Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Matheus Vigliar
Por Chris Bueno
3/10/14

2014 está sendo um dos anos mais secos do Brasil. As chuvas escassas estão prejudicando a agricultura, ameaçando o fornecimento de energia elétrica e fazendo com que o debate sobre as mudanças climáticas volte com força total. De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas Globais (IPCC), o aquecimento global é inequívoco. O fenômeno é causado por fatores naturais, mas é intensificado significativamente pela ação humana: o IPCC avaliou 577 trabalhos científicos, descrevendo cerca de 80 mil séries de dados, para chegar a essa conclusão. E as consequências já podem ser sentidas na pele.

A temperatura média do planeta subiu 0,7ºC ao longo do século 20. E não é só: esse aquecimento vem ocorrendo de maneira mais rápida nos últimos 25 anos. Em geral, espera-se uma elevação em torno de 4°C até o fim do século. Isso está desencadeando várias alterações em todo o planeta, como mudança no regime das chuvas; elevação do nível do mar (que deverá subir em média entre 18 e 59 cm até o final do século, consumindo regiões costeiras e até ilhas inteiras); e aumento na frequência de eventos climáticos extremos, como enchentes, tempestades, furacões e secas; além de interferir na agricultura e contribuir para o processo de desertificação.

No Brasil, o clima ficará mais quente (com aumento gradativo e variável da temperatura média em todas as regiões do país entre 1oC e 6oC até 2100) e o regime de chuvas também vai mudar: as precipitações diminuirão significativamente em grande parte das regiões central, Norte e Nordeste do país; e aumentarão nas regiões Sul e Sudeste. Isso é o que aponta o primeiro Relatório de Avaliação Nacional (RAN1), lançado em 2013 pelo Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC).

“Estes estudos mostram que, no Brasil, a temperatura média aumentou aproximadamente 0,75°C até o final do século 20 (considerando a média anual entre 1961-90 de 24,9°C), sendo 1998 o ano mais quente”, afirmou o pesquisador José Marengo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), durante a 1ª Conferência Nacional de Mudanças Climáticas Globais (Conclima), que lançou o sumário executivo do relatório. 

Regiões diferentes, mudanças diferentes

O relatório aponta que, como o Brasil é um país de dimensões continentais, as mudanças climáticas não afetarão da mesma forma todas as regiões. “De modo geral, é possível perceber um aumento nas temperaturas em todo o país, porém com intensidades diferentes em cada região. Já o regime de chuvas será diferente, com regiões tendo diminuição no volume de precipitações e outras tendo aumento”, explica o meteorologista Tercio Ambrizzi, professor de Instituto de Astronomia Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP e um dos coordenadores do Grupo de Trabalho 1 do RAN1.

Na região Norte, a temperatura deverá aumentar de 1oC a 6oC até 2100, com diminuição de 40% a 45% no volume de chuvas. No entanto, os pesquisadores sugerem que o desmatamento da Amazônia é uma questão mais urgente, tanto para proteger o bioma quanto para evitar o agravamento das mudanças climáticas. Caso o desmatamento alcance 40% na região no futuro, haverá uma mudança drástica no padrão do ciclo hidrológico, com redução de 40% na chuva durante os meses de julho a novembro – o que prolongaria a duração da estação seca e provocaria o aquecimento superficial do bioma em até 4oC, de acordo com o relatório.

As temperaturas terão um aumento relativamente baixo, e em ritmo mais lento, na região Nordeste: entre 0,5oC e 4oC até 2100, sendo que o maior aquecimento acontecerá no final do século. As chuvas também diminuirão em taxa menor, ficando em torno de 10% a 35% no período.

Já as regiões Sul e Sudeste seguem uma tendência diferente, com aumento relativamente baixo das temperaturas e crescimento do número de chuvas. De acordo com o relatório, essas regiões ficarão entre 0,5oC e 3oC mais quentes até 2100, e entre 25% e 30% mais chuvosas. A região Centro-Oeste deve seguir a mesma tendência, com projeção da elevação das temperaturas entre 3oC e 6oC no período e aumento no volume de chuvas. Muitas dessas mudanças já podem ser sentidas. Em São Paulo, por exemplo, a temperatura mínima (durante a madrugada) aumentou nos últimos anos, ou seja, estamos tendo madrugadas mais quentes.

Impacto

Essas mudanças no clima trarão uma série de impactos em diversos setores, como nos recursos hídricos, na geração e distribuição de energia, e na agricultura. Não apenas a quantidade, mas também a qualidade dos recursos hídricos está comprometida. Entre os problemas a serem enfrentados, está o risco de colapso no abastecimento de água em várias regiões urbanas, devido a estiagens mais prolongadas; maior risco de inundações; elevação do nível do mar e entrada de água salina nos lençóis subterrâneos que abastecem grande parte das cidades litorâneas e intensificação dos efeitos da poluição nos corpos hídricos, reduzindo ainda mais a disponibilidade e a qualidade hídrica. “Mesmo nas áreas em que houver aumento de vazão, prevê-se uma diminuição da qualidade, tanto pelo aumento da temperatura como pela elevação da carga poluente proveniente do escoamento superficial e da superação da capacidade das estações de tratamento e dos sistemas de esgotamento sanitário”, apontou o engenheiro agrônomo Eneas Salati, diretor-técnico da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável, durante o 1º Conclima.

A energia também é um ponto preocupante. Como as hidrelétricas são responsáveis por 85% da geração de eletricidade no Brasil, a redução do volume das chuvas em grande parte do país acarretará perdas significativas. Até mesmo o biocombustível sentirá o impacto, já que a elevação das temperaturas e a diminuição das chuvas inviabilizarão culturas como mamona e soja, sobretudo no Nordeste e no Centro-Oeste, fazendo com que essas culturas migrem mais para o Sul.

A agricultura também será afetada, com muitas culturas tendo que se deslocar devido às temperaturas elevadas e à estiagem. Culturas como feijão, soja, trigo e milho serão especialmente atingidas, sofrendo grandes reduções de área de plantio e deslocamento para regiões mais frias. “Com as mudanças climáticas, as zonas agrícolas do país deverão ser repensadas”, afirma Ambrizzi.

Ainda há tempo

Mas os pesquisadores apontam que ainda há tempo de mudar esse cenário. Existe uma série de ações que podem ser tomadas para mitigar o impacto das mudanças climáticas e minimizar suas consequências. O primeiro passo é reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE). Caso os níveis desses gases continuem a aumentar na atmosfera, as alterações climáticas serão ainda mais severas. “O problema é que esses gases permanecem na atmosfera por cerca de 50 a 100 anos. Então os gases já emitidos demorarão a ser dissipados. Por isso, a redução das emissões é de extrema importância”, declara Ambrizzi.

Para contribuir com a diminuição da emissão de gases de efeito estufa, governo e sociedade precisam pensar em fontes de energia limpa, além de novos modelos para a indústria e o transporte. Outra ação importante consistirá em brecar o desmatamento e a exploração ilegal de madeira, já que esses fatores contribuem mais para as emissões globais do que o setor dos transportes. “Temos que continuar tentando diminuir as emissões para que seja possível manter o nível de elevação da temperatura o mais baixo possível para daqui a 100 anos ou mais. A discussão agora é tentar não passar de um limiar aceitável e tentar nos adaptar a essas mudanças”, acredita Ambrizzi.