Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Reprodução
Silvana Vilodre Goellner
11/6/14

O futebol é o tema do momento. A realização da Copa do Mundo da Fifa em nosso país tem possibilitado observar esse esporte a partir de diferentes perspectivas. Escreverei sobre uma delas: a participação das mulheres.

Você sabia que, desde os primórdios do futebol no Brasil, as mulheres já compareciam aos jogos? Inicialmente como espectadoras e em seguida como praticantes. Aliás, o termo “torcedor” origina-se da presença das mulheres nos campos e estádios de futebol no início do século XX, visto que elas iam a esses espaços trajando vestidos, luvas e chapéus. Em função do calor, algumas delas tiravam as luvas e, quando nervosas com o decorrer da disputa, torciam-nas. Passaram então a ser designadas como “torcedoras”, palavra que foi apropriada pelo vocabulário futebolístico brasileiro.

Afora essa participação, datam de meados de 1920 os registros das primeiras partidas de futebol disputadas entre mulheres. Referir tal acontecimento é muito importante para entendermos algumas das desigualdades ainda existentes entre os homens e as mulheres neste campo específico. Em primeiro lugar, cabe destacar que há poucos registros sobre a presença das mulheres no esporte em geral e no futebol em particular. Tal fato acontece porque esta não era uma prática indicada para elas, porque era considerada como violenta para a natureza de seu sexo e para a conformação de seu corpo, identificado como frágil. Além disso, o futebol era observado como um elemento que poderia prejudicar uma função social que, naquele período, era reconhecida como o destino de toda mulher: a maternidade.

Esse pensamento promoveu a criação de um Decreto-Lei, assinado pelo presidente Getúlio Vargas em 1941, que proibia as mulheres de praticarem algumas modalidades esportivas, dentre elas o futebol. Tal interdição durou 38 anos, pois só foi revogada em 1979. Ou seja, por muito tempo as mulheres tiveram esse direito cerceado, o que não significa afirmar que deixaram de praticar o futebol. No entanto, como era proibido, quase não se encontram registros sobre a realização de campeonatos, a existência de times, de grupos, de associações e mesmo de jogadoras. Quem ousou infringir a lei, mesmo que em atividades não competitivas ou oficiais, foi colocada nas zonas de sombra, na invisibilidade.

Mulheres invisíveis

Passadas quase quatro décadas dessa interdição, a participação das mulheres em jogos de futebol tornou-se mais evidente. Ainda assim, a modalidade não conseguiu se desenvolver do modo como merece: não há um calendário organizado de competições, poucos clubes investem em equipes femininas, os espaços de lazer como parques e praças são majoritariamente apropriados para meninos e homens, a educação física escolar pouco investe no futebol como um conteúdo a fazer parte da educação corporal de meninas e adolescentes.

Tal cenário implica afirmar que as mulheres são sub-representadas no futebol brasileiro, têm pouca visibilidade e suas conquistas são simbolicamente anuladas porque são pouco comemoradas ou mesmo mencionadas na mídia, inclusive esportiva. Por exemplo, você sabia que a Copa do Brasil de Futebol Feminino acontece desde 2007 e já teve oito edições? Que o Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino de 2013 teve 20 equipes participantes? Que a Copa Libertadores da América de Futebol Feminino acontece desde 2009 e todas as edições foram realizadas no Brasil? Que o Brasil possui duas medalhas de ouro nos Jogos Pan-Americanos (Santo Domingo 2003 e Rio de Janeiro 2007) e uma de prata (Guadalajara 2011)? Que nossa seleção conquistou duas medalhas de prata nos Jogos Olímpicos (Atenas 2004 e Pequim 2008), o segundo lugar na Copa do Mundo de Futebol Feminino da China (2007) e o terceiro nos Estados Unidos (1999)?

O desconhecimento de muitas dessas conquistas permite ver o quanto é difícil para as meninas e mulheres se inserirem no futebol e nele serem reconhecidas. De norte a sul do país, são constantes as manifestações de que há pouca atenção direcionada a esse grupo por parte de entidades esportivas, de clubes privados, do poder público, da mídia e, principalmente, da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). As bem-sucedidas campanhas das jogadoras da seleção e de clubes nacionais, e a conquista inédita da jogadora Marta (única pessoa que já foi condecorada cinco vezes como a melhor do mundo pela Fifa) ainda não foram suficientes para tirar do ostracismo pessoas, grupos e instituições que constroem cotidianamente a história do nosso futebol.

Rompendo representações

Um dos discursos que comumente circula por várias instâncias sociais, inclusive pedagógicas, justifica as dificuldades de inserção de meninas e mulheres no futebol, porque este seria um esporte majoritariamente praticado por homens. Ou seja, é tido como um esporte viril, que pode colocar em perigo a feminilidade. Essa representação tem promovido consequências nefastas, se pensarmos na possibilidade de o futebol ser vivenciado como uma prática educativa, de lazer, saúde e sociabilidade.

Romper com essas representações significa entender que o futebol pode e deve ser apropriado para meninos e meninas, para homens e mulheres. Afinal, bolas e bonecas são objetos que fazem parte da educação deles e delas, pois, ao manuseá-los, aprenderão que masculino e feminino não são excludentes, mas complementares.

Voltando ao tema do futebol na Pátria das Chuteiras, gostaria de enfatizar que, a despeito das restrições e dos cerceamentos, as mulheres há muito estão presentes no universo cultural desse esporte. Vão aos estádios, assistem a campeonatos, jogam, treinam, fazem comentários, produzem e divulgam notícias, arbitram jogos, são técnicas, compõem equipes dirigentes. Enfim, participam intensamente do contexto futebolístico. Enxergar e reconhecer essa participação é necessário para que não deixemos esmorecer o sonho e o desejo de muitas meninas e mulheres que identificam no futebol um modo de afirmação, empoderamento e liberdade. Que esse seja um dos legados da Copa de Mundo da Fifa de 2014 e que, com ele, possamos minimizar as desigualdades de gênero vivenciadas nesse esporte que é culturalmente representado como uma paixão nacional: de homens e de mulheres!