Nº.61 UNIVERSO Dez 2016 | Jan 2017

Por Patrícia Piacentini
14/10/15

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, quase oito milhões de jovens entre 15 a 29 anos viviam no campo, no Brasil (veja quadro abaixo). Embora o êxodo rural tenha diminuído de 1,31% no período 1990-2000 para 0,65% entre 2000-2010, o número de jovens que deixa o campo em todas as regiões brasileiras ainda é grande. Por que uma parcela dessa população, que poderia ter um futuro profissional no meio rural, prefere ir para as cidades?

Municípios rurais

De acordo com a professora Maria de Assunção Lima de Paulo, professora da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), é preciso reconsiderar os dados do IBGE sobre o número de jovens no campo levando em conta os denominados “municípios rurais”, aqueles emancipados por decreto e que ganharam o caráter de urbanidade através de leis. Isso porque o Instituto considera como urbano o espaço que tenha meio fio, rede de esgotos, escola e posto de saúde. “Nesses espaços, em geral com menos de 20 mil habitantes, boa parte da população vive da agricultura familiar e da pequena pecuária. Assim, se considerarmos esses pequenos municípios, suas sedes e distritos, teremos um número significativamente maior de jovens que poderiam ser considerados rurais”, pondera

Para Maria de Assunção, quando se trata da questão da fixação de jovens no campo, é necessário considerar problemas estruturais, como a concentração de terras, principalmente as agricultáveis, que compromete a sucessão geracional de forma digna, bem como a desvalorização social da agricultura familiar, especialmente a tradicional, mais presente no Nordeste do país. “Isso se deve ao modo como nosso processo de modernização e industrialização foi sendo construído. A desvalorização é reforçada pela escola, mesmo as que estão localizadas no meio rural: muitos professores, ao buscar incentivar os alunos a estudarem, os fazem refletir que a falta de estudo irá fazer com que sejam agricultores, desassociando educação de agricultura e relacionando o agricultor com o ignorante”, explica.

Velhas e novas relações com a cidade

Maria Regina Caetano Costa, pesquisadora de sistemas de produção agrícola familiar, da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), destaca que, até o final dos anos 1960, a agricultura era uma perspectiva viável de reprodução social para novas gerações. “Nos últimos anos, entretanto, este cenário mudou. Outras atividades, desvinculadas da agricultura, passaram a concorrer pela atenção dos jovens rurais. A educação formal passou a ser vista como uma estratégia para deixar a unidade familiar”.

O modelo familiar no campo, com forte base patriarcal faz com que os jovens, mulheres e crianças participem mais do trabalho e pouco das decisões da família, o que pode afastar a juventude do meio rural. “Isto é ainda mais grave quando nos referimos às mulheres jovens. Para elas migrar pode ser uma forma de escapar dessa dominação e concretizar outros projetos de vida com mais autonomia”, esclarece Maria de Assunção. Existe também uma vontade de mudar de vida, característica da população jovem. “Assim como os jovens que vivem no espaço urbano, o jovem que cresceu no campo pode ter vontade de sair para vivenciar outras experiências. Muitas vezes, isso não é definitivo, mas uma forma de construir, na cidade, as condições para voltar”, afirma a pesquisadora da UFCG.

De acordo o pesquisador da área de ciências sociais do desenvolvimento, agricultura e sociedade da UFPEL, Sérgio Botton Barcellos, é mais apropriado discutir as estratégias de mobilidade e de projetos de vida desse grupo social e não apenas a questão da migração ou de permanência do jovem em um espaço. Assim, outros fatores devem ser levados em conta quando se questiona a permanência dos jovens no meio rural como a transformação do espaço rural brasileiro e da sua relação com os centros urbanos, especialmente a partir da década de 1990. “A população tem mais condições de deslocamento e muitas vezes, ao invés de uma ‘ida sem volta’ para as cidades, muitos jovens saem do campo em busca de educação, serviços de saúde, atividades culturais e de lazer, ou para trabalhar em outras regiões do país, em culturas agrícolas sazonais, como o corte da cana de açúcar, citricultura, por exemplo, mas retornam ao rural com certa periodicidade”, diz.

Dados do IBGE mostram que pouco mais da metade dos jovens (15 a 29 anos) que vive no campo é formada por homens (53%) e que cerca de quatro milhões ou 50% do total dessa população está na região Nordeste. “Números do CadÚnico, da Secretaria Nacional de Renda de Cidadania, apontam que mais de 58% dos 8 milhões de jovens que vivem no campo estão em situação de pobreza e extrema pobreza. Destes, quase três milhões estão no Nordeste”, acrescenta Maria de Assunção.

As ocupações da juventude rural podem ser variadas, dependendo do gênero, idade e condições das famílias. “No Nordeste, são os homens jovens que mais deixam o meio rural. Eles saem em busca de trabalhos muitas vezes precários, como o corte da cana em outras regiões, a construção civil e outras ocupações que exigem menor grau de escolaridade. As jovens mulheres nordestinas permanecem no campo porque, com maior acesso à educação, elas conseguem se preparar melhor para os poucos empregos criados, como professora, auxiliar de enfermagem, agente de saúde. Já nas regiões Sul e Sudeste esses números se invertem: são as mulheres que deixam o trabalho no campo, o que tem levado a um processo de masculinização do campo”, explica a professora da UFCG.

