Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

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Por Victória Flório
8/7/15

O que é a memória? Para a filosofia, ela está intimamente ligada à maneira como armazenamos informação e reconstruímos experiências passadas. Através da memória damos sentido às nossas experiências. Conforme define Ivan Izquierdo, professor titular do Departamento de Bioquímica do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), em conferência no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP, 1988), não há tempo sem um conceito de memória; não há presente sem um conceito do tempo; não há realidade sem memória e sem uma noção de presente, passado e futuro. “Memória é nosso senso histórico e nosso senso de identidade pessoal (sou quem sou porque me lembro quem sou). Há algo em comum entre todas essas memórias: a conservação do passado através de imagens ou representações que podem ser evocadas”.

O esquecimento é parte da formação da memória. De acordo com Wilson Jacob Filho, pesquisador do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP, ele está relacionado à aprendizagem, mas ainda não temos clareza de como funciona esse processo no cérebro. Sabe-se, no entanto, que a memória tem caráter seletivo, isto é, o cérebro escolhe o que lembrar. Para aprender alguma coisa, temos que esquecer outras. Existem ainda os chamados lapsos de memória, aqueles momentos em que alguma palavra ou nome nos escapam, eles são bastante comuns e podem acontecer em qualquer idade, podendo ser apenas uma distração ou mesmo sintoma de cansaço.

Com o passar do tempo, no entanto, nossa capacidade de armazenar informações e de lembrar vai se modificando. O processo de envelhecimento deixa o indivíduo mais suscetível a perdas cognitivas, que podem ser desde falta de atenção ou esquecimentos leves até perdas graves de memória, como a que ocorre como um dos sintomas da demência senil. Isso acontece, em parte, porque a atividade dos neurônios, que trabalham armazenando os acontecimentos na memória, torna-se mais lenta. Além disso, diminui a quantidade de informação armazenada. É por isso que, para um idoso, é mais fácil lembrar-se de uma poesia que conhece desde a adolescência do que de uma poesia que acabou de ler.

Memória e esquecimento

Segundo Alberto Macedo de Soares, que trabalha no Serviço de Geriatria do Hospital das Clínicas de São Paulo (HC-USP), até 30 ou 40 anos atrás se acreditava, erroneamente, que o esquecimento dos idosos se devia ao enrijecimento dos vasos cerebrais. No entanto, esse enrijecimento (a arteriosclerose) é responsável por somente 20% dos casos de perda de memória.

Existem pelo menos 30 tipos de enfermidades que levam ao comprometimento da memória. De acordo com Maria Helena Morgani de Almeida, especialista em gerontologia, do Departamento de Fisioterapia Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da USP, 50% dos idosos apresentam queixas frequentes com relação à memória. No entanto, a maioria deles não chega a desenvolver quadros graves de demência. Portanto, nem sempre a perda de memória é irreversível. Alguns fatores que podem levar a perdas de memória reversíveis são a depressão, tumores benignos ou mesmo um hematoma, causado por uma queda, em que o idoso bate a cabeça. Ainda segundo ela, é possível exercitar a memória do idoso através de exercícios especialmente formulados para essa faixa etária. Algumas instituições mantêm hoje as chamadas oficinas de memória, onde a memória do indivíduo é reestimulada e ele aprende técnicas que o ajudam a descobrir formas de guardar os elementos de seu cotidiano, evitando a perda de memória e o constrangimento que isso traz.

Mal de Alzheimer

Uma das doenças mais comuns na velhice, relacionada a lapsos de memória, é o Alzheimer, que acarreta perda de funções cognitivas como memória, orientação, atenção e linguagem, com dificuldade de se expressar e compreender os outros. De acordo com a Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz), é uma doença incurável que se agrava ao longo do tempo, mas que pode e deve ser tratada. Como ela quase sempre acomete pessoas idosas, a doença ficou erroneamente conhecida como “esclerose” ou “caduquice”.

O nome Alzheimer refere-se ao médico alemão Alois Alzheimer, o primeiro a descrever a doença, em 1906. Ele estudou e publicou o caso da sua paciente Auguste Deter, uma mulher saudável que, aos 51 anos, desenvolveu um quadro de perda progressiva de memória, desorientação, distúrbio de linguagem, tornando-se incapaz de cuidar de si. Após o falecimento de Auguste, aos 55 anos, o Dr. Alzheimer examinou seu cérebro e descreveu as alterações que hoje são conhecidas como características da doença.

