Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Bruna Garabito
Por Chris Bueno
19/11/14

Seis repúblicas, cinco etnias, quatro línguas, três religiões, dois alfabetos. Essa grande mistura em apenas um pequeno território fez com que a região da ex-Iugoslávia se tornasse um solo fértil para o nacionalismo, e também um verdadeiro barril de pólvora para conflitos. A convivência pacífica em um cenário de tantas diferenças veio no final da década de 1990 e início dos anos 2000, quando a região foi dividida em vários países. Mas isso só aconteceu após uma série de conflitos que se alastraram durante quase dez anos e resultaram num saldo de cerca de 20 mil mortos e mais de um milhão de refugiados. A guerra na Bósnia foi apenas a mais recente nesta região, que, em boa parte de sua história, assistiu a conflitos motivados pelo nacionalismo.

Nacionalismo

Diferentemente do Brasil e dos países ocidentais, nos países eslavos, como a Iugoslávia, a nacionalidade não é determinada pelo jus soli (local de nascimento) –– mas sim pelo jus sanguinis, ou seja, a nacionalidade de uma pessoa é herdada de seus pais, independentemente do lugar onde nasceu. “Pelo jus sanguinis, as diferenças entre as nacionalidades são eternizadas dentro de um mesmo estado. Assim, ao contrário do que imagina o senso comum, nunca houve um ‘povo iugoslavo’: a Iugoslávia sempre foi constituída por diferentes nacionalidades”, diz Ângelo de Oliveira Segrillo, professor de História Contemporânea, no Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP).

Assim, sérvios, croatas, macedônios, eslovenos e montenegrinos dividiam o mesmo território, conhecido como Bálcãs. A proximidade das etnias, no entanto, fez com que elas fossem inimigas durante séculos. “Nos Bálcãs, não houve uma unidade linguístico-cultural para fundar civicamente ‘La Patrie’, nem um movimento consistente para unir tribos afins contíguas. Não houve sequer um governo próprio de qualquer tipo que a todos abarcasse”, explica José Augusto Lindgren Alves, embaixador do Brasil em Sarajevo e membro do Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial (Cerd) da Organização das Nações Unidas (ONU), em artigo para a Revista Brasileira de Política Internacional. “E como costuma ocorrer em qualquer parte do mundo, em uma situação de escassez, o vizinho é mais ameaçador do que o habitante distante”, aponta.

Conflitos

Apesar da diversidade étnica, a Iugoslávia tornou-se um Estado unificado logo após a Primeira Guerra Mundial. Mas isso não conteve os conflitos, nem durou muito tempo. Os alemães ocuparam o território durante a Segunda Guerra Mundial e o dividiram entre seus aliados – Itália, Bulgária e Hungria.

Após a invasão nazista, Ante Pavelic tornou-se o líder do Estado Independente da Croácia, fundando o movimento fascista e nacionalista. Em nome do “reviver da Croácia” e da “soberania do povo croata”, Pavelic promoveu uma verdadeira limpeza étnica. O ditador perseguiu judeus, sérvios, ciganos, homossexuais e opositores a seu governo; criou leis antissemitas e abriu campos de concentração e de extermínio. Estima-se que o holocausto na Croácia tenha assassinado entre 600 mil e um milhão de pessoas.

Mas os sérvios reagiram, e foi na guerrilha de resistência que surgiu a figura de Josip Broz Tito. Tito foi fundamental para a retirada das tropas alemãs invasoras das fronteiras iugoslavas. Ao fim da guerra, em 1945, o território tornou-se a República Socialista Federativa da Iugoslávia, e Tito foi eleito presidente.

Ele foi o grande responsável pela união da região e de suas diversas etnias. Diminuiu a influência de sérvios e croatas, deu estatuto de maior representatividade para os grupos étnicos menores (em número) e conseguiu promover uma convivência pacífica – pelo menos aparentemente. Também preparou uma constituição para que a união das etnias se mantivesse após sua morte. Essa constituição estabelecia a rotatividade do poder executivo para que nenhuma etnia se sentisse excluída do poder central.

No entanto, após sua morte, em 1980, percebeu-se que esse sistema tinha uma série de problemas. O primeiro é que ele não permitiria adotar eleições diretas, pois um candidato sérvio inevitavelmente venceria, já que os sérvios eram a maioria. O segundo é que nenhum candidato estaria respaldado pela maioria da população, que era constituída por várias etnias. Somam-se a isso os problemas econômicos e o desejo crescente do Partido Comunista de “apoiar a autodeterminação nacional”. “O declínio do socialismo no leste europeu, inclusive na Iugoslávia, fez com que o cimento ideológico que mantinha unido aquele país, constituído por diversas nacionalidades diferentes, se rompesse e as tendências centrífugas se estabelecessem. Fora os sérvios, as outras nacionalidades (bósnios, croatas, etc.) passaram a desejar soberania”, aponta Segrillo. É nesse clima que em 1991, depois de um plebiscito, os parlamentares da Eslovênia e da Croácia declararam a independência das províncias de Kosovo e de Voivodina. O então presidente Slobodan Milosevic não aprovou a ação e reacendeu o nacionalismo sérvio.

Guerra e limpeza étnica

Ao longo da década, tornaram-se frequentes os choques entre rebeldes separatistas do Exército de Libertação do Kosovo e forças iugoslavas. As tentativas de negociações foram frustradas, com Milosevic negando-se a assinar um acordo de paz e implementando uma política de limpeza étnica contra a população kosovar de origem albanesa. “A guerra na Bósnia foi caracterizada pela violência hedionda e pela limpeza étnica, via expulsão, agressão, assassinatos, tortura, estupros e massacres, o que levou à reorganização populacional em regiões de população homogênea”, diz Andréa Carolina Schvartz Peres, antropóloga social e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Com o fracasso das negociações, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) iniciou uma campanha militar contra a Iugoslávia e bombardeou o país por mais de dois meses, derrotando Milosevic. As forças iugoslavas foram retiradas de Kosovo. O Quadro Geral para a Paz na Bósnia e Herzegovina, também conhecido como Acordo de Dayton, encerrou oficialmente a guerra entre sérvios, croatas e muçulmanos em 21 de novembro de 1995.

Um novo mapa

Com a retirada de Milosevic do poder, a região ficou sendo administrada pela Missão de Administração Interina das Nações Unidas no Kosovo (UNMIK) até 2001. Durante esse tempo, vários conflitos entre as etnias tiveram que ser contidos na região. Os conflitos somente acabaram após anos de negociações com intervenção internacional e com o desmembramento do território em vários países.

Hoje o mapa da região está completamente transformado. A partir da antiga Iugoslávia, seis países foram criados: Bósnia e Herzegovina, Croácia, Montenegro, República da Macedônia, Sérvia e Eslovênia. Também foram criadas duas províncias autônomas: Voivodina e Kosovo.

A situação de Kosovo ainda é controversa: em 2008, a região se declarou independente em relação à Sérvia e enviou cartas para todos os países do mundo solicitando o reconhecimento. Até o início deste ano, a República de Kosovo tinha recebido 109 respostas diplomáticas que a reconheciam como Estado independente. A Sérvia, no entanto, ainda não reconheceu a independência da região.