Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

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Por Meghie Rodrigues
3/8/16

“Os dois jogaram a mesma quantidade de jogos. Ela e ele, eleitos os melhores jogadores da competição. Reflitam”. O tuíte, escrito pela internauta Linoca no dia 17 de julho, chamou a atenção e teve mais de 2.500 compartilhamentos. Com a mensagem, uma foto colocando, lado a lado, o prêmio recebido pelo melhor jogador da Liga Mundial de vôlei e pela melhor jogadora do Grand Prix, o equivalente feminino da Liga. O sérvio Marko Ivovic recebeu 30 mil dólares e a brasileira Natália Pereira, metade do valor.  A seleção vencedora da Liga Mundial levou US$ 1 milhão pelo título – cinco vezes mais do que recebeu a seleção premiada com o Grand Prix. Ambos os campeonatos são promovidos pela Federação Internacional de Vôlei, que segundo seu representante, recebe mais patrocínios pela competição masculina do que pela feminina – e que está analisando a situação para diminuir a diferença.

A discrepância na remuneração entre homens e mulheres não se restringe às premiações esportivas. Dados da última série anual da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que, em 2015, as brasileiras receberam 75,4% do salário dos brasileiros – ou 24,6% a menos, em média. No Brasil, a desigualdade também se reflete na taxa de ocupação: ainda de acordo com o IBGE, 57,4% dos homens com mais de 14 anos estavam empregados no primeiro trimestre deste ano – contra 42,6% de mulheres na mesma faixa etária. Na distribuição populacional, as brasileiras perfazem 52,2% da população com mais de 14 anos, enquanto os brasileiros somam 47,8% desse total.

Em países vizinhos, a situação não é muito diferente: de acordo com a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL), embora as diferenças salariais entre homens e mulheres tenham diminuído entre 1990 e 2014 na região, elas ainda recebem em média 16% menos que eles exercendo a mesma função. De acordo com o órgão, o ganho foi maior entre as mulheres com menor escolaridade (com até cinco anos de instrução). A formalização do trabalho doméstico foi um dos fatores que elevou o ganho delas para 77,9% do salário de homens na mesma posição, em 2014, se comparados com os 58,2% que recebiam em 1990. As latino-americanas com 13 anos de estudo ou mais, no entanto, enfrentam uma diferença salarial ainda maior, que pode chegar até 25,6%.

Um fator que poderia, em parte, explicar a discrepância entre rendimentos de profissionais com alta escolaridade é a ideia tradicional de papeis de gênero – não tanto a discriminação direta e deliberada por parte dos colegas no meio de trabalho. Em um estudo recente sobre diferenças salariais entre advogados e advogadas nos Estados Unidos entre 2000 e 2010, Ghazala Azmat, professora de economia na Universidade Queen Mary, de Londres e Rosa Ferrer, professora da Universidade Pompeu Fabra, na Espanha, observaram que mulheres que trabalhavam menos horas por terem filhos pequenos recebiam proporcionalmente menos. E seus colegas advogados também cobravam em média 10% a mais aos clientes por suas horas de trabalho. Aspirações de carreira, de acordo com as pesquisadoras, também são um fator que aumentaria a diferença salarial entre homens e mulheres – eles estariam 10% mais propensos a se tornarem sócios do escritório onde trabalham do que suas colegas. Estes fatores, escrevem as pesquisadoras, “estão associados a formas sutis de discriminação, tal como a aceitação de papeis de gênero tradicionais”.

Invisibilidade

Para Maria Coleta de Oliveira, professora do Departamento de Demografia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o grande problema é a invisibilidade do preconceito de gênero. “Existe uma inércia do preconceito que, muitas vezes, não é percebido como tal porque foi naturalizado como um traço inato da sociedade”. Para ela, a percepção geral de que as mulheres “têm mais jeito para o cuidado” atrapalha a progressão na carreira porque coloca os homens como incapazes de exercer esse cuidado tão bem quanto elas. “É uma visão mais arraigada do que nos damos conta”, diz. As mulheres em posições de alta performance ainda precisam enfrentar um dilema antigo: optar pela carreira ou pelos filhos. Oliveira considera que, mais que uma demanda reprimida por mecanismos de anticoncepção, o problema do Ocidente industrializado hoje é a demanda reprimida por filhos. “Há pesquisas em vários países que mostram que as mulheres declaram que têm menos filhos do que gostariam de ter” – o que contribui para as quedas constantes nas taxas de fertilidade de países desenvolvidos e em desenvolvimento. O que é um pouco diferente na França, país precursor na queda das taxas de fecundidade no Ocidente. “Vê-se que lá há uma especialização feminina: quem não tem filho, não tem. Quem tem, tem três”, conta a pesquisadora.

