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Nº.61 UNIVERSO Dez.2016 | Jan.2017

Shutterstock Fotos
Por Nicolau Schoenmaker e Mariana Garcia de Castro Alves
6/4/16

Ele foi recusado pelos primeiros modernistas brasileiros que não queriam escrever “aprisionados” em seu formato fixo. Posteriormente, no entanto, poetas como Manuel Bandeira (1886 – 1968) e Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987) retornaram a ele. Vinícius de Moraes (1913 – 1980) tornou-se um grande explorador e ainda ajudou a forma poética. Estamos falando do soneto, onde a poesia se encontra com a matemática.

Sempre com 14 versos, o soneto pode ser distribuído em algumas formas fixas. Em sua configuração mais conhecida, divide-se em duas quadras (duas estrofes de quatro versos cada) e dois tercetos (duas estrofes de três versos cada). Nesse caso, trata-se do soneto italiano, que tem em Francesco Petrarca (1304 – 1374) seu maior representante, já que alguns especialistas o consideram o inventor do soneto. No entanto, no século XIII o poeta siciliano Giacomo da Lentini (1210- 1260) já teria escrito poemas neste formato.

 

Se amor não é qual é este sentimento?
Mas se é amor, por Deus, que coisa é a tal?
Se boa por que tem ação mortal?
Se má por que é tão doce o seu tormento?

Se eu ardo por querer por que o lamento
Se sem querer o lamentar que val?
Ó viva morte, ó deleitoso mal,
Tanto podes sem meu consentimento.

E se eu consinto sem razão pranteio.
A tão contrário vento em frágil barca,
Eu vou para o alto mar e sem governo.

É tão grave de error, de ciência é parca
Que eu mesmo não sei bem o que anseio
E tremo em pleno estio e ardo no inverno.

Francesco Petrarca
in “Poemas de amor de Petrarca”

 

Escrevendo e contando

O soneto também pode ter três quartetos (três estrofes de quatro versos cada) e um dístico (uma estrofe de dois versos), forma adotada por William Shakespeare (1564-1616), mundialmente reconhecido como dramaturgo, mas que também era poeta. Menos conhecido é o soneto monostrófico, que apresenta uma única estrofe de 14 versos. O pai de Dom Quixote, Miguel de Cervantes (1547–1616), incorporava um ou mais versos ao final dos seus poemas, mas aí o soneto era irregular e, por isso, chamado de estrambótico.

Além da estrutura da distribuição das estrofes e versos, o número de sílabas também é fixo, ou seja, ao escrever, o poeta tem que contar as sílabas poéticas. Os versos podem ser decassílabos heroicos (dez sílabas poéticas, com as sílabas tônicas nas posições 6 e 10, obrigatoriamente) ou sáficos (em que as sílabas tônicas estão necessariamente nas posições 4, 8 e 10). Se dodecassílabo (com doze sílabas poéticas), as tônicas devem estar na posição 6 e 12. Nas quadras, as rimas podem ser alternadas (abab), opostas (abba) ou emparelhadas (aabb). Apesar de todo esse aparato, a relação do soneto com a matemática vai além.

Dialética

Conforme explica Rogério Chociay, professor do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), de São José do Rio Preto, o soneto é caracterizado por uma estrutura dialética, com início, meio e fim. “Essa é a principal relação que o soneto tem com a lógica e a matemática”, afirma. Sua composição envolve um raciocínio que parte de uma premissa para chegar a determinada conclusão. “Os antigos diziam que o soneto começa com uma “chave de prata” – um verso que chama bastante a atenção e introduz um desenvolvimento – e termina com uma “chave de ouro” – uma conclusão que dá todo o status ao soneto”, explica Chociay. Em Camões, por exemplo, percebe-se essa estrutura. “Quanto mais forte for a conclusão, mais bem caracterizado será o soneto”, complementa o professor da Unesp.

No entanto, segundo ele, “não basta só partir de determinada afirmação para chegar numa certa conclusão. É preciso ter o lirismo do poeta”. Portanto, para Chociay, é necessária uma composição da lírica com a dialética. A lírica compõe a parte sentimental e emocional do poeta. Assim, para ser soneto, é preciso uma carga de emoção. “Se não o texto seria apenas um exercício de raciocínio”, conclui.

