Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

"A Escola de Atenas", Rafael (1506-1510)
Por Chris Bueno
20/5/15

Trazer à luz. Dar à luz. Ter uma luz. A luz, fenômeno físico imprescindível para a vida na Terra, também carrega uma imensa carga metafórica. Religiões, estudiosos e a sabedoria popular de várias culturas interpretam a luz de diversas formas, conectando-a com a vida, com o conhecimento e com o divino.

A luz é tão importante que a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) decretaram 2015 o Ano Internacional da Luz – uma iniciativa mundial para destacar a importância da luz e das tecnologias ópticas na vida dos cidadãos e no desenvolvimento das sociedades. Mas as discussões não ficarão apenas no âmbito científico e tecnológico: elas também destacarão o aspecto cultural e a representação que a luz assume para diversas nações.

Para muitas culturas, a luz simboliza a própria vida. A expressão “dar a luz” é um bonito modo de dizer que alguém que estava no escuro do útero é trazido para a luz do mundo. Muitas culturas também contrapõem a luz da vida à escuridão, que representaria a morte.

A luz da razão

Trazer à luz ou lançar luzes sobre um assunto significa tirá-lo das trevas da ignorância, da superstição, do desconhecido, e interpretá-lo pela razão. Já em 400 a.C., o filósofo e matemático grego Platão relacionava a luz ao conhecimento. Para ele, as percepções no mundo exterior, à luz do sol, correspondiam ao mundo inteligível, isto é, ao conhecimento produzido pelo intelecto, à luz da razão.

Essa analogia se popularizou com o Iluminismo, movimento que surgiu durante o século XVIII, na Europa. O Iluminismo defendia o uso da razão contra o antigo regime, sendo um movimento de reação ao absolutismo europeu, que tinha como característica o extremo controle tanto pela Igreja como pelo governo.

A Idade Média por muito tempo foi chamada de idade das trevas. Isso porque o conhecimento da época era controlado pela Igreja Católica, que impunha a fé como o único caminho a ser seguido e impedia o desenvolvimento cultural, científico e tecnológico. O termo acabou sendo abandonado conforme pesquisas sobre o período revelaram toda a riqueza do conhecimento da Idade Média.

Os iluministas defendiam um conhecimento não controlado pela Igreja, mas pelos homens, e não baseado na fé, mas sim na razão. “O iluminismo foi um movimento filosófico, político, social, econômico e cultural que defendia o uso da razão como o melhor caminho para a liberdade, a autonomia e a emancipação do homem”, aponta o filósofo Paulo Roberto Monteiro de Araujo, professor de filosofia do Programa de Pós-graduação em Educação, Arte, História e Cultura, da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “E ele promoveu mudanças políticas, econômicas e sociais profundas”, afirma.

O Iluminismo defendia a liberdade econômica, ou seja, sem a intervenção do Estado; a liberdade religiosa, sem o controle da Igreja Católica; e a liberdade do ser humano, baseada no antropocentrismo, que coloca o homem como o centro das ações e das expressões culturais, históricas e filosóficas.

Apesar de ter sido um movimento que se refletiu por quase todo o mundo ocidental, o Iluminismo teve características diversas em diferentes regiões. “A França, que foi o berço do movimento, demonstrava uma preocupação maior em sistematizar o conhecimento através da elaboração da Enciclopédia (obra composta por 35 volumes que sumarizava o conhecimento da época e foi impressa entre 1751 e 1780). Na Inglaterra, o Iluminismo teve uma característica mais científica. Já na Alemanha, havia uma preocupação em compreender o próprio homem de modo racional”, explica Araujo.

No Brasil, os ideais iluministas também estiveram presentes. Foram esses ideais, aliás, que motivaram movimentos separatistas como a Inconfidência Mineira (Minas Gerais, 1789), a Conjuração Fluminense (Rio de Janeiro, 1794), a Revolta dos Alfaiates (Bahia, 1798) e a Revolução Pernambucana (Pernambuco, 1817), que tiveram grande importância no desenvolvimento político no Brasil.