Os pesquisadores não sabem ainda porque a doença se manifesta, mas já foram descritas duas características no cérebro de pacientes acometidos pelo Alzheimer. Eles apresentam as chamadas placas senis, decorrentes do depósito de proteína beta-amiloide, produzida de modo anormal; e os emaranhados neurofibrilares, fruto da hiperfosforilação da proteína tau. Outra alteração observada é a redução do número das células nervosas (neurônios) e das ligações entre elas (sinapses), com redução progressiva do volume cerebral. Mais de 35 milhões de pessoas no mundo apresentam o quadro da doença. No Brasil há cerca de 1,2 milhão de casos, sendo que a maior parte deles ainda não tem diagnóstico, segundo dados publicados pela ABRAz. Quando diagnosticada no início, é possível retardar o seu avanço e ter mais controle sobre os sintomas, garantindo melhor qualidade de vida ao paciente e à família.

Lei de uso e desuso

Wilson Jabob Filho lembra, no entanto, que o fato de existir um caso na família não significa que todos terão o mesmo destino. Segundo ele, casos familiares de Alzheimer são bastante raros. Nem todas as pessoas que envelhecem terão esse tipo de acometimento. “A maioria chegará ao limite da vida gozando de plena consciência e equilíbrio mental. Hoje sabemos que, quanto mais desenvolvida foi a atividade mental e intelectual, não necessariamente a escolaridade, quanto mais o indivíduo usou seu cérebro, quanto mais exercícios mentais fez, menor a probabilidade de desenvolver demência. E, se desenvolver, será postergado o início da doença”, afirma. Quando se trata de memória, a lei de uso e desuso também funciona. Ainda segundo o médico do serviço de geriatria do HC-USP, por outro lado, doenças sistêmicas que acometem o organismo como um todo são agravantes das doenças mentais. “Diabetes e hipertensão mal controlados, alcoolismo, tabagismo e, especialmente, as doenças vasculares cerebrais são fatores agressores ou de risco para doenças mentais. Portanto, o caminho a seguir para evitar que nos tornemos pessoas mentalmente limitadas no futuro é cuidar da saúde continuamente, evitar que doenças crônicas permaneçam sem controle e, acima de tudo, dar ao cérebro razões e motivos para estar constantemente funcionando, mesmo depois do término das atividades profissionais”, diz. “Aquele senhor que almejava vestir o pijama e ficar em casa depois da aposentadoria, ou a senhora cuja grande atividade mental é o cotidiano da cozinha ou uma sessão de tricô no fim da tarde estão permitindo que regrida a capacidade cerebral de ação entre os neurônios. Novas tarefas, novas vivências, novos projetos são sempre bem-vindos, quando se trata de preservar a atividade cerebral”.

Sinais da Doença de Alzheimer.

  • A pessoa repete as mesmas perguntas, faz as mesmas observações, fala sobre os mesmos assuntos;
  • Esquece onde guardou suas coisas; esquece datas comemorativas;
  • Não sabe onde está ou o ano em que está;
  • Não reconhece parentes e pessoas conhecidas;
  • Ouve vozes, enxerga coisas que não estão acontecendo e pode até desenvolver um quadro paranoico, em que acredita estar sendo perseguida, roubada, enganada;
  • Insônia e alteração de apetite.

Fonte: ABRAz

Referências

IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2009.

ABRAz – Associação Brasileira de Alzheimer

Almeida, M.H.M. et al. Oficina de memória para idosos: estratégia para promoção da saúde. Interface – Comunic., Saúde, Educ., Saúde, Educ. v. 11, n 22, p. 271-80, mai/ago 2007.

Dr. Drauzio- Entrevista – Memória/Esquecimento

Dr. Drauzio – Entrevista – Envelhecimento Saudável I

Dr. Wilson Jacob Filho é médico, diretor do Serviço de Geriatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

Dr. Drauzio – Entrevista – Memória nos Idosos

Dr. Alberto de Macedo Soares é médico geriatra. Trabalha no Serviço de Geriatria do Hospital das Clínicas de São Paulo e é professor de Geriatria da Faculdade de Medicina de Santos.

Izquierdo, Ivan. Memórias. Conferência no Instituto de Estudos Avançados da USP, 1988.