Um longo caminho para igualdade

Não apenas ainda não chegamos a uma situação ideal em termos de igualdade de salários para homens e mulheres, como pode ser que demoremos a alcançá-la. De acordo com o último Índice Global de Desigualdade de Gênero, lançado pelo Fórum Econômico Mundial, no fim do ano passado, o mundo ainda vai levar 118 anos para fechar a distância que existe entre homens e mulheres no que concerne direitos em saúde, educação, política e economia. O estudo avaliou 145 países, considerando estatísticas e políticas públicas nas quatro áreas com foco na diferença de gênero. A Islândia é o país mais próximo da paridade, vindo no topo da lista – e o Iêmen o mais distante, como último colocado. O Brasil se encontra na 85ª posição do ranking – bem atrás de países como Argentina (35º) e Colômbia (42º) – e caiu 14 posições em comparação com 2014, quando ocupava o 71º lugar da lista (que abrangia 142 países). Com a crise política, é possível que o Brasil caia ainda mais posições na próxima edição do relatório: de acordo com um cálculo feito a pedido da BBC Brasil para o Fórum Econômico Mundial, a falta de mulheres à frente de ministérios poderia levar o país apara a posição 107 da lista.

O que nosso atual 85º lugar neste índice mostra é que, por um lado, o Brasil conseguiu um alto nível de paridade entre gêneros em termos de saúde e educação: estaríamos quase no topo da lista se estes fossem os únicos critérios – há mais mulheres matriculadas no ensino superior que homens (1,2 mulher para cada homem) e a expectativa de vida saudável delas, em relação à deles, também é maior: 68 anos e 63 anos, respectivamente. Por outro lado, ainda há muito o que se fazer quanto à igualdade de gênero na política (cerca de 90% do nosso parlamento é composta de homens) e na economia. Neste quesito, o relatório dá conta de que, para cada US$1 recebido por uma brasileira, o brasileiro ganha US1,69 – quase 70% a mais. Se este fosse o único critério de avaliação, estaríamos na 133ª colocação. Na Islândia, a diferença é de US$1,12 masculinos para cada US$1 feminino.

A desigualdade de gênero pode, ainda, estar causando grandes prejuízos à economia mundial. De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), estima-se que a discriminação de gênero induza uma perda de US$12 trilhões (cerca de R$40 trilhões) ou 16% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. A paridade na participação feminina na força de trabalho nos países da OCDE geraria, segundo a organização, um incremento de 12% para a economia global pelos próximos vinte anos.

Uma equação complexa

A paridade salarial entre homens e mulheres, de acordo com Oliveira, é uma das várias arestas que precisam ser aparadas no universo mais abrangente da equidade de gênero. Um estudo que ela desenvolveu em conjunto com Joice Vieira e Gláucia Marcondes, pesquisadoras do Núcleo de Estudos da População da Unicamp (NEPO), aponta dois caminhos para diminuir as diferenças de gênero no mercado de trabalho: incentivar mulheres a buscar carreiras consideradas ‘masculinas’ e a valorização salarial de funções tidas como ‘femininas’. Elas observam que, “embora não mutuamente excludentes, as políticas de promoção da igualdade de gênero tendem a privilegiar o primeiro” – o que teria, como efeito colateral, uma desvalorização ainda maior das funções exercidas majoritariamente por mulheres, como saúde e educação. Isso, segundo elas, poderia “acentuar desafios futuros relativos ao provimento de cuidados para uma população que envelhece e tenderá a requerer profissionais exatamente em áreas de pouco reconhecimento e valorização no mercado”.

A percepção de Oliveira é de que, mesmo diante dos retrocessos que o pais tem atravessado, tem-se falado mais sobre gênero na esfera pública – e que o feminismo, que deu contribuições essenciais a diversos progressos sociais, precisa pensar suas bandeiras para avançar ainda mais neste debate e minorar preconceitos. Para ela, se faltam mulheres na chefia de ministérios, não basta colocar alguém com um posicionamento retrógado, desde que seja mulher. “Prefiro um homem progressista a uma mulher pastora chefiando um ministério”, alfineta.

A equação que vai resultar em equilíbrio entre gêneros na esfera pública, pelo que parece, tem ainda um longo caminho a percorrer – e a paridade de salários é uma de suas facetas mais palpáveis e visíveis.