Os pensadores iluministas promoveram uma verdadeira revolução cultural na história do pensamento moderno. Entre eles, destacam-se o inglês John Locke, os franceses François Marie Arouet (conhecido como Voltaire) e Charles de Secondat Montesquieu e o suíço Jean-Jacques Rousseau. Locke, considerado o pai do Iluminismo, defendia a razão e acreditava que o homem adquiria conhecimento através do empirismo. Voltaire, grande crítico da Igreja e da servidão feudal, defendia a liberdade de pensamento. Montesquieu trabalhou pela reforma política, defendendo que cada país deveria ter sua própria instituição política e propondo a doutrina dos três poderes – executivo, legislativo e judiciário –, cada um devendo agir de forma a limitar a força dos outros dois, para impedir que um se tornasse absoluto. Rousseau, um dos mais radicais, criticava a sociedade privada e defendia que apenas um Estado com bases democráticas poderia oferecer igualdade aos cidadãos.

E a luz da fé

Além do conhecimento, a luz remete também à espiritualidade. Para muitas religiões, a luz é vista como o símbolo da divindade.

No cristianismo, o livro do Gênesis – o primeiro da Bíblia – inicia-se com a criação do mundo e a separação entre a luz e as trevas. Desta forma, a luz é trazida ao mundo por Deus. No Antigo Testamento, são várias as analogias que colocam a luz como representação do bom e o divino, e a escuridão (as trevas) como o mau e o demoníaco. No Novo Testamento, o próprio Cristo afirma “eu sou a Luz do mundo”. O Papa Francisco, em sua carta encíclica Lumen Fidei (2013), afirma que “a luz da fé é a expressão com que a tradição da Igreja designou o grande dom trazido por Jesus”.

No judaísmo, a luz é vista como representação da sabedoria e do divino. O Menorá, um candelabro com sete braços, representa a luz divina se espalhando pelo mundo.

No budismo, a luz é símbolo de intensa espiritualidade e sabedoria. Significa estabilidade, clareza e paciência, a beleza que dissipa toda ignorância. De acordo com o lama Norlha Rinpoche, abade do Mosteiro Kagyu Thubten Chöling e diretor de centros de darma Dorje Chang Kyabje Kalu de Rinpoche, nos Estados Unidos, “o ato de oferecer luz simboliza queimar nossas aflições mentais de desejo, a agressão, a cobiça, a inveja, o orgulho e assim por diante. Assim como uma lâmpada dissipa a escuridão, oferecer luz representa remover a escuridão da ignorância, a fim de alcançar a sabedoria clara e luminosa de Buda”.

Já no islamismo, Deus é a Luz Perfeita. O Alcorão traz a ideia de que ’’Deus é a Luz dos céus e da Terra”. An-Nur é a luz das luzes, fonte de toda luz. No homem, a luz da alma é a consciência, sua escuridão é a inconsciência.

E o escuro?

Se a luz representa a vida, a razão e também a fé, à escuridão restou simbolizar a morte, a ignorância e o demoníaco. Mas isso não é verdadeiro em todas as culturas. Algumas compreendem a escuridão como complementar à luz.

Isso é bem representado pelo yin-yang, dois conceitos básicos do taoísmo (tradição filosófica e religiosa originária da China) que expõem a dualidade de tudo que existe no universo. O yang, representado pela cor branca, simboliza o princípio masculino, a atividade, o fogo e a luz. Já o yin, representado pela cor preta, simboliza o princípio feminino, a passividade, a água e a escuridão. No entanto, os dois se complementam. Segundo essa ideia, cada ser, objeto ou pensamento possui um complemento do qual depende para a sua existência. “Essa dualidade entre luz e sombras, noite e dia, vida e morte, razão e sensibilidade é muito antiga. Mais do que antagônicos, esses princípios são complementares”, finaliza Araujo.