticamente, por isso algumas pessoas ficam grisalhas antes das outras, mas a redução desta capacidade se inicia geralmente entre os 35 e 45 anos.

Já as rugas são causadas devido a alterações próprias do envelhecimento e, também, pela exposição à luz ultravioleta, o chamado fotoenvelhecimento. “Dentre as alterações fisiológicas, há a redução da espessura da pele e do conteúdo de elastina e colágeno; o achatamento da zona de transição entre a epiderme e a derme; e diminuição dos lipídeos, o que faz com a pele tenha mais dificuldade em reter umidade, favorecendo o ressecamento. Como resultado do fotoenvelhecimento, há alterações patológicas na própria célula e no interstício celular. A exposição aos raios ultravioleta acentua as alterações proteicas, produzindo anormalidades na rede de fibras elásticas e reduzindo o teor de colágeno”, explica Martins. 

Mudanças sutis

Existem mudanças, porém, que não são visíveis. Os órgãos internos também apresentam alterações em sua fisiologia e em sua constituição tecidual, que envolvem aumento da quantidade de gordura, diminuição de unidades funcionais, perda de elasticidade e lentificação de seus processos fisiológicos.

O coração recebe maior carga de trabalho, devido ao enrijecimento das paredes dos vasos sanguíneos. Também sofre perda ou hipertrofia de suas células musculares, tornando-se menos elástico. Os pulmões têm diminuição na capacidade de oxigenar o sangue, por conta de uma redução na área da superfície de troca de gases entre o sangue e o ar nos alvéolos, e menor eficiência deste processo. Devido ao comprometimento progressivo de suas unidades funcionais, os rins têm sua massa reduzida, o que acarreta diminuição progressiva do ritmo de depuração de substâncias.

O tempo também afeta os cinco sentidos. Perdemos habilidade de focar objetos próximos; de detectar alterações no tom dos sons, assim como de ouvir sons de alta frequência. A percepção ligada ao paladar, olfato e tato é reduzida progressivamente, conforme envelhecemos.

Estilo de vida

Apesar de o tempo afetar todos os organismos naturalmente, o estilo de vida contribui muito para acelerar ou retardar seus efeitos. O efeito acumulativo do álcool, gordura saturada, cafeína, açúcar, estresse, noites maldormidas e excesso de trabalho podem agravar o envelhecimento natural.

Assim, para minimizar os efeitos do tempo sobre o organismo, é preciso investir o quanto antes em um estilo de vida mais saudável. E, para isso, não existe segredo: “é preciso ter alimentação saudável, praticar atividade física regularmente, fazer acompanhamento médico periódico para diagnóstico precoce e tratamento dos agravos à saúde, ter descanso e lazer apropriados, cultivar bons pensamentos e manter a mente estimulada, ativa e produtiva”, aconselha Martins.