Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Bruna Garabito
Por Mariana Castro Alves
17/9/14

Foi um tsunâmi que levou duas jovens de classe média alta, de 15 e 17 anos, a serem sequestradas por uma quadrilha internacional de tráfico de pessoas. A enorme onda que atingiu o leste da Índia em 2004 destruiu a casa e matou os pais e a avó das meninas, numa bela manhã de sol. Em meio à devastação, ao tentarem chegar de carona ao colégio de freiras em que estudavam, uma terrível fatalidade fez com que elas fossem aprisionadas e levadas a destinos bem diferentes daqueles traçados pela casta da família indiana.

A partir de uma tragédia natural, o livro Cruzando o Caminho do Sol, de Corban Addison, percorre as entranhas da escravidão moderna. Das paisagens bucólicas vindas das lembranças de uma infância feliz e sem sobressaltos, o romance se embrenha em fétidos e inesperados porões escuros, cozinhas escondidas, corredores e quartos trancados de grandes cidades como Mumbai (Índia), Paris (França) e Atlanta (Estados Unidos).

A trama é conduzida por Thomas Clarke, no início da história,  um advogado ambicioso e oportunista que só pensa em conseguir um cargo federal em Washington (EUA). No entanto, ao longo da narrativa, o personagem tem sua vida transformada por uma série de acontecimentos que acabam mudando os rumos da sua vida e o levando para a Índia a fim de trabalhar em uma ONG que luta contra a prostituição forçada em países em desenvolvimento.

O enredo: Em Mumbai, o advogado Thomas Clarke encontra Ahalya, que pede que ele traga de volta Sita, sua irmã mais nova. Ahalya havia sido resgatada em uma operação policial que invadiu o prostíbulo onde se encontrava. No entanto, quando o bordel cheio de beshyas – como são chamadas as prostitutas na Índia – foi desbaratado, Sita já tinha sido levada a Paris.

Na França, Sita trabalha na limpeza de um restaurante. Sem salário, ela é maltratada, passa fome e frio. Vendida novamente, as pessoas da rede criminosa que a aprisionam obrigam a transportar drogas para os Estados Unidos, onde mais violência a espera, seja pela exposição de seu corpo para venda de vídeos em sites de pedofilia ou na constante ameaça do abuso sexual. Enquanto isso, Thomas Clarke segue incansável na busca de Sita.

A narrativa penetra os subterrâneos de um mundo perturbador habitado por traficantes, funcionários públicos corruptos e mulheres e crianças brutalizadas. O livro mostra como a tecnologia contribui para tornar o tráfico humano um clima global. É também a tecnologia que ajuda a solucionar a trama do livro: é um hacker que trabalha para o FBI que ajuda a encontrar o endereço do proprietário do site de pedofilia.

Mesmo com o risco de spoiler, ou seja, de revelar o fim do romance, destacamos que as personagens carregam referências da geopolítica recente. Após o colapso da União Soviética, máfias teriam se dedicado ao tráfico de pessoas, passando a negociar principalmente meninas da Europa Ocidental.

Apesar das restrições de fronteira do pós-11 de Setembro, a escravidão no mundo persiste, na medida em que a demanda pela compra de pessoas continua sendo uma realidade. No livro do norte-americano, a rede é comandada provavelmente por um ex-alto funcionário da Stasi, polícia secreta da Alemanha comunista.

Trata-se de ficção, mas com elementos autobiográficos: Thomas Clarke é o alter ego do autor Corban Addison, que, além de escritor, é também um advogado que se interessa por causas humanitárias, como o fim da escravatura contemporânea.

 

ADDISON, Corban. Cruzando o Caminho do Sol. Ribeirão Preto, SP: Novo Conceito Editora, 2012.