Números não bastam

Já para Flávio Kothe, professor de teoria literária na Universidade de Brasília (UnB), ritmos, acentuações, rimas e assonâncias mantêm certa musicalidade, presente de modo nebuloso na origem do soneto: “som e tempo se tornaram aí um formato espacial, como se fossem um esqueleto, estrutura de concreto armado, a ser preenchida com a massa das palavras”, descreve. Esse esqueleto formal pode ser descrito em termos numéricos, mas isso não é suficiente. “Não é possível criar uma obra de arte por meio de um algoritmo. “Produzir um texto segundo as regras do soneto não é garantia de qualidade. O real não se reduz ao quantitativo. Na arte, o que mais importa é a qualidade”, declara. Para ele as artes têm vida e se movimentam pela imperfeição: “supor que 2 + 2 = 4 parece exato, mas dois ninhos com dois ovos cada não são a mesma coisa que um ninho com quatro ovos”, diz. “A matemática iguala o semelhante, desprezando o dessemelhante, como se ele não fosse relevante nem significativo. A obra de arte, ao contrário, se constrói com pequenas diferenças que acabam determinando a sua qualidade”, afirma. Por isso o pesquisador da UnB questiona se seria válido ainda propor uma fórmula rígida para um texto poético. “Isso parece cada vez mais problemático se não existem verdades absolutas, dogmáticas, definitivas”, diz.

Permanências

Já para Rogério Chociay, a adoção de formas fixas e versos tradicionais não impedem que um poema seja moderno. “O modernismo está na linguagem, no discurso que traz a concepção de seu tempo e não nas formas”, atesta. Para ele, é um preconceito achar que as formas fixas engessam o poema, no entanto, “infelizmente ainda hoje essa ideia predomina na crítica, inclusive no ensino universitário”, destaca.

Augusto dos Anjos e o já citado Luís de Camões são poetas que fizeram uso do soneto. No Brasil um dos principais adeptos desse formato é Olavo Bilac (1865-1918), que escreveu poemas no contexto do movimento parnasiano que, em meados do século XIX, pregava o preciosismo, a objetividade e a arte pela arte. De acordo com Chociay, no entanto, ainda ao longo desse movimento o soneto começa a perder sua força como forma poética, na medida em que os poetas parnasianos se perdiam numa lírica descritiva que enfraquecia a estrutura dialética do soneto. Com o simbolismo, que chegou ao Brasil no final do século XIX, e cujos poetas rejeitavam a objetividade, adotando uma atitude irracional e mística, essa tendência de enfraquecimento do soneto se acentua.

No Modernismo, muitos poetas questionam a metrificação tradicional do soneto, porém boa parte deles, segundo Chociay, continuou a escrever poesias nesse formato. Com Guilherme de Almeida (1890-1969), Jorge de Lima (1893-1953) e Vinícius de Moraes (1913-1980), o soneto se mantem “em boa forma”, de acordo com o professor da Unesp. Vejamos o exemplo do Soneto XV do Canto I (Fundação da Ilha) da Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima:

A garupa da vaca era palustre e bela,
uma penungem havia em seu queixo formoso;
e na fronte lunada onde ardia uma estrela
pairava um pensamento em constante repouso.
 
Esta a imagem da vaca, a mais pura e singela
que do fundo do sonho eu às vezes esposo
e confunde-se à noite à outra imagem daquela
que ama me amamentou e jaz no último pouso.
 
Escuto-lhe o mugido — era o meu acalanto,
e seu olhar tão doce inda sinto no meu:
o seio e o ubre natais irrigam-me em seus veios.
 
Confundo-os nessa ganga informe que é meu canto:
semblante e leite, a vaca e a mulher que me deu
o leite e a suavidade a manar de dois seios.

O poema mostra sua modernidade ao combinar  uma descrição inicialmente pomposa de uma vaca e terminar com a lembrança prosaica de sua ama de leite, explica Chociay.

Sem dúvida o sonetista mais famoso da literatura brasileira é Vinícius de Moraes. De acordo com Kothe ele conseguiu ser ao mesmo tempo erudito e popular, “mas o espírito dele não está em reforçar a “mentalidade sonetista”. Seu poema mais famoso tem uma variante pornográfica, que ele mesmo assumia, e que fica mais interessante exatamente pelo contraste entre o empertigado da forma e a ousadia do conteúdo”, ilustra. Entre os diversos poemas com tal variante pornográfica, pode-se citar o “Soneto da Devoção” (1938).

Soneto de devoção

Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! — uma cadela
Talvez... — mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!

 Fonte:  http://www.viniciusdemoraes.com.br