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Nº.61 UNIVERSO Dez.2016 | Jan.2017

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Ana Maria Vieira Fernandes
22/6/16

Cada vez mais incorporados nas agendas políticas de muitas cidades globais contemporâneas, os megaeventos vêm sendo cobiçados pelos gestores públicos como uma estratégia de posicionamento competitivo no mercado econômico em nível mundial. Os megaeventos podem ser caracterizados como eventos comerciais, culturais, sociais e esportivos que possuem um apelo massivo internacional, envolvendo instituições públicas e privadas, nacionais e internacionais.

Um dos maiores megaeventos existentes são os Jogos Olímpicos. Cidades que nunca sediaram um evento deste porte se espelham em exemplos que se tornaram “modelos” mundialmente famosos e batalham para lograrem esse feito. Ao sediarem as Olimpíadas, tais localidades podem se destacar no mercado globalizado, afinal, os Jogos são uma oportunidade para a captação de investimentos visando a melhoria da infraestrutura da cidade-sede (como a construção e a expansão de aeroportos, rodoviárias e vias de acesso, melhorias em mobilidade urbana, a instalação de equipamentos culturais e esportivos, bem como a implementação de cadeias hoteleiras, redes de alimentos e bebidas, espaços de entretenimento, etc.).

O interesse em sediar os Jogos também se deve ao fato da ampla divulgação da imagem da cidade-sede na mídia internacional, o que alimenta parcerias público-privadas responsáveis pelas intervenções no espaço urbano, fortalecendo a cidade como um destino turístico. Sendo o turismo uma atividade com viés econômico capaz de gerar empregos e renda para uma localidade, este configura-se como uma variável de competitividade para muitas cidades que buscam tornarem-se atrativas, desejo este materializado pela recepção dos Jogos.

Nesta perspectiva, as cidades-sede são, pouco a pouco, transformadas em cidades modernas e atraentes por meio de obras de renovação urbana e, consequentemente, mais caras e acessíveis somente a uma pequena parcela da sociedade onde parte de seus moradores ficam à margem dos processos, impedidos de usufruir os novos equipamentos e melhorias.

Cidades como Barcelona (Espanha) e Sidney (Austrália) são apenas dois dos exemplos mais emblemáticos de cidades que foram inseridas no “mapa turístico mundial” por sediarem as Olimpíadas dos anos de 1992 e 2000, respectivamente. A renovação urbana de ambas cidades e a promoção de suas imagens em nível mundial fez com que as mesmas se consolidassem dentro do mercado turístico, recebendo um fluxo considerável de visitantes até os dias atuais. As Olimpíadas de Sidney trouxeram para a Austrália um adicional de 1,7 milhões de visitantes. Barcelona, que anteriormente aos Jogos tinha uma imagem de cidade industrial com pouca atratividade turística, transformou-se em uma cidade moderna e em um dos destinos turísticos mais procurados na Europa nos últimos anos.

A região de Port Vell, em Barcelona, recebeu investimentos maciços para ser revitalizada especialmente para os Jogos Olímpicos de 1992. Antes a região portuária estava abandonada. Com as mudanças se tornou uma das mais visitadas na Espanha. Crédito: Ana Fernandes.

Hoje o Brasil também vive tais processos na cidade do Rio de Janeiro que vem se transformando em um palco de políticas estratégicas que promovem uma renovação urbana em seu espaço por meio das Olimpíadas que irá sediar em agosto de 2016 e da divulgação de sua imagem para o mercado turístico mundial.

“Rio 2016”

A cidade do Rio de Janeiro candidatou-se para sede dos Jogos 2016 inspirada no chamado “modelo Barcelona” (conjunto de intervenções urbanas que a capital catalã recebeu na ocasião dos Jogos’92 e que a projetou internacionalmente) e será a primeira cidade latino-americana a sediar uma Olimpíada.

Embora o Rio já seja um destino turístico internacional consolidado, os agentes públicos e privados visam um aumento do fluxo de turistas e a permanência dos mesmos na cidade e, por isso, aproveitar a oportunidade dos Jogos para investir em infraestrutura e promover a imagem do Rio “repaginado” na esfera internacional vem sendo uma das prioridades do governo atual.

O investimento em infraestrutura para transformar o Rio em cidade olímpica é o famoso “legado”. Conforme o discurso político, tais investimentos não são somente para os Jogos, mas também para toda a população. O que se replica é que a infraestrutura é idealizada para o evento, mas que os benefícios permanecerão após as competições para toda a cidade. Nesse sentido, o Rio vem passando por uma renovação urbana que transformou a cidade em um verdadeiro canteiro de obras. Muitas são as zonas da cidade que vêm sofrendo intervenções, mas aqui destacamos dois “pontos nevrálgicos” que mais receberam investimentos.

O primeiro localiza-se na zona oeste, na Barra da Tijuca, onde foi construído o Parque Olímpico, que será o coração dos Jogos. Sua estrutura conta com as Arenas Cariocas 1, 2 e 3, a Arena do Futuro, o Estádio Aquático e o Centro de Tênis. O poder público divulga que, como legado para a cidade, as Arenas 1, 2 e 3 serão utilizadas como centros de treinamento de atletas de alto rendimento após os Jogos e a Arena do Futuro, construída com arquitetura nômade, será desmontada após as competições e transformada em quatro escolas.