Segundo Barcellos, os jovens que escolhem permanecer no contexto rural acreditam que o campo é um espaço mais saudável e com custo de vida menor do que nas cidades. Além disso, quando conseguem ter um pedaço de terra, mesmo que compartilhado com a família, podem ter mais autonomia. “Alguns estudam e trabalham, auxiliando nas tarefas domésticas, na manutenção do lote de terra, ou mesmo como mão de obra em outras propriedades ou em grandes monoculturas”, afirma.

Políticas públicas

Segundo Maria de Assunção, desde a criação do Conselho Nacional da Juventude, em 2005, que conta com a participação de conselheiros jovens do meio rural, e a criação da Secretaria Nacional da Juventude, no mesmo ano, com um grupo de discussões específico sobre juventude rural, o investimento em políticas públicas para essa população tem se ampliado, ainda que não seja suficiente. “O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e o Programa Nacional de Crédito Fundiário (PNCF) – linha jovem – que oferecem crédito agrícola para compra de terras, são exemplos desse tipo de investimento. Sérgio Barcellos cita ainda o Programa de Autonomia da Juventude Rural (Pajur), com ações para facilitar acesso dos jovens as tecnologias de informação, e o debate no governo federal dentro do Comitê Permanente de Políticas Públicas para Juventude Rural (CPJR), no Ministério de Desenvolvimento Agrário (MDA).

Segundo esse pesquisador, essas políticas públicas têm que ser elaboradas com a participação dos jovens e se adaptar à sua realidade, demandas e à diversidade dos seus projetos de vida. “Faltam políticas efetivas e consistentes de reforma agrária, subsídio agrícola, para educação e saúde, além de políticas que estimulem outras opções de trabalho não vinculadas estritamente à atividade agrícola, como esporte, cultura e lazer”, aponta Barcellos (veja quadro abaixo). A pesquisadora da UFCG, Maria de Assunção, concorda que exista um incipiente investimento em políticas públicas direcionadas para juventude rural: “Viver no meio rural não precisa significar viver da agricultura. Os jovens que vivem no campo sonham, como qualquer outro, com realização em outras profissões, porém as dificuldades de incentivo, deslocamento, informação limitam suas possibilidades de buscar desenvolver suas potencialidades”.

Caminhos alternativos para o jovem

Ao possibilitar mais rentabilidade nas propriedades, o uso de tecnologias no trabalho no campo pode ajudar o jovem a se fixar no meio rural. “No entanto, sabemos que, na agricultura familiar, o acesso à essa tecnologia não é simples devido ao custo e a falta de políticas para tal”, lamenta Maria de Assunção. Além disso, em geral nas grandes propriedades as inovações tecnológicas são poupadoras de mão-de-obra, ao mesmo tempo em que intensificam o uso do capital. “O resultado óbvio é que tem havido, no Brasil, um flagrante aumento da concentração da posse dos recursos produtivos e a consequente dispensa de jovens do meio rural”, destaca Costa.

Nesse cenário as tecnologias alternativas, de baixo custo, surgem como um caminho viável para os agricultores familiares, principalmente no Nordeste, como explica Maria de Assunção. “Ligadas ao plantio, captação e armazenamento de água e ao uso de insumos orgânicos, elas têm sido as verdadeiras responsáveis pela manutenção dos agricultores de forma digna”, afirma. Como são construídas dentro dos princípios da agroecologia, são acompanhadas de uma profunda reflexão sobre o campo, a agricultura e o agricultor, em um processo de valorização de seus conhecimentos e de afirmação de sua identidade. Na mesma linha de pensamento, Costa acredita que, com a ampliação dos mercados para produtos agrícolas de base ecológica, os modelos alternativos de produção são um caminho para a juventude trabalhar no campo. “Cada dia mais testemunhamos o crescimento da demanda de ‘produtos limpos’, por isso o cultivo no modelo agroecológico é altamente promissor para os jovens que desejam permanecer no campo”, aponta.

Barcellos também concorda: “Estamos falando em experimentação e desenvolvimento de saberes associados a uma agricultura ecologicamente sustentável, socialmente justa, que não explore o trabalhador rural, não polua e não cause impactos de maneira deletéria aos ecossistemas”.

Ainda segundo ele, uma das formas de promover a presença dos jovens no contexto rural é que fazer com que eles tenham um sentimento de pertencimento e autonomia para eleger os projetos de vida que desejam desenvolver. “Muitos grupos da juventude rural têm projetos, formam redes e associações, desenvolvem experiências e tecnologias sociais inovadoras. São iniciativas e projetos de resistência perante o modelo hegemônico do agronegócio”, diz Barcellos.

Ficar no campo deve ser uma escolha do jovem e não uma fatalidade. “É preciso compreender que ser agricultor não é limitante nem independe da educação. O nível educacional é importante para o agricultor ou para o exercício de outras profissões no campo. O rural não pode ser visto apenas como o lugar da agricultura, mas também de outras profissões. No entanto, não é assim que o Estado tem tratado o campo. Ao limitar o acesso dos jovens à informação, educação, lazer e cultura, são reduzidas também suas possibilidades de desenvolvimento”, encerra Maria de Assunção.

Defendendo direitos

Buscando lutar por seus direito e reivindicar políticas públicas específicas, uma parcela da população do campo está vinculada a organizações e movimentos sociais como a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), Federação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar (Fetraf), Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Movimento das Mulheres Camponesas, Movimento dos Pequenos Agricultores e Pastoral da Juventude Rural. De acordo com Sérgio Barcellos, além de reivindicar por melhores condições de vida no campo, esses jovens se envolvem em experimentos nos princípios da agroecologia, em atividades envolvendo tecnologias de informação e eletrônica, artesanato e confeitaria e iniciativas em economia solidária.