A zona portuária é o segundo ponto da cidade que merece ser destacado. Inspirado pelos projetos que viu pessoalmente em Barcelona, como a revitalização do Port Vell (um dos atrativos turísticos mais visitados da capital catalã), o prefeito carioca deu início à revitalização da antiga zona portuária da cidade a partir do projeto intitulado “Porto Maravilha”. As renovações tiveram início com a demolição do Elevado da Perimetral, uma via elevada que interligava os principais pontos da cidade. Na altura da Praça Mauá, que marca o início dessa área agora já revitalizada, a Perimetral deu lugar a um passeio público e à instalação de equipamentos culturais como o Museu de Arte do Rio (MAR) e o Museu do Amanhã em seu entorno, diversificando a oferta turística carioca.

Orla Prefeito Luiz Paulo Conde, passeio público de 3,5 km desde o Armazém 8 do Cais do Porto à Praça da Misericórdia. Arborizado, o espaço na região do Porto Maravilha será voltado à circulação de pedestres e ciclistas nos deques, calçadão, ciclovia, praças e áreas de convivência. Crédito: Beth Santos | Agência Brasil  / Fotos Públicas.
 

O Rio ainda conta com obras de mobilidade urbana como a ampliação das linhas do metrô, a instalação de novas vias expressas como a TransOlímpica e a TransOeste para fazer a integração entre diversos pontos da cidade a partir da circulação dos BRT’s (Bus Rapid Transport), bem como a instalação do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), uma espécie de bonde com design moderno que fará a ligação entre a rodoviária até o aeroporto Santos Dumont, passando pela nova Praça Mauá e por parte da Avenida Rio Branco. Esta última também ganhou um passeio público em um dos seus trechos, o que modificou o trânsito proporcionando uma nova paisagem à essa zona da cidade.

BRT é um dos legados dos Jogos Olímpicos para o transporte público da cidade de Rio de Janeiro. Crédito: Beth Santos / Agência Brasil / Fotos Públicas

O “lado B” dos Jogos

Parte da proposta de renovação urbana do Rio Olímpico concentra os investimentos na zona oeste da cidade, uma zona nobre e afastada do centro. Tais obras resultaram em custos sociais e ambientais, como a construção do campo de golfe em uma Área de Proteção Ambiental (APA) e o processo de remoções da população e destruição de suas casas, a exemplo do que ocorreu na Vila Autódromo, uma comunidade que surgiu na década de 1960, localizada ao lado da Lagoa de Jacarepaguá. Das 800 famílias que existiam no local, hoje restam pouco mais de 20 devido às remoções realizadas para a construção do Parque Olímpico. Por causa desses processos, os Jogos vêm sendo chamados por alguns movimentos sociais cariocas de “Jogos da Exclusão”.

Moradores da Vila Autódromo, ao lado do Parque Olímpico, foram removidos. As famílias foram reassentadas ou indenizadas pela prefeitura, mesmo assim, houve confrontos com a Guarda Municipal. Crédito: Fernando Frazão / Agências Brasil / Fotos Públicas

Já a revitalização da zona portuária vem se mostrando positiva para o turismo. Com a área renovada, atividades outrora frequentes como drogas e prostituição diminuíram com os usos do espaço voltados ao lazer. Contudo, apesar de atraírem turistas, a instalação dos museus e a sua arquitetura peculiar destoam do entorno do bairro, espetacularizando o espaço público e provocando um aumento do custo de vida e a especulação imobiliária. Tais processos a longo prazo deverão ser responsáveis pela descaracterização do local e pela expulsão de moradores que não mais terão condições financeiras de viver naquela área.

Ainda é importante destacar que são investidas altas quantias na preparação da infraestrutura para os Jogos para uma demanda sazonal, o que leva à obsolescência dos equipamentos instalados. Além disso, grande parte dos investimentos são realizados em áreas elitizadas em detrimento de áreas mais carentes que necessitam de investimentos sociais mais urgentes.

É possível analisar que as cidades que vivenciam processos de renovação urbana devido a megaeventos acabam centrando as suas atividades em economias de consumo e serviços, como o turismo, gerando impactos como a privatização e a espetacularização dos espaços públicos e o encarecimento do custo de vida para a população. Neste contexto, o desafio maior das cidades que buscam otimizar seus ganhos a partir dos Jogos é justamente buscar o ponto de equilíbrio entre as oportunidades de investimentos e o legado para a população, sem fazer com que a cidade se torne objeto de consumo acessível somente para uma pequena parcela.

Um planejamento turístico participativo que considere de forma sustentável os futuros investimentos na cidade nos âmbitos ambiental, sociocultural e econômico considerando, ainda, as áreas mais carentes de serviços, pode otimizar os impactos positivos dos Jogos, como a geração de empregos, a diversificação da economia e a valorização e promoção da cultura local, fazendo com que os mesmos se tornem verdadeiramente um legado para a sociedade. Afinal, a cidade só será boa para o turista se for, em primeiro lugar, boa para o morador.

 

Este texto é fruto da pesquisa de doutoramento em Geografia Humana do Instituto de Geociências da Unicamp, sob orientação da Prof. Dr(a). Maria Tereza Duarte Paes, ainda em desenvolvimento, a partir de pesquisas de campo realizadas nas cidades de Barcelona (2014) e do Rio de Janeiro (2016).

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sobre o autor

Ana Maria Vieira Fernandes
Ana Maria Vieira Fernandes

Doutoranda em Geografia Humana pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) com estágio de sete meses no Departamento de Geografia Humana na Universitat de Barcelona (Espanha). Professora do curso de graduação da Faculdade de Turismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCAMP).